{"id":5646,"date":"2022-02-09T12:41:47","date_gmt":"2022-02-09T12:41:47","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5646"},"modified":"2022-02-09T12:41:48","modified_gmt":"2022-02-09T12:41:48","slug":"sobre-cronicas-algarvias-de-manuel-da-fonseca-e-de-a-ultima-fuga-de-richard-fleischer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/02\/09\/sobre-cronicas-algarvias-de-manuel-da-fonseca-e-de-a-ultima-fuga-de-richard-fleischer\/","title":{"rendered":"Sobre \u201cCr\u00f3nicas Algarvias\u201d, de Manuel da Fonseca, e de \u201cA \u00faltima Fuga\u201d, de Richard Fleischer"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Filmar e imaginar um filme em Albufeira: um protagonista de fic\u00e7\u00e3o, e os habitantes \u201creais\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A prop\u00f3sito do ciclo em torno do Director de Fotografia sueco Sven Nykvist, a Cinemateca, Museu do Cinema, passou o filme \u201cA \u00faltima fuga\u201d (\u201cLast Run\u201d), de Richard Fleischer. Como escreve Manuel Cintra Ferreira na respectiva folha de sala, \u201c\u00e9 um filme que tem como pano de fundo a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica\u201d. Mas disso s\u00f3 damos conta depois dos preparativos que detalhadamente acompanhamos o protagonista a realizar em torno de um carro, ao mesmo tempo que vemos o gen\u00e9rico. Da min\u00facia e ritmo lento a que a entrada no filme alude, vamos para uma paisagem que nos avisaram j\u00e1 que \u00e9 algarvia na sinopse do filme. O ritmo acelera exponencialmente. Curva e contra curva, junto ao mar, o mesmo carro conduzido por Harry Garmes, papel interpretado por George C. Scott, numa corrida louca e quase mortal a cada curva. N\u00e3o esque\u00e7amos o t\u00edtulo deste filme de 1972: \u201cLast Run\u201d, \u201cA \u00faltima fuga\u201d. O destino de Garmes \u00e9 a praia de pescadores de Albufeira (tanto neste arranque como no desfecho). Sobre essas enseadas fala tamb\u00e9m Manuel da Fonseca na cr\u00f3nica que dedicou a Albufeira, no decorrer do p\u00e9riplo que fez, em Agosto de 1968, por terras a sul. \u201cAs arribas, de rochas doiradas, corro\u00eddas pelo arremesso raivoso das vagas e das ventanias que v\u00eam de longe, iradas, raspando ao r\u00e9s da \u00e1gua, cobrem-se, nos topos, de uma vegeta\u00e7\u00e3o rasteira, que parece escorrer como uma frescura de limos-verdes.\u201d\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro anos antes da produ\u00e7\u00e3o da MGM ter vindo para Portugal filmar parte do filme, j\u00e1 Manuel da Fonseca, visse nestas terras um cen\u00e1rio cinematogr\u00e1fico. Na vers\u00e3o em livro, publicada pela Caminho em 1986, constam excertos de di\u00e1logos que o escritor foi mantendo com o editor d\u2019A Capital, sobre as mesmas cr\u00f3nicas di\u00e1rias. Fonseca tamb\u00e9m conseguiu recuperar a maioria dos textos sem os cortes da Censura. Por isso, interrompendo a primeira parte do texto, e depois de relatar a primeira impress\u00e3o que teve com a sua chegada a Albufeira (n\u00e3o de carro e a alta velocidade, mas de autocarro), temos um fio de conversa: <em>&#8211; Abertura para um filme? \u2013 Albufeira merece-o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O protagonista de \u201cA \u00faltima fuga\u201d vai ao encontro de Miguel, um pescador, que guarda o seu barco de pesca, informa-o que vai partir e que ser\u00e1 ele quem continuar\u00e1 respons\u00e1vel pela embarca\u00e7\u00e3o na sua aus\u00eancia. Percebemos mais tarde que Garmes \u00e9 filho de m\u00e3e portuguesa, e vive h\u00e1 nove anos em Albufeira para onde foi com a mulher, e sonho de ter um barco e ser pescador. A mulher desapareceu com outra pessoa depois da morte do filho de ambos. O sonho ficou para tr\u00e1s, este \u00e9 um homem que nunca se conseguiu libertar do passado. Vemo-lo a ir \u00e0 campa do filho, e temos como centro do filme a \u00faltima miss\u00e3o que decide fazer como gangster, e ao fim desses quase dez anos de interregno: ajudar \u00e0 fuga e transporte de um prisioneiro de Espanha para Fran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel da Fonseca passa tamb\u00e9m por essa praia: \u201cSaio pela praia dos pescadores. Incrustada na rocha, uma constru\u00e7\u00e3o tosca, com a larga parede escalavrada, como que feita de rocha amarelo-rosada, com o caixilho das janelas vermelho-vivo, faz o contraste surpreendente com o pr\u00e9dio, que se lhe encosta, esguio e de varandas, pintado de verde. (&#8230;) Passo perto dos barcos. Alguns t\u00eam ainda as velas abertas como asas. Aqui e al\u00e9m, remos, redes.