{"id":5872,"date":"2022-05-05T17:29:30","date_gmt":"2022-05-05T17:29:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5872"},"modified":"2022-06-07T10:56:26","modified_gmt":"2022-06-07T10:56:26","slug":"o-leitor-o-espectador-deve-ser-por-definicao-critico-e-desconfiado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/05\/05\/o-leitor-o-espectador-deve-ser-por-definicao-critico-e-desconfiado\/","title":{"rendered":"\u201cO leitor, o espectador, deve ser por defini\u00e7\u00e3o cr\u00edtico e desconfiado.\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">O senador Joseph Maccarthy, referindo-se a um jornalista que questionava a l\u00f3gica de os comunistas serem os inimigos dos EUA, disse um dia \u201cSe o Sr. Murrow est\u00e1 a dar conforto aos nossos inimigos, n\u00e3o deveria ser permitido que ele entrasse nas casas de milh\u00f5es de americanos.\u201d. Dar \u201cconforto ao inimigo\u201d tem sido um linguajar presente em muito do nosso sistema medi\u00e1tico e de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma medida de aferi\u00e7\u00e3o de jornalismo ou de propaganda?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que o senador em quest\u00e3o n\u00e3o era medida de jornalismo. E se calhar nem sequer era medida propaganda. Era medida da repress\u00e3o a ideias que fossem diferentes. Era o senador que dirigia o chamado Comit\u00e9 de atividades anti americanas que permitia ou pretendia detectar toda a gente que tivesse ideias comunistas e progressistas que estivessem colocados em cargos ou na comunica\u00e7\u00e3o social ou na ind\u00fastria de espet\u00e1culo e essas pessoas tinham que responder \u00e0s suas perguntas. Se invocavam a emenda da liberdade de opini\u00e3o ou a outra emenda que diz que n\u00e3o podem responder para n\u00e3o ser culpabilizadas, tinham a\u00ed uma escapat\u00f3ria mas perdiam o emprego. Se afirmavam que eram comunistas eram-lhes pedidos os outros nomes das pessoas comunistas e se n\u00e3o o fizessem eram acusados de desrespeito ao comit\u00e9, eu acho que era n\u00edvel Senado, e condenados. Assim, um conjunto muito grande de pessoas que tinham ideias progressistas foram sucessivamente afastadas, foram para o desemprego, foram ostracizadas, e portanto criou-se um clima verdadeiramente de ca\u00e7a \u00e0s bruxas fazendo equivaler pessoas que t\u00eam ideias diferentes a inimigos da na\u00e7\u00e3o. Como se a na\u00e7\u00e3o fosse apenas uma hip\u00f3tese e n\u00e3o estivessem em discuss\u00e3o pela sua popula\u00e7\u00e3o e pelas pessoas em geral. N\u00e3o creio que fosse uma medida do jornalismo. Creio que, de facto, era uma medida de repress\u00e3o. E essa ideia de que na cobertura do jornalismo h\u00e1 um inimigo e h\u00e1 o nosso lado e n\u00f3s temos que corrigir os erros ortogr\u00e1ficos dos <em>press releases<\/em> [comunicados de imprensa] da embaixada do nosso lado, public\u00e1-los sem nenhuma pergunta e combater o inimigo n\u00e3o tem nada com jornalismo. E isso n\u00e3o tem a ver com jornalismo em circunst\u00e2ncias nenhuma. Como \u00e9 \u00f3bvio, h\u00e1 casos limite. Quando estou a fazer uma reportagem sobre os campos de concentra\u00e7\u00e3o na Segunda Guerra Mundial, a verdade n\u00e3o \u00e9 estabelecida por duas opini\u00f5es diferentes e de dois lados, porque o carrasco e o torcion\u00e1rio da Gestapo n\u00e3o t\u00eam o mesmo peso nem o mesmo valor nem estabelecem a verdade como a v\u00edtima, o comunista, o judeu, o cigano, que morreram nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;N\u00e3o est\u00e1 em causa que houve um invasor e um invadido. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a guerra se resume a isso.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que eu, ao fazer uma cobertura, n\u00e3o tenha de o fazer nas regras do jornalismo, o que significa verificar factos, ter v\u00e1rias opini\u00f5es, e quando se publica determinada coisa que \u00e9 dada por uma fonte, identificar essa fonte. O que est\u00e1 a acontecer na cobertura actual da guerra \u00e9 que os jornalistas publicam propaganda e coisas sem sequer dizerem que lhes foram dadas por um lado do conflito. \u00c9 divulgado como se fosse a realidade, realidade que eles n\u00e3o viram, que n\u00e3o puderam aferir, limitam-se a repetir e sentem-se legitimados por isso, porque integraram que est\u00e3o a fazer uma fun\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 de derrotar um dos lados da guerra. N\u00e3o est\u00e1 em causa que houve um invasor e um invadido. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a guerra se resume a isso e que possas fazer uma cobertura com base num conjunto de dias tem\u00e1ticos de propaganda e de alegados factos que t\u00eam como efeito a total diaboliza\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d e n\u00e3o apenas daqueles que deram ordem da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, mas como n\u00f3s vamos verificar, dos pr\u00f3prios russos. Actualmente temos russos que s\u00e3o perseguidos, por serem russos s\u00e3o considerados suspeitos \u00e0 partida, temos escritores russos que viveram no s\u00e9culo XVIII, XVII, que passaram a ser culpados por uma guerra sobre a qual n\u00e3o t\u00eam nada que ver e que podem n\u00e3o ser publicados e editados, podem ser censurados e isto tem a ver com esta divis\u00e3o do mundo em dois lados e o jornalismo achar-se no direito e no dever de fazer parte das For\u00e7as Armadas de um dos lados e n\u00e3o da parte do jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Nesse sentido, achas que podemos falar numa esp\u00e9cie de neomccarthismo ou \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o exagerada?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que antes de haver o macarthismo teria havido fen\u00f3menos do mesmo tipo. Vimos de uma situa\u00e7\u00e3o muito complicada. Tivemos uma crise financeira, tivemos uma pandemia em que o medo do desconhecido, o medo da morte, aumentou em muito a irracionalidade, e neste momento temos uma guerra e houve muito daquilo que estava no subsolo, dos piores sentimentos de um conjunto de gente e dos maiores \u00f3dios de um conjunto de gente que foi libertado. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de liberta\u00e7\u00e3o da palavra fascista, da palavra racistas e homof\u00f3bica, de coisas que anteriormente as pessoas teriam vergonha de dizer. Que do meu ponto de vista est\u00e1 obviamente associado a este conjunto de acontecimentos mas tamb\u00e9m a um outro conjunto de acontecimentos que \u00e9 exist\u00eancia de redes sociais. As redes sociais, pela sua estrutura, tendem a polarizar opini\u00f5es, a simplific\u00e1-las, e a agregar maluquinhos. Um maluquinho sozinho a dizer que a terra \u00e9 plana \u00e9 uma coisa, quando ele se encontra numa bolha de 100000 \u00e9 outra, e com acesso ao WhatsApp para difundir para 2 milh\u00f5es \u00e9 outra, e portanto isto tudo junto cria um caldo que torna dif\u00edcil fazeres qualquer cr\u00edtica porque no momento em que criticas \u00e9s pr\u00f3-putinista, n\u00e3o respeitas o sofrimento das mulheres e dos homens da Ucr\u00e2nia quando, enfim, acho que os poderosos nos seu geral est\u00e3o relativamente pouco preocupados com a Ucr\u00e2nia. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Acho que os poderosos nos seu geral est\u00e3o relativamente pouco preocupados com a Ucr\u00e2nia. Ali\u00e1s, est\u00e3o muito empenhados a combater a R\u00fassia at\u00e9 ao \u00faltimo ucraniano. &#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, est\u00e3o muito empenhados a combater a R\u00fassia at\u00e9 ao \u00faltimo ucraniano. E isso \u00e9 o que o que se est\u00e1 a verificar. O respeitar a popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e da R\u00fassia contra os poderes que decidiram esta guerra significa, no meu entender, humanizar as pessoas, tentar dares-lhes voz contra esta guerra e permitir que haja de facto uma negocia\u00e7\u00e3o de paz, algo que consiga um entendimento entre aqueles dois povos, apesar daqueles dois governos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Voltando a&nbsp; essa parte de que estavas a falar das cr\u00edticas e de como \u00e9 que as pessoas que criticam uma narrativa dominante s\u00e3o encarados n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m encarar a cr\u00edtica a essa cr\u00edtica como mera cr\u00edtica e n\u00e3o como persegui\u00e7\u00e3o, como tantas vezes tem sido alegado? Qual \u00e9 que \u00e9 a diferen\u00e7a? Achas que se pode falar na constru\u00e7\u00e3o de um consenso for\u00e7ado ou de uma narrativa quando, apesar de tudo, e das diferen\u00e7as h\u00e1 direito a espa\u00e7os de cr\u00f3nica nos jornais, algumas pessoas cr\u00edticas e com vis\u00f5es n\u00e3o dominantes v\u00e3o tendo espa\u00e7o. Achas que faz sentido falar num ambiente condicionado?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu posso ver isso por mim. 500 vezes deixo de escrever coisas para n\u00e3o ter a chatice de passar uma semana a ter que responder que n\u00e3o sou putinista, que condeno a invas\u00e3o, que n\u00e3o sou favor\u00e1vel \u00e0 guerra, mas que isso n\u00e3o me faz ter que declarar que o Batalh\u00e3o Azov \u00e9 um grupo de monjas da caridade, ou ter que declarar que qualquer declara\u00e7\u00e3o que vejo na comunica\u00e7\u00e3o social \u00e9 verdade, quando objetivamente \u00e9 mentira. Quando eu vi o famoso \u201cpiloto fantasma\u201d que abatia dezenas de avi\u00f5es russos, sabia que era mentira, que era uma coisa de propaganda. Ontem, o pr\u00f3prio ex\u00e9rcito