{"id":5863,"date":"2022-05-05T10:59:36","date_gmt":"2022-05-05T10:59:36","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5863"},"modified":"2022-06-07T10:56:07","modified_gmt":"2022-06-07T10:56:07","slug":"a-batalha-de-donbass","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/05\/05\/a-batalha-de-donbass\/","title":{"rendered":"A batalha de Donbass"},"content":{"rendered":"\n<p>O sol aperta e a \u00e1gua cristalina, praticamente sem ondas, faz lembrar que estamos na primavera. Dentro de \u00e1gua, uma mulher d\u00e1 umas bra\u00e7adas e h\u00e1 um c\u00e3o que corre \u00e0 beira mar. Podia ser a ilustra\u00e7\u00e3o de um folheto tur\u00edstico se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos em Mariupol e se ali ao lado, a poucas centenas de metros, o Azovstal n\u00e3o estivesse a ser alvo da artilharia pesada russa. Indiferente \u00e0s explos\u00f5es e aos sinais que alertam para a exist\u00eancia de minas no areal, uma outra mulher, mais velha, contempla o mar sentada num banco. \u201cSe tiver de morrer, morro\u201d, desabafa \u00e0 sa\u00edda da praia.<\/p>\n\n\n\n<p>A auto-estrada que liga Donetsk a Mariupol era o caminho que muitas fam\u00edlias faziam ao fim-de-semana para tomarem banhos de sol junto ao mar. Quando a guerra civil rebentou, em 2014, este trajecto de 115 quil\u00f3metros foi abruptamente interrompido e desde a interven\u00e7\u00e3o russa, no fim de fevereiro, as for\u00e7as ucranianas dinamitaram parte do caminho para travar o avan\u00e7o do inimigo. Agora, a viagem demora cerca do dobro e inclui um emaranhado de desvios.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sete palmos de terra<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cMeu sol, olha para mim, a minha m\u00e3o transformou-se num punho e se h\u00e1 p\u00f3lvora d\u00e1-me fogo\u201d, canta Viktor Tsoi no auto-r\u00e1dio. Ao volante, segue Sacha que se desdobra em perguntas curiosas sobre Portugal at\u00e9 confessar que tem um irm\u00e3o em Lisboa. \u201cEle defende os ucranianos. Deixou-se levar pela propaganda da NATO\u201d, comenta. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o incomum. Apesar de esta regi\u00e3o ser maioritariamente russ\u00f3fona e votar em partidos pr\u00f3-russos, s\u00e3o v\u00e1rios os casos de fam\u00edlias desavindas por causa da guerra que dura h\u00e1 cerca de oito anos. <\/p>\n\n\n\n<p>Perto de Mariupol, a cerca de 15 quil\u00f3metros, est\u00e1 Mangush, uma localidade que abriu telejornais em todo o mundo. De acordo com as autoridades ucranianas, com a ajuda de empresas norte-americanas de geolocaliza\u00e7\u00e3o, poderia haver aqui valas comuns com at\u00e9 9 mil corpos escondidos. \u00c9 um soldado num posto de controlo que nos d\u00e1 indica\u00e7\u00f5es mesmo depois de saber que queremos investigar esta grave acusa\u00e7\u00e3o. Sorri e manda-nos avan\u00e7ar. \u00c9 um sinal de que, muito provavelmente, n\u00e3o h\u00e1 ali nada de muito secreto. Depois de algumas voltas, encontramos o ponto de geolocaliza\u00e7\u00e3o no cemit\u00e9rio de Mangush. Desconfiados com a ideia de um ex\u00e9rcito depositar milhares de corpos \u00e0 vista de todos num cemit\u00e9rio, acabamos por descobrir que s\u00e3o cerca de 230 campas individuais devidamente numeradas, muitas delas com nome, data de nascimento e morte. H\u00e1, ainda, cerca de uma centena de sepulturas abertas \u00e0 espera da chegada de novos cad\u00e1veres. O cen\u00e1rio que encontramos est\u00e1 muito distante no n\u00famero e no tipo de campas daquele que prometiam as autoridades ucranianas. N\u00e3o se identificam quaisquer valas comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>No cemit\u00e9rio, vamos \u00e0 procura de testemunhas que nos possam explicar o sucedido. Tr\u00eas coveiros que abrem uma sepultura mais abaixo dizem que n\u00e3o est\u00e3o autorizados a falar mas que sabem que aqueles corpos v\u00eam de Mariupol e que muitos s\u00e3o civis e soldados ucranianos. \u00c0 conversa com v\u00e1rias pessoas que est\u00e3o a limpar e a cuidar as campas dos seus familiares, percebemos que os enterros duram h\u00e1 cerca de um m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Irina visita a campa do pai precisamente seis meses depois da sua morte. Alexey foi um importante arquitecto de Mangush. N\u00e3o sabe a quem pertencem estas novas campas no cemit\u00e9rio local e mostra-se indignada com as autoridades ucranianas, acusando-as de atacar o pr\u00f3prio povo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHistoricamente, sempre