{"id":5961,"date":"2022-06-07T11:40:58","date_gmt":"2022-06-07T11:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5961"},"modified":"2022-06-07T11:41:01","modified_gmt":"2022-06-07T11:41:01","slug":"rocha-martins-jornalista-de-lisboa-e-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/06\/07\/rocha-martins-jornalista-de-lisboa-e-da-liberdade\/","title":{"rendered":"Rocha Martins, jornalista de Lisboa e da liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7ou a causa da monarquia constitucional quando esta declinava, ap\u00f3s o assassinato do rei D. Carlos e do pr\u00edncipe Lu\u00eds Filipe, em 1908. Implantada a Rep\u00fablica, em 1910, permaneceu fiel ao \u00faltimo rei, D. Manuel II, ao longo dos 22 anos em que este viveu no ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta postura, Rocha Martins esteve na oposi\u00e7\u00e3o ao poder republicano, inclusive em cargos eleitos como deputado e como autarca municipal de Lisboa. Ajudou&nbsp;<em>\u201c\u00e0 propaganda e eclos\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;do golpe militar que derrubou a 1\u00aa Rep\u00fablica, em 1926, mas&nbsp;<em>\u201cn\u00e3o concordou com a sequ\u00eancia\u201d<\/em>. E&nbsp;<em>\u201cabandonou a pol\u00edtica\u201d<\/em>&nbsp;quando D. Manuel II faleceu, em 1932 \u2013 segundo ele pr\u00f3prio explicaria [<em>Rep\u00fablica<\/em>, 20\/05\/1961, p.26].<\/p>\n\n\n\n<p>Mas perante o fascismo, e quando j\u00e1 entrava na dita terceira idade, Rocha Martins acabou por tomar posi\u00e7\u00e3o na linha da frente, em luta pela liberdade. A partir de 1945, torna-se um porta-voz da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, no principal jornal anti-fascista (na legalidade), o di\u00e1rio&nbsp;<em>Rep\u00fablica.<\/em>&nbsp;Faz parte da junta consultiva do MUD (Movimento de Unidade Democr\u00e1tica), ao lado de figuras como Norton de Matos e Ant\u00f3nio S\u00e9rgio. E at\u00e9 adere ao velho Partido Socialista Portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao falecer, em 1952, deixa grande parte dos seus bens \u00e0 A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>No jornal A Batalha<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Francisco Jos\u00e9 Rocha Martins nasceu na cidade de Lisboa, freguesia de Bel\u00e9m, em 1879. Come\u00e7ou a trabalhar aos 15 anos, como empregado de escrit\u00f3rio. Ainda almejou tornar-se engenheiro naval e passou pelas oficinas do Arsenal da Marinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi pelo jornalismo que cedo enveredou. Colaborou em v\u00e1rios t\u00edtulos da grande imprensa, entre os quais o&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>. Fundou as revistas ilustradas&nbsp;<em>ABC<\/em>&nbsp;(em 1920) e&nbsp;<em>Arquivo Nacional<\/em>&nbsp;(em 1932). Foi presidente da associa\u00e7\u00e3o mutualista dos jornalistas, a Casa da Imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicou v\u00e1rios livros, denotando uma paix\u00e3o pela hist\u00f3ria de Portugal e tamb\u00e9m pela sua cidade. Integrou ali\u00e1s, em 1936, a comiss\u00e3o organizadora da associa\u00e7\u00e3o Grupo Amigos de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo jornalismo se ligou ao movimento oper\u00e1rio, em 1925, com a sua colabora\u00e7\u00e3o no di\u00e1rio sindicalista&nbsp;<em>A Batalha<\/em>, \u00f3rg\u00e3o da CGT (Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho). \u00c9 bem um exemplo da diversidade ideol\u00f3gica presente nesse jornal \u2013 e no pr\u00f3prio movimento sindical.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Preso pol\u00edtico<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Um testemunho interessante sobre Rocha Martins foi deixado pelo sindicalista Manuel Joaquim de Sousa, antigo secret\u00e1rio-geral da CGT e diretor da&nbsp;<em>A Batalha<\/em>. Recorda que, em 1929, o seu filho, Germinal de Sousa, tamb\u00e9m ele um destacado sindicalista, foi preso pela ditadura militar. A&nbsp;<em>\u201cpol\u00edcia exerce sobre ele os piores tratos\u201d<\/em>. E Rocha Martins&nbsp;<em>\u201cinterv\u00e9m para que o libertem, como j\u00e1 antes havia evitado a sua deporta\u00e7\u00e3o para Angola, em 1927\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecedor, depois, das torturas a que aquele jovem foi submetido, Rocha Martins&nbsp;<em>\u201cprotestou indignado junto do ent\u00e3o