ucraniano veio reconhecer que criaram aquela figura para moralizar as suas tropas. O meu problema n\u00e3o \u00e9 que o ex\u00e9rcito ucraniano crie figuras para moralizar as tropas. O meu problema s\u00e3o as dezenas de not\u00edcias de jornalistas s\u00e9rios, de \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o sociais s\u00e9rios, a falar do \u201cpiloto fantasma\u201d. Eu n\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida que haja viola\u00e7\u00f5es na guerra, crueldades sobre os civis, mas quando tenho adquiridas como verdadeiras alega\u00e7\u00f5es de crimes e nunca vistas e verificadas e outras abafadas porque s\u00e3o de sinal contr\u00e1rio\u2026 \u00c9 uma das formas da guerra ser feita, e isso v\u00ea-se, por exemplo, quando falamos da Segunda Guerra Mundial. Falamos numa ideia nossa, do mal absoluto que seriam os nazis e o outro lado combatia o mal absoluto. A verdade \u00e9 que os Aliados cometeram in\u00fameros crimes nessa guerra, apesar de terem a posi\u00e7\u00e3o correta. Quando os sovi\u00e9ticos libertaram Berlim, houve dezenas, centenas de mulheres que foram violadas. Quando os Estados Unidos bombardearam Dresden, mataram centenas de milhares de pessoas. Quando largaram duas bombas nucleares, sem nenhuma raz\u00e3o militar, mataram milh\u00f5es de pessoas. E no entanto, estavam do lado correcto. <\/p>\n\n\n\n<p>Em guerras onde n\u00e3o h\u00e1 um mal t\u00e3o absoluto e uma for\u00e7a que se op\u00f5e a um mal t\u00e3o absoluto, que s\u00e3o guerras entre pot\u00eancias capitalistas e imperialistas, as coisas s\u00e3o ainda mais diferentes. Se formos analisar a Primeira Guerra Mundial, verificamos que h\u00e1 sempre o mesmo menu adoptado: o outro lado tem muitas baixas e n\u00f3s temos poucas baixas, o outro lado faz crimes de guerra e n\u00f3s n\u00e3o, o outro lado viola e mata velhos e crian\u00e7as e n\u00f3s n\u00e3o, e assim sucessivamente, porque um dos aspectos necess\u00e1rios numa guerra, para mobilizar uma popula\u00e7\u00e3o contra outro povo \u00e9 torn\u00e1-lo n\u00e3o normal. Verific\u00e1mos isso recentemente nas guerras nos Balc\u00e3s, em que se veio a verificar que grande parte dos massacres que eram atribu\u00eddos aos s\u00e9rvios, n\u00e3o eram dos s\u00e9rvios. Houve muitos massacress que foram feitos por b\u00f3snios, por croatas, etc, comportamentos de viola\u00e7\u00f5es, de genoc\u00eddio de popula\u00e7\u00f5es. Infelizmente foram generalizados e muitos deles at\u00e9 inventados para justificar a interven\u00e7\u00e3o estrangeira das tropas da NATO.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> &#8220;Um dos aspectos necess\u00e1rios numa guerra, para mobilizar uma popula\u00e7\u00e3o contra outro povo \u00e9 torn\u00e1-lo n\u00e3o normal. &#8220;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O problema do jornalismo \u00e9 que o jornalismo tem que dizer a verdade e tem que tentar chegar a essa verdade, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil numa situa\u00e7\u00e3o de guerra num pa\u00eds onde existe uma barreira lingu\u00edstica para os jornalistas que n\u00e3o s\u00e3o de l\u00e1, mas \u00e9 preciso que os jornalistas tenham mais cuidado, que n\u00e3o reproduzam a primeira imagem que v\u00eaem. Uma das coisas que mais me irritou, foi aquela c\u00e9lebre not\u00edcia, muitas aspas, de que as m\u00e3es da Ucr\u00e2nia escreviam nas costas dos filhos o seu nome o seu contacto, porque se houvesse um bombardeamento e algu\u00e9m visse as crian\u00e7as, teriam l\u00e1 o nome e o contacto dos familiares. Foi uma imagem numa rede social. A partir dessa imagem &#8211; n\u00e3o sei se a not\u00edcia \u00e9 verdadeira noutro s\u00edtio qualquer &#8211; mas nessa imagem as coisas estavam escritas com alfabeto latino. Que eu saiba, na Ucr\u00e2nia vivem ucranianos que usam alfabeto cir\u00edlico e a probabilidade de a crian\u00e7a depois de um bombardeamento ser encontrada por ucranianos deve ser relativamente maior do que ser encontrada por um jornalista do New York Times ou de algum pa\u00eds de alfabeto latino. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> &#8220;O papel do jornalista \u00e9 fazer not\u00edcias que s\u00e3o o mais verdadeiras poss\u00edveis. E isso \u00e9 diferente de ser combatente de um dos ex\u00e9rcitos.