viveram diferentes nacionalidades no Donbass. A principal l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 o russo. Para todos, esse idioma \u00e9 nativo. Quando as autoridades ucranianas fizeram um genoc\u00eddio aqui, por alguma raz\u00e3o o mundo n\u00e3o se importou\u201d, desabafa. Para Irina, as regi\u00f5es de Donetsk e Luhansk \u201cforam constantemente alvo de bombardeamentos\u201d e \u201cningu\u00e9m\u201d se interessou por isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas gritavam por socorro e a imprensa internacional ficou em sil\u00eancio. E quando n\u00e3o havia ningu\u00e9m para pedir ajuda, pedimos ajuda \u00e0 R\u00fassia. A R\u00fassia veio para nos proteger e o mundo de repente ficou indignado, come\u00e7ou a gritar que os russos s\u00e3o agressores. Ou seja, \u00e9 um pouco hip\u00f3crita\u201d, defende Irina.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali bem perto, uma idosa limpa as ervas daninhas com um ancinho. \u201cO carro trazia corpos de Mariupol. Duas escavadoras abriam buracos e uma outra enchia de terra. O carro ia e voltava. Dizem que os corpos foram primeiro levados para Mangush para a morgue\u201d, afirma Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidimos, ent\u00e3o, procurar a morgue do hospital de Mangush para entender melhor esta hist\u00f3ria mas nenhum dos trabalhadores aceita falar sem a presen\u00e7a de um respons\u00e1vel. Esperamos algum tempo para esclarecer sobre quem s\u00e3o estas pessoas e que tipo de enterros t\u00eam sido feitos. Chegam v\u00e1rios militares que se identificam como m\u00e9dicos e um deles aceita responder \u00e0s nossas perguntas. Nega a exist\u00eancia de qualquer vala comum e afirma que os corpos correspondem sobretudo a civis e a militares ucranianos. \u201cN\u00f3s examinamos cad\u00e1veres de civis e soldados que morreram em Mariupol. Na verdade, emitimos um atestado m\u00e9dico de \u00f3bito\u201d, explica. Perguntamos directamente sobre valas comuns e v\u00edtimas do ex\u00e9rcito russo e de Donetsk. Contesta que \u00e9 \u201cmentira\u201d. \u201cH\u00e1 dois cemit\u00e9rios em Staryi Krym e Mangush [com estes corpos]. Uma sepultura separada, um caix\u00e3o e uma placa com um n\u00famero s\u00e3o alocados para cada corpo. Depois da aut\u00f3psia de cada cad\u00e1ver, juntamente com a equipa do Minist\u00e9rio P\u00fablico, a empresa p\u00fablica [funer\u00e1ria] Ritual trata das sepulturas\u201d, contesta. De seguida, confirma que nestas sepulturas est\u00e3o tamb\u00e9m soldados ucranianos e corrige em alta os n\u00fameros que t\u00ednhamos em Mangush para 300 mortos. Como afirmaram os civis que estavam no cemit\u00e9rio, tamb\u00e9m diz que estes enterros come\u00e7aram h\u00e1 cerca de um m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, decidimos visitar o cemit\u00e9rio de Stary Krym. Neste caso, s\u00e3o centenas de campas a perder de vista. No total, mais de 650 pessoas est\u00e3o enterradas em sepulturas recentes. O cemit\u00e9rio \u00e9 enorme. Como se estivessem todos os cemit\u00e9rios de Lisboa juntos. Provavelmente, o maior de Mariupol. O cen\u00e1rio de Mangush repete-se mas desta vez confirmamos que estas pessoas est\u00e3o dentro de caix\u00f5es porque quando chegamos h\u00e1 um trabalhador que opera uma escavadora para abrir uma fileira que possa receber novos corpos. No fundo, v\u00e1rios caix\u00f5es de madeira. Ao volante desta m\u00e1quina, Danya nega a exist\u00eancia de valas comuns. N\u00e3o se identifica nenhuma evid\u00eancia nesse sentido. \u201cN\u00e3o h\u00e1 valas comuns aqui. V\u00ea os caix\u00f5es deitados ali? Debaixo daqueles n\u00fameros. Ent\u00e3o, as pessoas que chegam \u00e0 procura dos seus familiares t\u00eam essa refer\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto caminhamos entre as campas, vemos uma cruz com um nome e data de nascimento e morte. O cora\u00e7\u00e3o acelera enquanto o c\u00e9rebro faz contas. Este apelido corresponde ao de uma idosa que uma semana antes havia comentado o desaparecimento do seu filho junto ao teatro de Mariupol. O ano de nascimento \u00e9 o mesmo que nos havia dito e a data da morte coincide com o bombardeamento do teatro. Aquela m\u00e3e perdeu o filho mas n\u00e3o temos forma de lhe comunicar a not\u00edcia. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mariupol tenta regressar \u00e0 normalidade<\/h2>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se v\u00ea gente a trabalhar para recuperar o que \u00e9 recuper\u00e1vel. H\u00e1 mais gente nas ruas, h\u00e1 mercados de alimentos. A batalha pelo controlo da cidade est\u00e1 praticamente terminada. Apenas sobra o Azovstal, onde se concentram as \u00faltimas for\u00e7as ucranianas. No resto de Mariupol, sob controlo separatista, as novas autoridades procuram recolher corpos das ruas com a ajuda de bombeiros. Nos canteiros, h\u00e1 civis enterrados com cruzes e flores. S\u00e3o v\u00edtimas de uma batalha sem quartel e, quem sabe, sementes para um futuro que se espera de paz. Mas h\u00e1 muitos perigos \u00e0 espreita. As tropas ucranianas deixaram v\u00e1rias minas espalhadas por v\u00e1rias zonas da cidade na sua retirada para o Azovstal. Descobrimos uma v\u00edtima destes explosivos num bairro junto ao mar. Uma idosa esva\u00eda-se em sangue e tivemos de interromper o of\u00edcio de jornalista para fazer um garrote \u00e0 perna desta mulher. Enquanto o fazemos, explica que outra mulher pisou a mina e morreu. Ela foi atingida pela metralha na perna e precisa de cuidados m\u00e9dicos. \u00c9 o que far\u00e3o mais tarde bombeiros e soldados separatistas. <\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do elevado grau de destrui\u00e7\u00e3o, a maioria das pessoas com quem falamos justificam a interven\u00e7\u00e3o russa. \u00c9 not\u00f3ria a influ\u00eancia russa nesta cidade onde sempre ganharam partidos russ\u00f3fonos. Alguns acusam grupos neonazis como o Batalh\u00e3o Azov de cometer atrocidades, roubos e persegui\u00e7\u00f5es. Dado o contexto militar, \u00e9 normal que quem defende Kiev prefira esconder a sua posi\u00e7\u00e3o mas aparece- -nos uma mulher \u00e0 porta de uma casa que nos pergunta pelo curso da guerra. V\u00ea os capacetes e os coletes com a palavra \u201cpress\u201d e confessa a vontade de fugir para ocidente. At\u00e9 \u00e0 chegada das tropas russas, era agente da pol\u00edcia ucraniana. Agora vive na longa espera de poder abandonar Mariupol. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Batalh\u00e3o Aidar em Lugansk <\/h2>\n\n\n\n<p>O mar que banha Mariupol leva o nome de Azov e um dos principais rios que atravessam a regi\u00e3o de Lugansk chama-se Aidar. Estes dois nomes foram os escolhidos para baptizar os principais batalh\u00f5es neonazis que operam em Donbass. \u00c9 a base do Batalh\u00e3o Aidar que visitamos na regi\u00e3o de Lugansk. Para l\u00e1 dos port\u00f5es, encontramo-nos com duas v\u00edtimas deste grupo que integra as for\u00e7as armadas ucranianas. Ivan conta-nos que houve gente torturada e assassinada neste lugar. Para descrever melhor estes crimes, visit\u00e1mos o hospital local, onde o m\u00e9dico legista nos confirmou a chegada de v\u00e1rios corpos com sinais de tortura. Roman era m\u00e9dico neste hospital antes do controlo separatista e revela que reportou os crimes \u00e0 pol\u00edcia ucraniana mas n\u00e3o sabe at\u00e9 que ponto chegou a investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos crimes, a ideologia neonazi professada por este batalh\u00e3o ficou marcada nas paredes da base. L\u00e1 dentro, atravess\u00e1mos corredores escuros, celas h\u00famidas e numa sala ampla explicaram-nos que ali faziam simula\u00e7\u00f5es de execu\u00e7\u00f5es para aterrorizar os presos. O relato \u00e9 parecido ao que ouvimos semanas antes na antiga sede dos servi\u00e7os secretos ucranianos. No segundo piso, encontramos autocolantes que ilustram soldados ucranianos a matar comunistas e separatistas. Tamb\u00e9m um cartaz com o rosto de Vladimir Putin dentro de um alvo. Na parede, \u201cDeus protege Aidar\u201d e um crucifixo. Continuamos a vasculhar o lugar e encontramos uma su\u00e1stica desenhada numa parede ao lado das iniciais das SS nazis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra aperta na regi\u00e3o de Donbass, onde as tropas russas e separatistas procuram controlar este territ\u00f3rio de maioria russ\u00f3fona. Cerca de metade das regi\u00f5es de Donetsk e Lugansk est\u00e1 nas m\u00e3os das for\u00e7as ucranianas, numerosas e bem entrincheiradas desde o come\u00e7o da guerra civil em 2014.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5864,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5863"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5863"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5941,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5863\/revisions\/5941"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5864"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5863"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}