presidente do minist\u00e9rio, o general Jos\u00e9 Vicente de Freitas, o qual quis ver o jovem martirizado e da sua pr\u00f3pria boca ouvir o relato dos factos\u201d<\/em>. Mas&nbsp;<em>\u201choras depois\u201d<\/em>, a redac\u00e7\u00e3o da revista ABC&nbsp;<em>\u201cera assaltada para de novo ser preso aquele jovem. E como este j\u00e1 n\u00e3o fosse encontrado, \u00e9, por sua vez, preso Rocha Martins sob o pretexto de lhe ter facilitado a fuga\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Manuel Joaquim de Sousa,&nbsp;<em>\u201co esc\u00e2ndalo nos bastidores governamentais e policiais foi grande pois Rocha Martins, tendo tomado parte activamente nos preparativos do 28 de Maio\u201d<\/em>, foi inicialmente&nbsp;<em>\u201cconsiderado amigo da situa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;[Sousa (1989),&nbsp;<em>\u00daltimos tempos de ac\u00e7\u00e3o sindical livre e do anarquismo militante<\/em>, pp. 54\/5].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Legado \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Outro antigo sindicalista a evocar a mem\u00f3ria de Rocha Martins foi Joaquim Cardoso, destacado fundador do jornal&nbsp;<em>A Batalha<\/em>&nbsp;e do Partido Comunista Portugu\u00eas, al\u00e9m de secret\u00e1rio-geral da federa\u00e7\u00e3o sindical dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil. E f\u00ea-lo aqui, na A Voz do Oper\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAs suas conversas, a muitas das quais assisti, eram sempre interessantes na defesa dos oprimidos\u201d<\/em>. Rocha Martins&nbsp;<em>\u201ccumpriu a afirma\u00e7\u00e3o que uma vez me fez de que o pouco que possu\u00eda deix\u00e1-lo-ia aos seus camaradas prolet\u00e1rios. Nobremente satisfez tal promessa, legando \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio grande parte da sua volumosa e interessante biblioteca, assim como o pr\u00e9dio que possu\u00eda\u201d<\/em>, em coer\u00eancia&nbsp;<em>\u201ccom os princ\u00edpios humanos que sempre defendeu\u201d<\/em>&nbsp;[<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, 01\/08\/1952, p.1].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O 1\u00ba de Maio em Lisboa<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No seu livro&nbsp;<em>Lisboa de ontem e de hoje<\/em>&nbsp;(1945) Rocha Martins menciona A Voz do Oper\u00e1rio como&nbsp;<em>\u201cbenem\u00e9rita institui\u00e7\u00e3o, o grande centro fraternal dos trabalhadores, grande associa\u00e7\u00e3o escolar e de socorro m\u00fatuo\u201d<\/em>, que&nbsp;<em>\u201cest\u00e1 instalada entre o Bairro de S. Vicente e o da Gra\u00e7a na rua que tem o seu nome e bem merecidamente\u201d<\/em>. Aponta ainda que foi no tempo da monarquia que o chefe do governo de 1906 a 1908, Jo\u00e3o Franco,&nbsp;<em>\u201cconcedeu ao baluarte prolet\u00e1rio o terreno onde edificou a sua sede\u201d<\/em>&nbsp;[p.37].<\/p>\n\n\n\n<p>Noutra obra de estudos olissiponenses,&nbsp;<em>Lisboa &#8211; hist\u00f3ria das suas gl\u00f3rias e cat\u00e1strofes&nbsp;<\/em>(1947), Rocha Martins recorda como eram as primeiras celebra\u00e7\u00f5es do 1\u00ba de Maio nesta cidade. Havia um&nbsp;<em>\u201cgrande cortejo\u201d<\/em>&nbsp;que&nbsp;<em>\u201catravessava da Avenida da Liberdade para o cemit\u00e9rio dos Prazeres\u201d<\/em>, onde culminava com a coloca\u00e7\u00e3o de flores na campa de Jos\u00e9 Fontana,&nbsp;<em>\u201co sui\u00e7o que, sendo gerente da livraria Bertrand, do Chiado, animara a ideia socialista em Portugal\u201d<\/em>&nbsp;[pp.1013\/4].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mon\u00e1rquico a colaborar no di\u00e1rio sindicalista A Batalha? Um apoiante do golpe militar de 1926 que se torna destacado antifascista? Assim foi o jornalista e escritor Rocha Martins, quase sempre em rebeldia contra o poder instalado.<\/p>\n","protected":false},"author":153,"featured_media":5963,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[89],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5961"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/153"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5961"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5965,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5961\/revisions\/5965"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5961"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}