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Obviamente, a jornalista foi chorar baba e ranho simpaticamente porque sentiu empatia naquele caso. Lamentavelmente, aquele caso era um aspecto de propaganda. At\u00e9 podia ser um aspecto de propaganda que n\u00e3o tinha passado pelo Minist\u00e9rio de Propaganda ucraniano. Tinha sido algu\u00e9m que resolveu por aquela imagem, como utilizaram imagens de jovens palestinianas como se fossem jovens ucranianas, crian\u00e7as palestinianas a oporem-se a soldados israelitas e que foram presas, com 6 anos e passaram a vida na cadeia, mas como eram loiras, passaram por crian\u00e7as ucranianas. H\u00e1 um conjunto de mentiras que vamos comendo nesta guerra, que n\u00e3o justificam essa guerra, que n\u00e3o t\u00eam que nos fazer concordar com esta invas\u00e3o, mas o papel do jornalista n\u00e3o \u00e9 multiplicar mentiras porque acha que est\u00e1 do lado certo. O papel do jornalista \u00e9 fazer not\u00edcias que s\u00e3o o mais verdadeiras poss\u00edveis. E isso \u00e9 diferente de ser combatente de um dos ex\u00e9rcitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E num contexto em que muita gente s\u00f3 l\u00ea t\u00edtulos ou <em>leads <\/em>e, por outro lado, o pr\u00f3prio jornalista n\u00e3o produz, muitas vezes, esses t\u00edtulos, n\u00e3o faz a edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o escolhe as imagens ou destaques. Como \u00e9 que \u00e9 feito esse processo de elabora\u00e7\u00e3o da not\u00edcia e como \u00e9 que s\u00e3o feitos este tipo de escolha editoriais?<\/p>\n\n\n\n<p>Sou jornalista h\u00e1 muito tempo e em redac\u00e7\u00f5es. Essa teoria de que, em alguns meios, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de hierarquia do mal, que reproduz um conjunto de not\u00edcias deturpadas, atrav\u00e9s de ordens que s\u00e3o dadas aos jornalistas, n\u00e3o existe. O que acontece \u00e9 que existe um consenso ideol\u00f3gico de que h\u00e1 um lado bom e um lado mau e tudo o que vem a favor deste lado bom, neste caso a Ucr\u00e2nia, \u00e9 verdade. E tudo o que vem do lado mau, \u00e9 mentira. E os jornalistas, como n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1, e mesmo quando est\u00e3o, est\u00e3o muito condicionados, o que fazem \u00e9 reproduzir <em>ispis verbis<\/em> essas informa\u00e7\u00f5es. Acresce que h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o do jornalismo. Antigamente as pessoas faziam jornais, que eram di\u00e1rios, seman\u00e1rios. Agora t\u00eam o online, t\u00eam de estar a debitar ao minuto, por causa das audi\u00eancias, not\u00edcias ou escritos, porque aquilo n\u00e3o s\u00e3o not\u00edcias. E quanto mais emocionante e mais dram\u00e1tica for a not\u00edcia, mais as pessoas v\u00e3o clicar. Quando \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o, quando s\u00e3o criancinhas que s\u00e3o empalhadas, o mais disparatado que for, mais gente vai clicar e isso ajuda a que essas ditas not\u00edcias, desse g\u00e9nero sensacionalista, tenham uma circula\u00e7\u00e3o ainda maior nas redes sociais, tenham mais audi\u00eancia e se tornem omnipresentes. Esses t\u00edtulos, essas entradas s\u00e3o feitas normalmente pelos jornalistas que fazem a not\u00edcia, embora possam ser corrigidas pelos editores para serem mais vend\u00e1veis. O drama desta coisa \u00e9 que tu n\u00e3o podes dizer uma coisa que diz o Minist\u00e9rio. O Minist\u00e9rio das For\u00e7as Armadas da Ucr\u00e2nia chegou a enviar imagens de jogos de v\u00eddeos como provas de abates de avi\u00f5es russos. Portanto n\u00e3o \u00e9 propriamente a coisa mais confi\u00e1vel da Terra e tem objetivamente um interesse, que \u00e9 o interesse leg\u00edtimo de proteger as suas for\u00e7as, de lhes dar \u00e2nimo, dizer que est\u00e3o a ganhar a guerra, e para isso usa todos os expedientes necess\u00e1rios e n\u00e3o apenas aqueles que s\u00e3o \u00e9ticos. A mesma hist\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o ao Minist\u00e9rio russo. Quando diz que foi uma avaria na cabine que provocou um inc\u00eandio e que afundou o barco, o cruzador de Moskva, eu se fosse propagandista russo preferia assumir que foram dois misseis, em vez de um tipo que meteu os talhares dentro do microondas, porque isso d\u00e1 um n\u00edvel de amadorismo e de incompet\u00eancia que \u00e9 bastante pior que ser abatido. Mas todas essas fontes s\u00e3o fontes interessadas. Os russos est\u00e3o interessados em dizer que \u00e9 imposs\u00edvel os ucranianos abaterem um barco daquele tamanho e os ucranianos multiplicam por 10 ou por 20 as v\u00edtimas dos russos e todos os mortos ucranianos s\u00e3o civis. H\u00e1 coisas em ambos os lados do conflito que os jornalistas t\u00eam de desconfiar e que s\u00e3o propaganda. \u00c9 \u00f3bvio que h\u00e1 v\u00edtimas civis, n\u00e3o porque os russos tenham feito fogo propositadamente a vitrines civis, mas quando um ex\u00e9rcito que \u00e9 menor do ponto de vista do seu armamento se defende, defende-se no meio de uma cidade onde existem civis. N\u00e3o se v\u00e3o concentrar todos num campo de futebol para que os russos os bombardeiem isoladamente. E \u00e9 \u00f3bvio que os russos ao bombardear t\u00eam que bombardear civis. Aquilo que \u00e9 cruel, e irracional e que tem que acabar \u00e9 porcaria da