{"id":5723,"date":"2022-03-20T21:56:03","date_gmt":"2022-03-20T21:56:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5723"},"modified":"2022-03-20T21:56:04","modified_gmt":"2022-03-20T21:56:04","slug":"as-criancas-o-cinema-e-a-liberdade-do-imaginario-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/03\/20\/as-criancas-o-cinema-e-a-liberdade-do-imaginario-infantil\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as, o cinema e a liberdade do imagin\u00e1rio infantil"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 poss\u00edvel definir a fronteira entre o que \u00e9 um filme com crian\u00e7as e um filme para crian\u00e7as?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Atentemo-nos ao caso de \u201cAndr\u00e9 Valente\u201d, de Catarina Ruivo (2004). Seguimos o percurso de um mi\u00fado de 8 anos, Andr\u00e9 Valente, que tenta encontrar sa\u00eddas para a vida, apesar da tristeza e desamparo da m\u00e3e, da aus\u00eancia do pai e das dificuldades de integra\u00e7\u00e3o. As solu\u00e7\u00f5es que encontra surgem instintiva e naturalmente \u00e0 medida que as coisas lhe acontecem. Andr\u00e9 confia na amiga mas tamb\u00e9m se revolta, ao perceber ficar\u00e1 sozinho, quando esta lhe diz que se vai embora da escola. Aproxima-se de Nicolai, o vizinho russo; segue-o at\u00e9 ao ringue, troca a sua bicicleta por uns patins e aprende a patinar. Procura um substituto do pai. Nicolai parte. Andr\u00e9 fica novamente desiludido e desamparado, nesta entrada na vida &#8211; transi\u00e7\u00e3o entre ser crian\u00e7a, e um mundo em que a solid\u00e3o e o abandono predominam. Por isso, depois de observar da janela uma \u00faltima vez Nicolai e pedir que este repare nele e se despe\u00e7a (pensamento m\u00e1gico infantil), Andr\u00e9 deita-se pela primeira vez ao lado da m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Revolta e ousadia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A revolta de Andr\u00e9 \u00e9 o que o move e torna mais audaz. O que diria uma crian\u00e7a da idade de Andr\u00e9 sobre este protagonista? Talvez acabasse a fazer as perguntas que Andr\u00e9 faz: por que \u00e9 que se v\u00e3o todos embora, por que \u00e9 que o pai est\u00e1 t\u00e3o longe e n\u00e3o quer saber deles, por que \u00e9 que a m\u00e3e parece t\u00e3o triste?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAndr\u00e9 Valente\u201d \u00e9 um filme sobre a inf\u00e2ncia e para a inf\u00e2ncia? Entre a dureza e a aud\u00e1cia de um mi\u00fado, os jogos e brincadeiras pr\u00f3prios da idade e os dias passados no apartamento, o que retemos \u00e9 a coragem e a bravura de Andr\u00e9 pelo desconhecido mundo dos adultos. A inoc\u00eancia da inf\u00e2ncia \u00e9 igualmente sin\u00f3nimo de coragem, rebeldia, desilus\u00e3o, desamparo e frustra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cO Espelho\u201d (1997), de Jafar Panahi, acompanhamos uma menina que tenta ir para casa, depois de perceber que a m\u00e3e n\u00e3o a vai buscar \u00e0 escola. A certa altura, no autocarro em que segue, ouvimos uma voz vinda de fora de campo:&nbsp;<em>\u201cMina, n\u00e3o olhes para a c\u00e2mara.\u201d<\/em>&nbsp;A crian\u00e7a olha de volta e diz:&nbsp;<em>\u201cN\u00e3o quero mais representar\u201d<\/em>, tira as ligaduras de um bra\u00e7o (que faziam parte da personagem), e sai. Por mais que a tentem demover, Mina \u00e9 inflex\u00edvel. A equipa t\u00e9cnica fica sem saber o que fazer. O enredo torna-se no percurso poss\u00edvel que o realizador consegue filmar de Mina a ir para casa (e j\u00e1 n\u00e3o a personagem).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Panahi revela o dispositivo cinematogr\u00e1fico para falar da arte de re-apresentar a vida; politicamente, interessa-lhe sublinhar a liberdade e a aud\u00e1cia de Mina, face \u00e0 opress\u00e3o da mulher no Ir\u00e3o. A crian\u00e7a n\u00e3o quer continuar a viver a press\u00e3o e exig\u00eancias de ser actriz. Afirma a sua condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a e rapariga; quer ser ela mesma. No cinema de Panahi, as crian\u00e7as s\u00e3o o motor de uma sociedade derrotada pelo medo, que vai perdendo a coragem para resistir e lutar face aos atentados contra as