{"id":5753,"date":"2022-04-01T09:36:53","date_gmt":"2022-04-01T09:36:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5753"},"modified":"2022-05-05T17:29:17","modified_gmt":"2022-05-05T17:29:17","slug":"__trashed-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/04\/01\/__trashed-2\/","title":{"rendered":"\u201cBatalh\u00f5es nazis aterrorizaram a popula\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Por que raz\u00e3o decidiu Donbass insurgir-se contra o governo de Kiev em 2014?<\/p>\n\n\n\n<p>Em Donetsk e Lugansk, como noutras cidades da Ucr\u00e2nia, o povo revoltou-se em 2014 como resposta ao golpe neoliberal de extrema-direita, mais conhecido como Euromaidan. Este golpe ficou conhecido por ter sido liderado pelo governo dos Estados Unidos. At\u00e9 2014, a Ucr\u00e2nia era um pa\u00eds bastante democr\u00e1tico, t\u00e3o democr\u00e1tico como um Estado burgu\u00eas pode ser. As pessoas, especialmente nas regi\u00f5es pr\u00f3-russas, compreenderam o que o novo governo estava a trazer: reformas neoliberais, nacionalismo ucraniano extremista e uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes protestos tinham um car\u00e1ter popular. Muitas pessoas ficaram em choque com os acontecimentos em Odessa a 2 de maio de 2014, quando militantes de extrema-direita, apoiados pela pol\u00edcia, mataram 50 pessoas. Muitos deles foram queimados vivos na Casa dos Sindicatos, e aqueles que tentaram fugir do edif\u00edcio em chamas foram espancados at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Os protestos contra o golpe foram brutalmente reprimidos. O terror come\u00e7ou na Ucr\u00e2nia. Culminou numa guerra civil contra as proclamadas Rep\u00fablicas Populares de Donetsk e Lugansk. <\/p>\n\n\n\n<p>Como testemunha desses acontecimentos, eu diria que a maioria das pessoas aqui presentes apoiou a ideia de independ\u00eancia. Entre aqueles que n\u00e3o apoiaram a revolta encontravam-se sobretudo homens de neg\u00f3cios, membros da classe m\u00e9dia e alguns intelectuais. Ou seja, o apoio \u00e0 secess\u00e3o da Ucr\u00e2nia veio principalmente da base social, da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes, vejo que na imprensa ocidental estes acontecimentos s\u00e3o apresentados como um conflito \u00e9tnico entre russos e ucranianos. Do meu ponto de vista, isto n\u00e3o \u00e9 verdade. Donbass \u00e9 etnicamente muito diverso. Por exemplo, eu sou descendente de russos, ucranianos e bielorrussos que vieram ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial para reconstruir a regi\u00e3o. Este conflito foi sobretudo ideol\u00f3gico. As pessoas n\u00e3o queriam admitir a depend\u00eancia da NATO e dos Estados Unidos, n\u00e3o queriam as reformas ultraliberais que estavam realmente a acontecer na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o queriam a opress\u00e3o da l\u00edngua russa e n\u00e3o queriam a glorifica\u00e7\u00e3o dos colaboradores nazis ucranianos. Existe aqui uma grande simpatia pelo passado sovi\u00e9tico. Penso que esta \u00e9 a componente mais importante da identidade de Donbass.<\/p>\n\n\n\n<p>A 26 de maio de 2014, a avia\u00e7\u00e3o militar ucraniana come\u00e7ou a bombardear Donbass com avi\u00f5es. Houve as primeiras baixas civis. Antes disso, o ex\u00e9rcito ucraniano come\u00e7ou a reprimir os motins noutras cidades de Donbass. O Estado ucraniano n\u00e3o chamou guerra civil \u00e0 guerra civil durante todos estes oito anos. Chama-lhe opera\u00e7\u00e3o antiterrorista, embora tenham sido o ex\u00e9rcito ucraniano e os batalh\u00f5es neonazis que foram lan\u00e7ados para reprimir as regi\u00f5es rebeldes que se comportaram como terroristas: bombardeando bairros residenciais, destruindo infraestruturas, privando as pessoas de direitos civis e intimidando a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porque pensa que a R\u00fassia define o regime da Ucr\u00e2nia como regime nazi?<\/p>\n\n\n\n<p>Esta interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3xima da verdade. A Ucr\u00e2nia estabeleceu um regime de direita semelhante aos da Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo passado. Foi um processo de fasciza\u00e7\u00e3o. As autoridades utilizaram a extrema-direita para suprimir os opositores pol\u00edticos. Houve uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria a n\u00edvel estatal. Os colaboradores nazis ucranianos s\u00e3o considerados her\u00f3is. Os neonazis criaram organiza\u00e7\u00f5es para crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Donbass, os batalh\u00f5es nazis desencadearam o terror contra a popula\u00e7\u00e3o local. Organiza\u00e7\u00f5es internacionais de direitos humanos documentaram os crimes de unidades como Azov, Aidar, Donbass e Tornado, que torturaram residentes locais, levaram a cabo execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, extorquiram propriedades e cometeram viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Apesar dos acordos de paz, assinados em Minsk, a Ucr\u00e2nia continuou a bombardear-vos como dizem os russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, \u00e9 verdade. As zonas da linha da frente s\u00e3o particularmente afectadas. Agora os bombardeamentos continuam. Vi que os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais por vezes colocam fotografias de Donetsk como se fossem da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E \u00e9 verdade que o vosso presidente, Zakharchenko, da autoproclamada Rep\u00fablica Popular de Donetsk, tamb\u00e9m ele membro das conversa\u00e7\u00f5es de paz, foi morto por uma bomba colocada pela Ucr\u00e2nia num caf\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Confio nas informa\u00e7\u00f5es oficiais do nosso Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que \u00e9 que acha que as popula\u00e7\u00f5es de Donbass pensam sobre a interven\u00e7\u00e3o militar russa?