guerra. Agora, uma coisa s\u00e3o as duas partes que est\u00e3o em conflito, outra coisa s\u00e3o jornalistas. Infelizmente, isso n\u00e3o existe em Portugal e duvido que exista nos jornalistas ocidentais. Como disse o provedor do leitor do P\u00fablico, Barata-Feyo, dizem que na R\u00fassia s\u00f3 v\u00eaem propaganda mas n\u00f3s, aqui, s\u00f3 vemos propaganda, e o problema \u00e9 que temos jornalistas que acham que fazer propaganda \u00e9 a obra de arte maior do jornalismo, e jornalistas que acham que denunciar colegas que fazem trabalho mostrando o outro lado, pondo em perigo a sua vida, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o que est\u00e3o a fazer para o jornalismo, quando essas pessoas deviam ser escorra\u00e7adas do jornalismo, ao por em causa a seguran\u00e7a de camarada seus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Nessa quest\u00e3o do recurso \u00e0 mentira e deturpa\u00e7\u00e3o dos factos, estavas a falar de factos que ocorrem no terreno da guerra, mas isso tamb\u00e9m est\u00e1 a ter epis\u00f3dios em Portugal. Estava-me a lembrar da situa\u00e7\u00e3o recente da C\u00e2mara Municipal de Set\u00fabal, onde se verificam coisas muito f\u00e1ceis de aferir como a errada referencia ao presidente como comunista, ou os pr\u00f3prios esclarecimentos que a c\u00e2mara emite s\u00e3o ignorados nas not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui h\u00e1 um segundo dado. Existe, j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, um alinhamento generalizado, do ponto de vista editorial e da classe jornal\u00edstica, porque ela n\u00e3o \u00e9 apenas constitu\u00edda por diretores, que tem uma determinada ideia do Partido Comunista e essa ideia, para eles, \u00e9 a realidade. Tudo o que se afaste dessa cartilha, n\u00e3o publicam. Tenho lido em v\u00e1rios jornais que grande parte do apoio que tem sido dado a popula\u00e7\u00f5es ucranianas, em Fran\u00e7a,&nbsp;It\u00e1lia, Espanha, s\u00e3o dadas por associa\u00e7\u00f5es eslavas, que t\u00eam russos, ucranianos e outras pessoas que t\u00eam capacidade de entender a sua l\u00edngua. Por um lado, a nossa imprensa elogia os russos que arriscam 15 anos de cadeia ao manifestarem-se contra a guerra. N\u00e3o h\u00e3o-de elogiar russos, muitos deles cidad\u00e3os portugueses, que ajudam, nas suas associa\u00e7\u00f5es, a que os ucranianos tenham acolhimento, tenham direito a casa, tenham direito a educa\u00e7\u00e3o e tenham direito a trabalho? Ser russo passou a ser um pecado em si? Um defeito de car\u00e1ter, ou s\u00e3o pessoas? Para haver um imbecil que diz que todos as pessoas de associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o espi\u00f5es pr\u00f3-Putin, essa pessoa tem de provar o que diz. Eu estive tr\u00eas anos no Luxemburgo. As associa\u00e7\u00f5es de portugueses t\u00eam todas contacto com Embaixada de Portugal. S\u00e3o os membros das associa\u00e7\u00f5es de portugueses membros dos servi\u00e7os secretos portugueses? N\u00e3o s\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De norte a sul do pa\u00eds chegaram 35000 ou 36000 pessoas, portanto as c\u00e2maras usaram as associa\u00e7\u00f5es que tinham essas potencialidades. Essa associa\u00e7\u00e3o, pelos vistos, foi disponibilizada pelo ACM [Alto Comissariado para as Migra\u00e7\u00f5es] e, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o honesta que quis participar. N\u00e3o \u00e9 a embaixada da Ucr\u00e2nia, nem uma determinada associa\u00e7\u00e3o de ucranianos com uma determinada tend\u00eancia pol\u00edtica que, ali\u00e1s, acha normal pedir a ilegaliza\u00e7\u00e3o de partidos portugueses, que determina quem s\u00e3o as pessoas que s\u00e3o portuguesas e que trabalham na C\u00e2mara de Set\u00fabal. At\u00e9 podiam n\u00e3o ser portuguesas mas no caso em concreto era. Era funcion\u00e1ria daquele servi\u00e7o, as perguntas que fez constam dos documentos que s\u00e3o pedidos, n\u00e3o fez nem mais nem menos, e tamb\u00e9m n\u00e3o estava sozinha a faz\u00ea-lo, portanto obviamente que esta not\u00edcia n\u00e3o \u00e9 propriamente uma not\u00edcia, \u00e9 uma uma tentativa, porque se esta associa\u00e7\u00e3o, segundo me dizem, participa desde a c\u00e2mara de Gondomar, at\u00e9 outros locais, porque n\u00e3o fizeram essa not\u00edcia sobre a C\u00e2mara de Gondomar? Havia claramente um objetivo e o gui\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo: o PCP est\u00e1 ao lado da invas\u00e3o, o PCP \u00e9 c\u00famplice do Putin, o PCP recebe n\u00e3o sei o qu\u00ea. Ali\u00e1s, o Putin e as for\u00e7as armadas russas devem ter um interesse enorm\u00edssimo em saber de onde \u00e9 que essas pessoas que emigraram para Portugal s\u00e3o, porque deve ser um objetivo estrat\u00e9gico militar da maior