{"id":5685,"date":"2022-03-20T21:11:28","date_gmt":"2022-03-20T21:11:28","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5685"},"modified":"2022-04-01T11:51:05","modified_gmt":"2022-04-01T11:51:05","slug":"populacao-idosa-e-covid-19-do-idadismo-ao-regresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/03\/20\/populacao-idosa-e-covid-19-do-idadismo-ao-regresso\/","title":{"rendered":"Popula\u00e7\u00e3o idosa e Covid-19: do idadismo ao regresso"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cJ\u00e1 temos poucos anos de vida e ainda nos tiraram mais dois\u201d \u2013 foi a Maria que disse, hoje, sentada num banco do Largo da Gra\u00e7a, no nosso reencontro soalheiro p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinham passados poucos meses daquele novo quotidiano quando nos debru\u00e7\u00e1mos num artigo que anunciava \u201cMais velhos, mais diferentes\u201d. Passaram muitos outros meses, uns quantos momentos de liberta\u00e7\u00e3o e outros de recuo, novos per\u00edodos de confinamento e, n\u00e3o querendo antecipar a conclus\u00e3o, estas linhas assumem uma cr\u00edtica marcada \u00e0 gest\u00e3o destes tempos: a representa\u00e7\u00e3o de todos os idosos como um grupo homog\u00e9neo e vulner\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos, ent\u00e3o, ao que nos distingue. Desenvolvemo-nos do primeiro ao \u00faltimo dia de vida, num processo que influencia e se deixa influenciar pelas condi\u00e7\u00f5es do nosso contexto. Sejam os nossos cuidados de sa\u00fade pedi\u00e1tricos, o sal\u00e1rio que auferimos enquanto trabalhamos, as oportunidades de participa\u00e7\u00e3o que nos oferecem quando envelhecemos, ou a exist\u00eancia de um v\u00edrus \u00e0 escala global. A cada experi\u00eancia e acontecimento, tornamo-nos exponencialmente mais diferentes dos demais. Se algo herdamos da idade, \u00e9 a heterogeneidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Estivemos longe de a respeitar. O calend\u00e1rio do nosso Centro de Conv\u00edvio marca, quase numa performance po\u00e9tica,&nbsp;<em>20 de Mar\u00e7o de 2020<\/em>. Dentre os dois anos perdidos a que a Maria se referiu, assistimos, em primeira linha, ao decl\u00ednio das capacidades funcionais dos nossos utentes, ao comprometimento que tal assumiu na autonomia de tantos deles, bem como \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o dos seus sentimentos de bem-estar e qualidade de vida. At\u00e9 a\u00ed, era supostamente contra isto que invest\u00edamos o nosso trabalho na luta contra o isolamento social.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o desconsideramos a import\u00e2ncia da preven\u00e7\u00e3o num cen\u00e1rio que se apresentou devastador e, acima de tudo, imprevis\u00edvel. A taxa de \u00f3bitos acima dos 65 anos foi\/ tem sido indiscutivelmente superior quando comparada com as restantes faixas et\u00e1rias. Apesar disso, uma leitura linear destes dados desconsidera duas situa\u00e7\u00f5es \u2013 por um lado, o n\u00famero largamente superior de infe\u00e7\u00f5es entre as camadas populacionais mais novas e as suas consequ\u00eancias j\u00e1 reconhecidas; por outro, a contabiliza\u00e7\u00e3o absoluta destes dados numa sociedade envelhecida, como \u00e9 o caso da portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 aconselh\u00e1vel proteger os mais vulner\u00e1veis ao v\u00edrus, noutro sentido, o comprometimento da autonomia dos mais velhos e a desconsidera\u00e7\u00e3o das suas necessidades e contribui\u00e7\u00e3o social configuram atitudes idadistas. Esta equipara\u00e7\u00e3o da idade mais avan\u00e7ada com depend\u00eancia e limita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 ignora a diversidade que j\u00e1 referimos, como expressa aos idosos que s\u00e3o fr\u00e1geis e incapazes. As evid\u00eancias da pr\u00e1tica cient\u00edfica e profissional v\u00eam, sobre isto, demonstrando que a experi\u00eancia do envelhecimento \u00e9 constru\u00edda a partir da perce\u00e7\u00e3o que cada pessoa tem acerca da sua vida. A vis\u00e3o estereotipada da velhice como etapa de perdas, decl\u00ednios e recuos representa uma influ\u00eancia negativa no desenvolvimento da pessoa idosa, com consequ\u00eancias ao n\u00edvel da mem\u00f3ria, da gest\u00e3o de stress, da autoimagem, das expetativas relativamente a esta etapa vital e \u2013 curiosamente \u2013 at\u00e9 ao n\u00edvel\u2026 da mortalidade. Parece, ent\u00e3o, que&nbsp;<em>mal<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>cura&nbsp;<\/em>partilham o mesmo des\u00edgnio.<\/p>\n\n\n\n<p>Transportamos marcas \u2013 individuais e coletivas \u2013 incontorn\u00e1veis desta \u00e9poca. Transform\u00e1mos necessidades e at\u00e9 interesses, os quais nos exigem respostas. Enquanto profissionais, o mote \u00e9, mais do que nunca,&nbsp;<em>adapta\u00e7\u00e3o<\/em>. Recuperar o sucesso do envelhecimento implica reconduzir a a\u00e7\u00e3o no sentido da valoriza\u00e7\u00e3o de todas as pessoas que, independentemente da idade, s\u00e3o recursos capazes e dispon\u00edveis para contribuir para a sociedade. A partir de mar\u00e7o, voltamos a contar com todos para trilhar esta estrada \u2013 est\u00e1 reaberto o nosso Centro de Conv\u00edvio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cJ\u00e1 temos poucos anos de vida e ainda nos tiraram mais dois\u201d \u2013 foi a Maria que disse, hoje, sentada num banco do Largo da Gra\u00e7a, no nosso reencontro soalheiro p\u00f3s-pandemia. Tinham passados poucos meses daquele novo quotidiano quando nos debru\u00e7\u00e1mos num artigo que anunciava \u201cMais velhos, mais diferentes\u201d. 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