{"id":6001,"date":"2022-06-07T15:41:30","date_gmt":"2022-06-07T15:41:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6001"},"modified":"2022-06-07T15:42:58","modified_gmt":"2022-06-07T15:42:58","slug":"a-reclusao-de-um-pais-em-atras-dessas-paredes-o-novo-filme-de-manuel-mozos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/06\/07\/a-reclusao-de-um-pais-em-atras-dessas-paredes-o-novo-filme-de-manuel-mozos\/","title":{"rendered":"A reclus\u00e3o de um pa\u00eds em \u201cAtr\u00e1s dessas paredes\u201d, o novo filme de Manuel Mozos"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre planos fixos de espa\u00e7os vazios, filmados de uma ou duas perspectivas, v\u00e3o surgindo vozes de mulheres e homens an\u00f3nimos. O que contam recorre a fontes diversas, convocando assim diversas emo\u00e7\u00f5es: s\u00e3o registos documentais, epistolas particulares e outros materiais e escritos de arquivo recolhidos pelo cineasta e colaboradores. O que contam fala das vidas que de alguma forma andaram por estes lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Mozos recorre tamb\u00e9m a imagens de arquivo, que complementam o imagin\u00e1rio entre as imagens actuais e as vozes dos v\u00e1rios narradores, complexificando assim a forma como articula passado e presente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pobreza e doen\u00e7a<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cAtrav\u00e9s Dessas Paredes\u201d salienta o passado marcado pela ditadura fascista, com consequ\u00eancias para as condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f3micas das classes baixas, e repercuss\u00f5es naquilo que era a identidade de um povo camuflado pelo medo. Isto \u00e9 revelado indirectamente atrav\u00e9s do que as vozes contam sobre as imagens. Num sanat\u00f3rio pedi\u00e1trico, vemos crian\u00e7as a brincar, outras deitadas em camas ao ar livre \u00e0 beira-mar, enquanto escutamos relatos sobre os preceitos terap\u00eauticos para o tratamento da tuberculose: era a epidemia dos pobres, dos que tinham menos condi\u00e7\u00f5es de salubridade, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos uma idosa a pedir para um mi\u00fado que se finge doente, a repartirem a esmola, e depois a serem levados pelas autoridades. Sobre estas imagens de arquivo, uma voz conta na primeira pessoa o que acontecia a pobres, mendigos e pedintes encontrados nas ruas, a vaguear ou mendigar: eram levados para a desinfec\u00e7\u00e3o e depois presos.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime condenava e escondia os mais fr\u00e1geis. Mulheres, rapazes, homens e crian\u00e7as lutavam diariamente pela sobreviv\u00eancia. Por isso, Mozos filma o espa\u00e7o da Mitra, para onde pessoas de todas as idades eram levadas por cometer actos considerados il\u00edcitos, como andar descal\u00e7o na rua ou pedir para comer.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Presos pol\u00edticos e guerra colonial<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Eram v\u00e1rios os tipos de repress\u00e3o. Existiam os presos pol\u00edticos, que vemos nas imagens recolhidas da Pris\u00e3o do Limoeiro: atr\u00e1s daquelas paredes, num p\u00e1tio, homens apanham sol; do outro lado daquelas janelas com grades est\u00e1 o Tejo. Escutamos relatos de homens sobre a sua condi\u00e7\u00e3o de presos. Temos ainda imagens do Forte de Peniche, e dos presos que l\u00e1 se encontravam antes do 25 de abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Na guerra colonial, um homem l\u00ea uma carta que escreve \u00e0 namorada. Confessa o seu desespero e solid\u00e3o. Fala-nos na primeira pessoa do que sentiam aqueles homens longe do pa\u00eds, em combates sem sentido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Outros marginalizados:<\/strong><strong><em>&nbsp;os loucos<\/em><\/strong><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Se temos pris\u00f5es para onde eram arremessados pobres que apenas queriam sobreviver, e aqueles que na clandestinidade lutavam contra a ditadura, temos tamb\u00e9m os que eram considerados loucos. Aqueles que, medicados, viviam encerrados em hospitais psiqui\u00e1tricos. Mozos d\u00e1-nos not\u00edcias desse regime de encarceramento e marginaliza\u00e7\u00e3o, de como homens e mulheres viviam atr\u00e1s daquelas paredes do J\u00falio de Matos ou do Miguel Bombarda, no cora\u00e7\u00e3o de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>E hoje?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O que \u201cAtr\u00e1s Dessas Paredes\u201d nos faz concluir \u00e9 que hoje podemos viver \u00e0 frente de paredes e podemos atravess\u00e1-las, sem nos escondermos com medo de exprimir o que pensamos e sentimos. Tamb\u00e9m nos diz que \u00e9 fundamental convocar a mem\u00f3ria e o passado, para compreendermos o presente, reflectirmos e agirmos na direc\u00e7\u00e3o de um futuro mais igualit\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAtr\u00e1s Dessas Paredes\u201d, o novo document\u00e1rio de Manuel Mozos, que teve estreia nacional em Maio, no festival IndieLisboa, viaja por um pa\u00eds e lugares do passado, fazendo-nos questionar sobre a realidade em que hoje vivemos.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6002,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6001"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6001"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6001\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6006,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6001\/revisions\/6006"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6001"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6001"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}