{"id":6020,"date":"2022-06-23T16:28:06","date_gmt":"2022-06-23T16:28:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6020"},"modified":"2022-07-08T10:28:05","modified_gmt":"2022-07-08T10:28:05","slug":"obstrucao-a-liberdade-e-o-desejo-em-reposicao-nos-artistas-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/06\/23\/obstrucao-a-liberdade-e-o-desejo-em-reposicao-nos-artistas-unidos\/","title":{"rendered":"\u201cObstru\u00e7\u00e3o\u201d: a liberdade e o desejo, em reposi\u00e7\u00e3o nos  \u201cArtistas Unidos"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Quem \u00e9s? Perguntei ao desejo.<\/em><\/p><p><em>Respondeu: lava. Depois p\u00f3. Depois nada<\/em>.<\/p><cite><strong>Hilda Hilst<\/strong><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um conjunto de quatro textos curtos e metaf\u00f3ricos de Dim\u00edtris Dimitri\u00e1dis, que n\u00e3o escondem um pendor pol\u00edtico e uma grande liberdade, caracter\u00edsticas da obra do dramaturgo grego, obra esta amplamente divulgada em Portugal por Silva Melo. Ali\u00e1s, estes textos foram-lhe exclusivamente enviados para ele os levar a cena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos na Gr\u00e9cia Antiga. Ocupando o centro do palco, vemos um amplo colch\u00e3o. Um pano branco no qual incide a luz azul leva-nos para o movimento de um rio. Na margem est\u00e1 um rapaz (Pedro Caeiro), o escolhido por S\u00f3crates entre outros disc\u00edpulos, para a confiss\u00e3o sobre os seus desejos por um jovem. S\u00f3crates fala-lhe da unidade, corpo e alma, que come\u00e7a e acabamos com a nossa vida. \u00c9 posto em causa o que conhecemos dos di\u00e1logos socr\u00e1ticos sobre a imortalidade da alma e a reminisc\u00eancia. Para <em>este<\/em> S\u00f3crates (Pedro Lacerda), a descoberta \u00e9 a da carne e do desejo. O desejo domina S\u00f3crates, o seu interlocutor e o de todos os que, tamb\u00e9m jovens, o v\u00eaem a atravessar a cidade, e a desaparecer. Quem foi S\u00f3crates? Um homem misterioso, que descobriu tamb\u00e9m o desejo, responde Dimitri\u00e1dis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desafiar os Deuses, e ousar amar o outro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cObstru\u00e7\u00e3o\u201d convoca tamb\u00e9m o supl\u00edcio de T\u00e2ntalo, filho de Zeus que testou os Deuses, roubando-lhes o seu manjar, colocando no seu lugar carne do seu filho P\u00e9lope. O castigo por trocar o desejo da carne pela carne do filho foi ser lan\u00e7ado entre vales e rios, em T\u00e1rtaro; cada vez que se aproximava do rio para saciar a sede ou de uma \u00e1rvore para matar a fome com um dos seus frutos, estes afastavam-se. Quem \u00e9 T\u00e2ntalo hoje? Como unimos o desejo de alcan\u00e7armos o que nos \u00e9 pr\u00f3ximo e se pode tornar inalcan\u00e7\u00e1vel, por medos interiores, limita\u00e7\u00f5es da sociedade, ou preconceitos, sejam ele de g\u00e9nero, identit\u00e1rio, de ra\u00e7a ou classe?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 tamb\u00e9m a quest\u00e3o de Narciso (Andr\u00e9 Loubet). Envolto no pano branco, que assume dupla fun\u00e7\u00e3o meton\u00edmica de cobrir a nudez (como manto) e ao mesmo tempo a reflectir (como lago), Narciso evita o amante, nega o seu amor, e evita o seu suic\u00eddio. Diz n\u00e3o ao desejo do outro; para si s\u00f3 existe o seu corpo e a sua imagem. <em>\u201c\u00c9 isto que sou \/ Um n\u00e3o \/ Um s\u00f3 n\u00e3o\u201d<\/em>. O hedonismo deste eu narc\u00edsico parece reflectir a sociedade materialista, egoc\u00eantrica, muitas vezes esquecida de alteridade, do interesse comum, do esp\u00edrito de comunidade. No fim, o Narciso de Dimitri\u00e1dis recusa a idolatria de si (<em>\u201cDigo n\u00e3o ao n\u00e3o\u201d<\/em>), afirmando a capacidade para desejar outro. O dramaturgo sugere que corremos menos riscos de ficarmos afogados na nossa imagem se arriscarmos a entrega afectiva e carnal, aceitando amar e ser amado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A queda de Aquiles, e a obstru\u00e7\u00e3o dos mitos no presente<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Aquiles (Diogo Freitas), o melhor e mais belo lutador contra Troia, jaz num leito de morte, nudez semicoberta (no mesmo lugar onde esteve Narciso), depois de ferido no calcanhar, \u00fanica parte do corpo que deixou desprotegida. Aquele que o acolheu (Simon Frankel) fala da sua figura, agora ali prostrada; ainda o idolatra e deseja. Aquele que era belo e forte, caiu pela sua fraqueza. O que nos pode derrotar pode ser muito pouco; nem sempre cuidamos dessa fraqueza, fortalecendo-a. Nem sempre \u00e9 claro, para cada um de n\u00f3s, como n\u00e3o \u00e9 para estes mitos hel\u00e9nicos, perceber onde reside a sua for\u00e7a, que podem estar no que \u00e9 menos vis\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se atentarmos \u00e0 etimologia da palavra Aquiles veremos que \u00e9 composta, em grego antigo, por um par de outras: luto e povo\/na\u00e7\u00e3o. Afinal, Aquiles seria o her\u00f3i do luto, e n\u00e3o apenas a imagem que dele criaram e que formou o pr\u00f3prio mito. Talvez assim percebamos porque vemos apenas o seu corpo morto, e um homem que vive o luto do her\u00f3i derrotado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os mitos do passado parecem obstru\u00eddos no presente. De que forma nos libertamos, e encaramos a nudez de alma, de entusiamo (que \u00e9 tamb\u00e9m o centro destas personagens tristes, contemplativas e melanc\u00f3licas), ou apenas a imperman\u00eancia do nosso desejo, que pode ser<em> \u201clava. Depois p\u00f3. Depois nada<\/em>.\u201d \u00c9 sobre isso que fala a pe\u00e7a que os Artistas Unidos levaram \u00e0 cena no Teatro da Polit\u00e9cnica, ainda em vida de Jorge Silva Melo, e que rep\u00f5em temporariamente, para nos fazer questionar o qu\u00e3o podem estar obstru\u00eddas as nossas pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es de desejo, nudez, identidade, alteridade e comunidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Artistas Unidos rep\u00f5em no Teatro da Polit\u00e9cnica entre 22 de Junho e 2 de Julho, \u201cObstru\u00e7\u00e3o\u201d, a \u00faltima pe\u00e7a encenada em vida por Jorge Silva Melo. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6021,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6020"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6020"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6055,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6020\/revisions\/6055"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6020"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}