{"id":5776,"date":"2022-04-01T11:41:31","date_gmt":"2022-04-01T11:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5776"},"modified":"2022-05-09T15:14:36","modified_gmt":"2022-05-09T15:14:36","slug":"de-silencio-em-silencio-ate-ao-silencio-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/04\/01\/de-silencio-em-silencio-ate-ao-silencio-final\/","title":{"rendered":"De sil\u00eancio em sil\u00eancio, at\u00e9 ao sil\u00eancio final"},"content":{"rendered":"\n<p>A guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia serviu para agudizar an\u00e1lises que j\u00e1 Marx, Engels e, mais tarde, Gramsci, haviam identificado. Primeiro, que os interesses dominantes s\u00e3o os interesses das classes dominantes. Segundo, que a hegemonia cultural, o controlo ideol\u00f3gico de uma classe social sobre outra, se faz atrav\u00e9s de consenso. Confundimos o nosso interesse coletivo enquanto explorados com o interesse coletivo de uma minoria que vive, precisamente, \u00e0 custa dos seus interesses assimilados por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia veio aprofundar a explora\u00e7\u00e3o material por parte dos detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m cavou mais fundo o nosso medo de contrariar o que, diariamente, nos \u00e9 incutido como verdade absoluta, seja em que meio for, atrav\u00e9s de qualquer canal que nos permite comunicar. O medo de ser \u201cnegacionista\u201d da Covid-19 acabou por nos colocar a pensar se devemos verbalizar d\u00favidas, ainda que n\u00e3o estejam relacionadas com evid\u00eancia m\u00e9dica cient\u00edfica, como questionar medidas governamentais de restri\u00e7\u00e3o das nossas liberdades. Desde antes do 25 de Abril de 2020, foi esse o mote para lan\u00e7ar um ataque feroz \u00e0 esquerda que n\u00e3o se inibiu de questionar, de continuar a reivindicar, de demonstrar que era e \u00e9 poss\u00edvel fazer diferente, sem colocar em causa a sa\u00fade p\u00fablica. O nosso receio individual de ver o coletivo conotar-nos, ainda que sem qualquer fundamento, com algo que n\u00e3o defendemos pode ter duas consequ\u00eancias: ou nos autoinibimos de dizer o que pensamos, para n\u00e3o sermos marginalizados, ou assumimos como nosso o discurso das classes dominantes, mesmo que n\u00e3o concordemos com ele. E aqui temos o consenso de que falava Gramsci.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da doen\u00e7a para a guerra<\/h2>\n\n\n\n<p>A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia permitiu subir uma etapa no programa de pensamento \u00fanico no panorama social e medi\u00e1tico. Qualquer d\u00favida, aprecia\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise ou facto que n\u00e3o v\u00e1 ao encontro do que \u00e9 o discurso oficialmente admitido pela classe dominante em torno deste conflito \u00e9 imediatamente apelidado de propaganda pr\u00f3-Russa, de caixas de resson\u00e2ncia do Kremlin ou pr\u00f3-guerra. Tamb\u00e9m aqui a autoinibi\u00e7\u00e3o nos pode condicionar. Dizer que h\u00e1, na Ucr\u00e2nia, um problema s\u00e9rio com a extrema-direita, que esta est\u00e1 integrada no aparelho do Estado, como foi feito em dezenas de reportagens de \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social de todo o Mundo, passou a ser concordar com a \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d de Putin. Dizer que, ao contr\u00e1rio do que afirmou o Primeiro-Ministro Ant\u00f3nio Costa, a Ucr\u00e2nia n\u00e3o era um pa\u00eds que vivia em paz antes da invas\u00e3o russa, \u00e9 desviar o assunto. Desde jornalistas cuja autobiografia os identifica como trabalhando h\u00e1 mais de 20 anos na \u00e1rea do ambiente, passando por piv\u00f4s de espa\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o, aos \u201ctud\u00f3logos\u201d de servi\u00e7o semanalmente nos mais variados espa\u00e7os, est\u00e1 estipulado que esta guerra \u00e9 a preto e branco \u2014 curiosamente, muito por culpa de tons loiros e olhos azulados \u2014 todos est\u00e3o habilitados a falar sobre a guerra, desde que digam o que eles pr\u00f3prios querem ouvir uns dos outros.