import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Voltando aqui um bocado atr\u00e1s na an\u00e1lise do sistema medi\u00e1tico e de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, tu achas que faz sentido procurar um entendimento mais estrutural do papel dos m\u00e9dia na geopol\u00edtica. Porque \u00e9 f\u00e1cil cairmos numa uma explica\u00e7\u00e3o quase conspiracionista, mas a verdade \u00e9 que se assumirmos que o capital subsume toda a produ\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o do consenso, esse trabalho, como qualquer trabalho no capital, \u00e9 alienado. E os produtores n\u00e3o conhecem o processo, nem os fins de tudo aquilo que fazem. Isto transposto para comunica\u00e7\u00e3o social, com as devidas diferen\u00e7as, pode ser interessante para n\u00e3o cair numa an\u00e1lise demasiado moralista?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que h\u00e1 uma tend\u00eancia de vitimiza\u00e7\u00e3o da esquerda e dos comunistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social, que objectivamente se baseia num tratamento menos s\u00e9rio das suas posi\u00e7\u00f5es, mas que muitas vezes tamb\u00e9m n\u00e3o reflete a forma pouco trabalhada com que lidam e comunicam com a comunica\u00e7\u00e3o social. Claro que um partido que se v\u00ea de forma diferente tem uma certa dificuldade de se inserir num sistema medi\u00e1tico, porque ele tem componentes de espet\u00e1culo que, do ponto de vista desse partido e dessas for\u00e7as pol\u00edticas, s\u00e3o contradit\u00f3rias com sua identidade, mas h\u00e1 formas mais inteligentes de fazer essa comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;A diminui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos jornalistas (&#8230;) tornam o jornalismo muito pior.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sobre a quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o social, \u00e9 \u00f3bvio que os jornalistas s\u00e3o pessoas e na sua grande maioria pensam que est\u00e3o a fazer o melhor trabalho, s\u00f3 que as pessoas inserem-se de facto em determinadas culturas de trabalho, editoriais, determinados \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social, que t\u00eam uma determinada propriedade, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tido, mesmo com esta estrutura capitalista, melhores condi\u00e7\u00f5es para produzir bom jornalismo. A diminui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos jornalistas, o aumento das cargas hor\u00e1rias, a entrada do online como uma esp\u00e9cie de linha de montagem, que tem que produzir n\u00e3o sei quantas pe\u00e7as ao longo do tempo e logo \u00e9 dif\u00edcil a sua verifica\u00e7\u00e3o, a diminui\u00e7\u00e3o das margens de lucro das empresas de comunica\u00e7\u00e3o, o que faz com que os patr\u00f5es tenham como primeira reac\u00e7\u00e3o o corte abrupto do investimento e da qualidade, tornam o jornalismo muito pior. E tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es salariais e de inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho dos pr\u00f3prios jornalistas. Se o jornalista \u00e9 reputado, ganha bem, est\u00e1 no quadro, tem um c\u00f3digo deontol\u00f3gico que lhe permite dizer \u00e0 sua chefia de redac\u00e7\u00e3o que n\u00e3o faz determinada not\u00edcia. Se actualmente quase todos, mesmo aqueles que est\u00e3o quadro, est\u00e3o na pr\u00e1tica pass\u00edveis de serem despedidos, a sua capacidade de dizer n\u00e3o \u00e9 mais problem\u00e1tica. N\u00e3o quer dizer que numa cultura jornal\u00edstica em que os jornalistas podem dizer n\u00e3o \u00e0s chefias e \u00e0s administra\u00e7\u00f5es, isso n\u00e3o continue a acontecer. Quer dizer que se torna cada vez mais dif\u00edcil, e para as novas gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o viveram essa cultura, que ganham o sal\u00e1rio m\u00ednimo e que se calhar nunca deixar\u00e3o de ganhar um sal\u00e1rio pr\u00f3ximo do m\u00ednimo, numa altura em que h\u00e1 milhares de licenciados nesta \u00e1rea a sair todos os anos, a capacidade de ter esta mem\u00f3ria de resist\u00eancia e a capacidade econ\u00f3mica de serem independentes e poder dizer n\u00e3o \u00e9 menor. H\u00e1 aqui uma esp\u00e9cie de tempestade perfeita que faz com que o jornalismo seja muito diferente, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ordem de servi\u00e7o, na maior parte das redac\u00e7\u00f5es de jornais que eu conhe\u00e7o e nas redac\u00e7\u00f5es em que eu estive. O que acontece \u00e9 que a maior parte dos jornalistas n\u00e3o percebe, nem quer perceber, por exemplo, o que o PCP diz, e na cabe\u00e7a deles dizem sempre uma coisa, \u00e9 sempre mentira, \u00e9 sempre errado, s\u00e3o muitos chatos e n\u00e3o h\u00e1 tipos do PCP a comentar porque s\u00e3o todos chatos e n\u00e3o dizem