{"id":5765,"date":"2022-04-01T11:22:51","date_gmt":"2022-04-01T11:22:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5765"},"modified":"2022-05-09T10:57:38","modified_gmt":"2022-05-09T10:57:38","slug":"o-filme-que-jorge-silva-melo-rodou-na-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/04\/01\/o-filme-que-jorge-silva-melo-rodou-na-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"O filme que Jorge Silva Melo rodou n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Jorge Silva Melo, figura central da arte e da cultura em Portugal morreu no passado dia 14 de mar\u00e7o. Diplomado em realiza\u00e7\u00e3o na London Film School, fez a sua primeira incurs\u00e3o no cinema em 1980, com \u201cPassagem ou a Meio Caminho\u201d. Um filme em grande parte rodado n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O 25 de Abril tinha acontecido h\u00e1 meia d\u00fazia de anos. O filme retrata os \u00faltimos tempos do escritor revolucion\u00e1rio alem\u00e3o Georg B\u00fcchner (1813-1837), como relata Jorge Silva Melo em voz-off logo no in\u00edcio. Na verdade, acompanhamos o fervor revolucion\u00e1rio de um grupo de jovens, em especial de um deles, bem como as suas tentativas para escrever, imprimir e divulgar um panfleto subversivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cen\u00e1rios nada t\u00eam que ver com os lugares por onde B\u00fcchner andou. Um dos d\u00e9cores centrais \u00e9 a biblioteca da A Voz do Oper\u00e1rio. \u00c9 l\u00e1 que B\u00fcchner (interpretado por Lu\u00eds Lucas) vai no arranque do filme para falar com um sujeito mais velho (interpretado por Jo\u00e3o Guedes), sobre os seus projectos para escrever um panfleto. \u00c9 tamb\u00e9m na biblioteca d\u2019 A Voz do Oper\u00e1rio que o jovem colectivo se re\u00fane, nas mesas rodeadas de estantes e livros, para discutir pol\u00edtica, cultura e formas de fazer a sua revolu\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada Jorge Silva Melo esconde do seu tempo. Estamos no s\u00e9culo XIX, e tamb\u00e9m com aqueles que, entre n\u00f3s, mesmo depois da revolu\u00e7\u00e3o de Abril, continuaram a ter ideais, ideologia, combatividade \u2013 apesar de outro tipo de censuras se terem instalado subtilmente na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de uma estrutura on\u00edrica (que parece ser a do filme), as inten\u00e7\u00f5es de Silva Melo s\u00e3o evidentes: estabelecer a liga\u00e7\u00e3o entre um jovem alem\u00e3o &#8211; cuja obra ficou esquecida &#8211; e toda uma gera\u00e7\u00e3o que viveu a juventude nos \u00faltimos anos do fascismo em Portugal, e tentou depois manter a fibra revolucion\u00e1ria no p\u00f3s-25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A rebeldia e o inconformismo da juventude n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cPassagem ou A Meio Caminho\u201d possui a febrilidade dos que querem fazer coisas com uma liberdade que \u00e9 muito mais que se puder falar livremente nas ruas ou entre paredes. Os que na juventude ficaram a meio caminho entre as conquistas de Abril e aquilo que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o trouxe. Quando perceberam, com desencanto, que as desigualdades econ\u00f3micas e sociais continuavam, assim como no pr\u00f3prio acesso \u00e0 arte e cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia de classe e a consci\u00eancia de que era ainda urgente combater o sil\u00eancio das injusti\u00e7as estavam no grupo retratado na primeira-obra de Silva Melo. Personagens com a gravidade e o desejo dos her\u00f3is dos grandes filmes, em permanente movimento, com vontade de rever velhos padr\u00f5es, e de n\u00e3o se encaixarem nas defini\u00e7\u00f5es que a sociedade capitalista constru\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cPassagem ou A Meio Caminho\u201d s\u00e3o recorrentes as fugas da biblioteca depois das referidas reuni\u00f5es; as descidas desenfreadas pelas escadarias principais d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio destes jovens rebeldes que lutam por uma causa, e andam em busca de si mesmos e de um futuro. Fugas por lugares que reconhecemos, apesar dos anos que nos distam da rodagem: escadas que v\u00e3o dar ao exterior e a viaturas que depois percorrem a toda a velocidade as ruas de uma nocturna Lisboa (nunca mencionada).<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Silva Melo queria combater a conformidade e a apatia. Sabia que pertence aos jovens a motiva\u00e7\u00e3o para questionar; o inconformismo e a resist\u00eancia. Esta for\u00e7a existia na sociedade de B\u00fcchner no s\u00e9culo XIX, e em 1980 em Portugal, quando se come\u00e7ou a proclamar a morte das ideologias. Existe hoje na juventude que tem as suas palavras a dizer, as suas raz\u00f5es para contestar &#8211; e se quer fazer ouvir nas ruas, bem como nas formas que encontra para se exprimir art\u00edstica, social, pol\u00edtica e intelectualmente. Aqueles que n\u00e3o se querem calar, que n\u00e3o cedem ao medo e \u00e0s incertezas, e que possuem a mesma for\u00e7a de viver que sentimos em \u201cPassagem ou A Meio Caminho\u201d. Um filme que \u201cs\u00f3 nos mostra personagens humanos, homens e mulheres de corpo inteiro, com inteira mem\u00f3ria e inteira hist\u00f3ria. A tradi\u00e7\u00e3o interv\u00e9m por aqui mas todos os que tra\u00edram deixamos de os ver e s\u00f3 ficam connosco, at\u00e9 ao fim, os que foram fi\u00e9is. Muitos os chamados, poucos os escolhidos\u201d, escreveu Jo\u00e3o Ben\u00e1rd da Costa, na respectiva folha de sala da Cinemateca Portuguesa. <\/p>\n\n\n\n<p>Num filme sobre liberdade, resist\u00eancia e luta n\u00e3o \u00e9 acidental a escolha como cen\u00e1rios fundamentais os corredores, escadarias, espa\u00e7os exteriores e sobretudo a biblioteca d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Silva Melo nunca deixou de olhar \u00e0 volta, de ser subversivo e simultaneamente l\u00facido, em tudo o que escreveu, filmou e encenou.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Silva Melo, figura central da arte e da cultura em Portugal morreu no passado dia 14 de mar\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":5767,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5765"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5765"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5765\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5896,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5765\/revisions\/5896"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5765"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}