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A censura institucionalizada<\/h2>\n\n\n\n<p>A guerra come\u00e7a a ganhar-se na propaganda e todos os Estados sabem isso. Quem possui os meios, usa-os como pode. Que o digam os s\u00e9rvios, que n\u00e3o contrataram a Ruder Finn, empresa de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas estado-unidense, que foi respons\u00e1vel por criar uma s\u00e9rie de acontecimentos medi\u00e1ticos durante a guerra na Cro\u00e1cia e na B\u00f3snia. Ainda hoje, os s\u00e9rvios s\u00e3o vistos como selvagens genocidas, enquanto Franjo Tudjman, ex-presidente croata, ultranacionalista e antissemita, e Alija Izetbegovic, ex-presidente mu\u00e7ulmano b\u00f3snio, fundamentalista isl\u00e2mico, recebem todo o carinho por parte da hist\u00f3ria que os media quiseram contar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, no conflito dos Balc\u00e3s a revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o estava ainda a come\u00e7ar, pelo que era mais f\u00e1cil aos Estados controlarem a informa\u00e7\u00e3o e os canais por onde circulava. Hoje, com a internet largamente banalizada no Ocidente, n\u00e3o \u00e9 assim. Os EUA perceberam-no com Assange. A suposta superioridade moral do que \u00e9 erradamente chamada \u201cComunidade Internacional\u201d, que n\u00e3o \u00e9 mais do que o mundo branco e ocidental, cai por terra quando censura, abertamente, canais de televis\u00e3o e obriga ao seu encerramento em plataformas de partilha de conte\u00fados. Ao proibir canais russos, o Conselho Europeu abriu um precedente perigos\u00edssimo para a nossa liberdade de ser informados. E para a liberdade de informar, embora a esmagadora maioria daqueles cujo dever \u00e9 informar-nos n\u00e3o pare\u00e7am minimamente preocupados. A Fox News, que mentiu durante anos e mente ainda hoje, n\u00e3o mereceu qualquer tipo de censura ou, sequer, de aviso sobre normas \u00e9ticas e deontol\u00f3gicas por parte de institui\u00e7\u00f5es da UE. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A normaliza\u00e7\u00e3o do etnocentrismo <\/h2>\n\n\n\n<p>O etnocentrismo consiste, em tra\u00e7os muito gerais, na an\u00e1lise do mundo a partir da nossa cultura. Para al\u00e9m dela, est\u00e1 a barb\u00e1rie e a desumaniza\u00e7\u00e3o. A passividade com que pessoas com responsabilidades acrescidas, por terem acesso ao espa\u00e7o medi\u00e1tico, normaliza que uns refugiados s\u00e3o mais refugiados que outros, porque a nossa cultura e valores s\u00e3o id\u00eanticos \u2013 mesmo que n\u00e3o o sejam e n\u00e3o passem de uma constru\u00e7\u00e3o mental -, \u00e9 avassaladora. Como jornalistas que se afirmam antixen\u00f3fobos abra\u00e7am este discurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo a passo, d\u00e1-se a normaliza\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o. Direitos e liberdades que t\u00ednhamos antes da pandemia e da guerra na Ucr\u00e2nia, e de guerras anteriores do s\u00e9culo XXI, foram-nos sendo retirados, paradoxalmente, a pretexto de manter a nossa liberdade. De movimentos, de associa\u00e7\u00e3o e, por fim, de pensamento. At\u00e9 que, se puderem, far\u00e3o com que abdiquemos de pensar, porque algu\u00e9m o far\u00e1 por n\u00f3s. E quando todos dissermos o mesmo, n\u00e3o ser\u00e1 muito diferente de estarmos todos em sil\u00eancio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a autoinibi\u00e7\u00e3o e a censura nos calam.<\/p>\n","protected":false},"author":70,"featured_media":5778,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[54,51],"tags":[],"coauthors":[166],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5776"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/70"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5776"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5776\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5902,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5776\/revisions\/5902"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5778"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5776"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5776"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}