aquelas coisas brilhantes como dizem os tipos como o Pedro Marques Lopes. Em geral \u00e9 isso que acontece. N\u00e3o foi preciso uma ordem de servi\u00e7o, h\u00e1 um consenso ideol\u00f3gico na maior parte dos jornalistas sobre isso, que se alicer\u00e7a obviamente num vi\u00e9s ideol\u00f3gico, mas que tamb\u00e9m \u00e9 agravado por uma hist\u00f3rica incapacidade de partidos como PCP conseguirem perceber o que \u00e9 que s\u00e3o os fluxos da not\u00edcia e o que \u00e9 que \u00e9 uma not\u00edcia e como \u00e9 que se faz uma not\u00edcia e como \u00e9 que se trabalha tamb\u00e9m para a comunica\u00e7\u00e3o social. As not\u00edcias t\u00eam din\u00e2micas pr\u00f3prias. Quem quer comunicar utilizando aqueles instrumentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mas n\u00e3o permite ou somos n\u00f3s que j\u00e1 estamos a assumir que h\u00e1 que jogar por essas regras porque n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7a suficiente para as alterar? Isso \u00e9 de certa forma assumir que o jornalismo n\u00e3o faz necessariamente uma apreens\u00e3o da realidade, f\u00e1-la de acordo com as estruturas das quais n\u00e3o quer abdicar. E poderia, porque em primeira inst\u00e2ncia o papel do jornalista \u00e9 procurar fazer esse trabalho de tradu\u00e7\u00e3o para essa estrutura, mas traduzir a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o jornalista tivesse apenas uma not\u00edcia para fazer por dia, que permitisse ler uma interven\u00e7\u00e3o de 40 p\u00e1ginas, reflectir imensamente e dessas 40 p\u00e1ginas retirar a frase mais importante, ainda assim, 10 jornalistas diferentes tenderiam a tirar 5 frases diferentes. Quem quer fazer comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem aquilo que \u00e9 fundamental e aquilo que \u00e9 acess\u00f3rio. Se a confer\u00eancia de imprensa \u00e9 para sair nos jornais e na comunica\u00e7\u00e3o social ela tem que ser constru\u00edda para sair nos jornais e na comunica\u00e7\u00e3o social e quem a constr\u00f3i tem que construir da forma que seja mais f\u00e1cil perceber o que \u00e9 que \u00e9 fundamental, o que \u00e9 que queres transmitir. N\u00e3o vale a pena assumir a rebeldia pol\u00edtica, fazendo uma coisa que n\u00e3o tem nada a ver com o formato que se vai fazer.&nbsp;H\u00e1 um vi\u00e9s ideol\u00f3gico? Sim. Vai haver um vi\u00e9s ideol\u00f3gico? Sim. As posi\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser mais claras, os argumentos t\u00eam de ser melhores. N\u00e3o quer dizer que not\u00edcia v\u00e1 ser correcta, mas pelo menos fica claro aquilo que se quer dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Neste momento \u00e9 poss\u00edvel saber o que se passa no mundo, n\u00e3o apenas relativamente ao conflito entre a Ucr\u00e2nia e R\u00fassia, atrav\u00e9s dos nossos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social nacionais? Como \u00e9 que te informas?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que ainda \u00e9 a boa literatura, o bom jornalismo, a boa televis\u00e3o que nos permitem, no meio do palheiro, tirar as agulhas que nos permitem tirar pistas. Acho sempre que o leitor, o espectador, deve ser por defini\u00e7\u00e3o cr\u00edtico e desconfiado. Fa\u00e7o-o em rela\u00e7\u00e3o aos factos hist\u00f3ricos que conhe\u00e7o. Isto \u00e9 verdade ou n\u00e3o \u00e9 verdade? E a seguir procuro outras fontes de informa\u00e7\u00e3o. Hoje temos acesso a milh\u00f5es de fontes de informa\u00e7\u00e3o. Por vezes a coisa mais complicada \u00e9 como de milh\u00f5es consegues encontrar outras fontes. \u00c9 poss\u00edvel. Agora, exige do leitor um trabalho sistem\u00e1tico. E era importante a exist\u00eancia de uma imprensa e de uma comunica\u00e7\u00e3o social alternativas que tivessem outro ritmo, outra profundidade e que nos permitissem dar pistas para ler as coisas de uma forma diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 estranho que n\u00e3o haja praticamente rep\u00f3rteres portugueses do outro lado do conflito?<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da reportagem de guerra faz-se normalmente a partir do Vietname. \u00c9 uma coisa muito complicada porque n\u00e3o est\u00e1s propriamente num terreno f\u00e1cil. Est\u00e1s a fazer reportagem em condi\u00e7\u00f5es complicadas, junto a for\u00e7as militares, no caso do Iraque, embebido at\u00e9. O Peter Arnett estava num apartamento a ser bombardeado em Bagdad. Mas a maior parte, pelos menos os&nbsp; principais canais, fez a cobertura da guerra do Iraque (da segunda invas\u00e3o do Iraque), embebida nas for\u00e7as americanas, vendo a partir daquilo que podiam ver de dentro. Ainda assim, acho que h\u00e1 um conjunto grande de jornalistas do outro lado. Agora, do lado ocidental, n\u00e3o h\u00e1 muitos. Do meu ponto