<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que o nosso povo simpatiza com os civis que foram mantidos ref\u00e9ns pelo regime de Kiev, mas deseja uma r\u00e1pida derrota do regime odiado de Kiev. Agrada-me que o nosso povo seja, na sua maioria, desprovido de \u00f3dio pelos ucranianos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A R\u00fassia usa a palavra genoc\u00eddio para definir o que estava a acontecer em Donbass. Acha que se tratou de um genoc\u00eddio?<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-me que se trata de uma disputa terminol\u00f3gica. Penso que \u00e9 melhor chamar-lhe terror. Mas isto n\u00e3o diminui a criminalidade dos actos do governo ucraniano.<br><br>&#8212;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"959\" height=\"591\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5758\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk.jpg 959w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk-300x185.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk-768x473.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk-180x110.jpg 180w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-donbass_300cmyk-220x136.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 959px) 100vw, 959px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Donbass, territ\u00f3rio rebelde<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 2013, viviam na regi\u00e3o de Donetsk 4.43 milh\u00f5es de pessoas, o que constitu\u00eda 10% da popula\u00e7\u00e3o total da Ucr\u00e2nia. Era n\u00e3o s\u00f3 a zona mais populosa e densamente povoada do pa\u00eds como era um dos principais basti\u00f5es econ\u00f3micos do pa\u00eds com importantes cidades industriais.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Observat\u00f3rio da Transi\u00e7\u00e3o de Regi\u00f5es Intensivas em Carv\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o industrial em Donetsk permanece elevada, apesar de nos \u00faltimos quatro anos (2017 em compara\u00e7\u00e3o com 2013) o volume da produ\u00e7\u00e3o industrial na regi\u00e3o ter diminu\u00eddo 2,4 vezes. Em 2016, a regi\u00e3o de Donetsk ocupava a segunda posi\u00e7\u00e3o entre 24 regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia pela quota de produtos industriais vendidos no volume total de vendas na Ucr\u00e2nia. No que diz respeito \u00e0 estrutura setorial, a regi\u00e3o \u00e9 aquela que tem a parte predominante de especializa\u00e7\u00e3o mineira e metal\u00fargica: as ind\u00fastrias dominantes s\u00e3o a metal\u00fargica (47,1%) e a mineira (15,2%), que surgiu como resultado da orienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da economia do pa\u00eds para a explora\u00e7\u00e3o extensiva dos recursos naturais durante a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados oficiais de 2016, com a guerra civil, a quota do setor terci\u00e1rio na regi\u00e3o diminuiu significativamente (de 50% para 40,0%, em 2016), principalmente devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos volumes de com\u00e9rcio, despesas para a educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os de sa\u00fade. A ind\u00fastria emprega quase 45,0% da popula\u00e7\u00e3o ativa da regi\u00e3o, 18,4% dedicam-se ao trabalho em apoio social, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, outros 10,1% trabalham na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e 7,3% no setor dos transportes.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a ind\u00fastria mineira emprega cerca de 25,5% da popula\u00e7\u00e3o ativa, sobretudo na extra\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, e a metalurgia tem tamb\u00e9m um peso importante na economia da regi\u00e3o. \u00c9 este o contexto estrat\u00e9gico que faz de Donbass uma zona de import\u00e2ncia econ\u00f3mica. A norte do Oblast de Donetsk, encontra-se Lugansk, que, em 2004, tinha quase 2.5 milh\u00f5es de habitantes. Com a mesma estrutura econ\u00f3mica, a extra\u00e7\u00e3o mineira era uma das principais atividades. Foram estas regi\u00f5es que se autoproclamaram independentes em 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anna Kuznetsova tem 25 anos e \u00e9 professora de russo numa escola t\u00e9cnica em Donetsk, onde vive desde sempre. Prefere n\u00e3o dar a cara porque teme repres\u00e1lias contra familiares que est\u00e3o do outro lado da linha da frente, na parte da regi\u00e3o separatista de Donbass sob controlo das tropas ucranianas. S\u00e3o oito anos de uma guerra civil que se internacionalizou com a entrada da R\u00fassia no conflito.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5763,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5753"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5753"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5753\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5883,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5753\/revisions\/5883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5753"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}