liberdades pessoais, sociais e de g\u00e9nero. As crian\u00e7as n\u00e3o sabem ainda tudo, mas reconhecem o mais importante. A liberdade \u00e9-lhes intr\u00ednseca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A influ\u00eancia e a liberdade do imagin\u00e1rio\u00a0infantil<\/h2>\n\n\n\n<p>A palavra \u201ccrian\u00e7a\u201d vem do latim&nbsp;<em>creare<\/em>, a mesma origem de cria\u00e7\u00e3o e criatividade. A criatividade est\u00e1 na forma como os mais pequenos agem, se expressam artisticamente e como podem reagir a um objecto f\u00edlmico. Em 1939, Dante Costa escrevia:&nbsp;<em>\u201co cinema \u00e9 um desses poderosos agentes que vai influir sobre a sua moral, atrav\u00e9s de est\u00edmulos. E define cinema educativo como aquele que na crian\u00e7a \u201cmarca uma presen\u00e7a capaz de exercer uma ac\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica.\u201d<\/em>&nbsp;O cinema com crian\u00e7as, sobre o universo infantil ou para as crian\u00e7as \u00e9 mais complexo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 a crian\u00e7a&nbsp;<em>para<\/em>&nbsp;o cinema? O que \u00e9 que o cinema&nbsp;<em>quer<\/em>&nbsp;da crian\u00e7a?, pergunta Vicky Lebeau em&nbsp;<em>\u201cChildhood and Cinema\u201d<\/em>. Se a crian\u00e7a para o cinema pode ser a for\u00e7a motriz quando o adulto se deixou conformar e perdeu capacidade de lutar, de ter coragem, ent\u00e3o a s\u00e9tima arte procura expressar as complexidades do humano ainda em forma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o do ponto-de-vista e universo infantis. O que subjaz \u00e9 a liberdade, ou, ao inv\u00e9s, as consequ\u00eancias do medo, da tristeza (que frequentemente v\u00eam dos adultos). Assim, a crian\u00e7a nunca pode ser vista como objecto, mas como sujeito que mais do que representar, est\u00e1 a ser, a existir e a sonhar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os prim\u00f3rdios do mudo ao neo-realismo, passando pelo contempor\u00e2neo, o cinema tentou sempre captar a ess\u00eancia do que \u00e9 ser crian\u00e7a. Lebeau tece a compara\u00e7\u00e3o entre linguagem verbal e linguagem cinematogr\u00e1fica<em>. \u201cA crian\u00e7a tende a ser \u2018descoberta\u2019 no limite do que as palavras podem ser chamadas a dizer ou significar \u2013 limite que origina as quest\u00f5es de como comunicar a experi\u00eancia da crian\u00e7a em linguagem (verbal), do que \u2018nessa imagem\u2019 sai fora, e por isso resiste, ao mundo das palavras. Em contraste, quando se trata da representa\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, o cinema, com o seu acesso privilegiado ao perceptual, riqueza visual e sonora, parece ter vantagem: mais pr\u00f3ximo da percep\u00e7\u00e3o, consegue aproximar-se mais da crian\u00e7a. Em particular, o impulso e capacidade para ver continua a ser investido como modos primordiais de descoberta do mundo das crian\u00e7as e jovens.\u201d<\/em>&nbsp;Tendo a crian\u00e7a como tema, personagem ou protagonista, criadores e espectadores procuram, ainda que transversalmente, regressar \u00e0 inf\u00e2ncia, compreender filhos e educandos, a ousadia e liberdade do imagin\u00e1rio infantil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que procuram as crian\u00e7as num filme? Continuar a sonhar. Verem as suas ac\u00e7\u00f5es e ideias, por mais fantasiosas que sejam, num mundo que consegue ir al\u00e9m da realidade &#8211; nas suas narrativas, na forma como apresenta personagens realistas ou figuras irreais. Encontrarem no ecr\u00e3 aquilo que d\u00e1 conta da sua imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, mesmo dentro de um quotidiano pr\u00f3ximo do seu, que ao mesmo tempo o espelha na aud\u00e1cia de ser e fazer aquilo que elas mesmas ousam concretizar. Entre drag\u00f5es, cidades inventadas, mi\u00fadas e mi\u00fados com as suas dores de crescimento, o cinema expande a capacidade de reinven\u00e7\u00e3o do ser humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel definir a fronteira entre o que \u00e9 um filme com crian\u00e7as e um filme para crian\u00e7as?\u00a0 Atentemo-nos ao caso de \u201cAndr\u00e9 Valente\u201d, de Catarina Ruivo (2004). 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