de vista tem a ver com v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma \u00e9 considerarem que n\u00e3o tem interesse e a outra \u00e9 que para chegares \u00e0quele lado n\u00e3o \u00e9 muito simples, porque algu\u00e9m tem que te deixar entrar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente que tamb\u00e9m h\u00e1 jornalistas russos daquele lado, e que n\u00e3o est\u00e3o do outro lado. Esses n\u00e3o conseguem fazer cobertura em Kiev, n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es. Mas eu acho que tem de se procurar estar nos dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quais \u00e9 que achas que s\u00e3o as consequ\u00eancias deste ambiente para o regime democr\u00e1tico?<\/p>\n\n\n\n<p>Temo que haja muita coisa que n\u00f3s d\u00e1vamos por adquirido de que n\u00e3o havia perigo e que se tornou perigoso. Existe objectivamente uma press\u00e3o muito grande de criminalizar tudo o que sejam opini\u00f5es diferenciadas e embora as nossas leis n\u00e3o o permitam e haja for\u00e7a para resistir a isso, a verdade \u00e9 que a sociedade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 constitu\u00edda pelo espa\u00e7o das leis mas \u00e9 pelo espa\u00e7o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no terreno. Haver\u00e1 muita gente que vai ter dificuldade em expressar determinadas opini\u00f5es, em fazer a defesa das suas for\u00e7as pol\u00edticas, porque h\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente de \u00f3dio, que vai ter repercuss\u00f5es na sociedade. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Quanto mais se instalar esta ideia de \u201cn\u00f3s\u201d e os \u201coutros\u201d, mais a l\u00f3gica securit\u00e1ria e militar se vai impor ao quadro democr\u00e1tico e legal.&#8221;  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E se a guerra continuar, quanto mais se instalar esta ideia de \u201cn\u00f3s\u201d e os \u201coutros\u201d e os \u201coutros\u201d s\u00e3o do inimigo e \u201cn\u00f3s\u201d somos n\u00e3o sei que, mais a l\u00f3gica securit\u00e1ria e militar se vai impor ao quadro democr\u00e1tico e legal. Quando neste momento, para al\u00e9m da censura dos canais russos, est\u00e1 em discuss\u00e3o, a n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia, que qualquer pessoa que expresse nas redes sociais ou em p\u00fablico opini\u00f5es sobre a guerra que n\u00e3o sejam consent\u00e2neas com a Uni\u00e3o Europeia e com a opini\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia possam ser perseguidas, isso fere completamente a democracia e liberdade e o nosso quadro constitucional. Eu bem sei que a Uni\u00e3o Europeia fez aprovar uma coisa em que o direito comunit\u00e1rio est\u00e1 acima do direito nacional. Mas isto n\u00e3o foi direito comunit\u00e1rio. Foi uma imposi\u00e7\u00e3o da UE passando por cima de todas as leis. Ultrapassou em muito as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas europeias e viola a nossa Constitui\u00e7\u00e3o, viola a democracia, viola a liberdade. J\u00e1 existem empresas privadas a fazer isso. Na semana passada, no 25 de Abril, postei uma foto da chegada do \u00c1lvaro [Cunhal], Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e de outros refugiados pol\u00edticos ao aeroporto de Lisboa. Esta foto tem uma multid\u00e3o, tem um tanque, tem uma bandeira com uma foice e um martelo e tem um cachecol do Sporting. Creio que n\u00e3o foi pelo cachecol do Sporting que o algoritmo do Facebook me disse que a minha foto violava os padr\u00f5es da comunidade. Estas empresas privadas j\u00e1 determinam aquilo que tu podes e n\u00e3o podes dizer, fora das legisla\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuno Ramos de Almeida \u00e9 jornalista h\u00e1 mais de trinta anos. Passou pelas principais redac\u00e7\u00f5es nacionais e conhece bem o sistema de produ\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica. Fal\u00e1mos com ele tamb\u00e9m a prop\u00f3sito da guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia, onde critica o papel de jornalistas que se assumem propagandistas, esquecendo as regras do jornalismo. Reflecte sobre a fun\u00e7\u00e3o que o jornalismo pode e deve ter no conhecimento das contradi\u00e7\u00f5es da realidade e dos perigos de uma sociedade avessa aos factos e \u00e0 cr\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":5885,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[72],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5872"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5872"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5942,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5872\/revisions\/5942"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5872"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}