\u201d O escritor queria sobretudo captar o movimento das gentes daquele lugar; por isso, com o prop\u00f3sito de pedir lume para um cigarro, fala com um casal de jovens que lhe dizem: \u201cA vida aqui \u00e9 sempre alegre. A maioria, estrangeiros e portugueses, est\u00e1 quinze dias, um m\u00eas. Renovam-se constantemente. Chegam e trazem dinheiro fresco. E a boa disposi\u00e7\u00e3o continua toda a \u00e9poca. N\u00e3o h\u00e1 princ\u00edpio nem fim de Ver\u00e3o.\u201d \u00c9 um destes estrangeiros, luso-descendente, que descobre os encantos de Albufeira. \u00c9 sobre os seus \u00faltimos dias que se centra \u201cA \u00faltima fuga\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Garmes, um solit\u00e1rio, manteve-se distante dos algarvios (ou assim decidiu o argumentista Alan Sharp), tendo somente liga\u00e7\u00e3o com Miguel, e uma prostituta (e mesmo estes parecem personagens que funcionam em prol do enredo, sem uma caracteriza\u00e7\u00e3o aprofundada). Ainda na cr\u00f3nica de Manuel da Fonseca, rapariga fala da beleza dos nomes das localidades que circundam Albufeira: Gal\u00e9, Maria Lu\u00edsa, Olhos-d\u2019\u00c1gua, Baleeira, Ninho das Andorinhas, e o rapaz acrescenta: <em>&#8211; Acho que te esqueceste de qualquer coisa. (&#8230;) Dos habitantes. S\u00e3o os melhores do mundo. O meu marido \u00e9 de Albufeira. Mas, sem lisonjas, \u00e9 uma gente simp\u00e1tica.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Albufeira apenas como pano-de-fundo de um filme \/ Albufeira centrada nas pessoas numa cr\u00f3nica\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>O filme n\u00e3o se centra nas gentes de Albufeira, jovens, pescadores e outros; a localidade \u00e9 apenas cen\u00e1rio para a viagem circular de Harry. Era ali que queria acabar os seus dias, aceita a viagem para resgatar o prisioneiro Rickard; por causa dos incidentes de percurso, \u00e9 ali que termina, morrendo na mesma praia onde falou com o pescador Miguel. \u00c9 ali, moribundo, que observa o casal (a partir de certa altura Rickard encontra-se com a companheira que passa a fazer parte da fuga). Estamos longe do que, por exemplo, fez Paulo Rocha em \u201cMudar de Vida\u201d (1966), a sua segunda longa-metragem, ao adiar por um ano a destrui\u00e7\u00e3o da \u00faltima companha, em Furadouro, comunidade piscat\u00f3ria a norte de Portugal, escrevendo a hist\u00f3ria de Adelino e J\u00falia, e o seu reencontro ap\u00f3s anos de aus\u00eancia deste em \u00c1frica, recorrendo \u00e0s gentes que ali nasceram, ali trabalhavam na faina em alto mar, nas redes, na apanha das agulhas de pinheiro ou da areia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda \u00e0 descoberta, Manuel da Fonseca entra num caf\u00e9 que tem expostos os quadros de Jo\u00e3o Bailote; pergunta ao dono do caf\u00e9 pelo autor dos mesmo, que o informa que Bailote anda na pesca. \u00c9 a pesca o foco das suas telas. Depois, ao entrar numa papelaria para comprar um ma\u00e7o de tabaco, Fonseca nota \u201cum jornal redigido em quatro l\u00ednguas. Portugu\u00eas, franc\u00eas, ingl\u00eas e alem\u00e3o; um jornal de Albufeira. &#8211; Deve ser \u00fanico no Pa\u00eds \u2013 admiro-me. Num sorriso espont\u00e2neo de mal\u00edcia e de orgulho, a rapariga, atira-me com esta: &#8211; Tamb\u00e9m Albufeira \u00e9 \u00fanica no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando regressamos a Albufeira, j\u00e1 no final de \u201cA \u00faltima fuga\u201d, nos derradeiros instantes dessa fuga, o carro de Garmes fica entalado numa das ruas esguias do centro da vila. Estamos longe da per\u00edcia e vitalidade com que o protagonista percorreu as arribas algarvias no come\u00e7o do filme. De novo, as ruas s\u00e3o instrumento para o dispositivo dram\u00e1tico, que impede o protagonista de seguir viagem naquele que \u00e9 o seu mais importante \u201celo\u201d, o seu carro &#8211; mais do que para a invoca\u00e7\u00e3o dos que por ali andam e vivem, ou dos estabelecimentos que por ali possam existir. Mesmo que fosse sob o olhar ou a prop\u00f3sito de um passeio do protagonista. Como faz Manuel da Fonseca: \u201cSubo ao terreiro da casa do peixe. Para l\u00e1 da esquina, sigo por uma rua \u00edngreme. E, como se tudo, casas e ruas, fosse lavado de cal e de sol, subindo sempre, chego ao cora\u00e7\u00e3o da antiga Albufeira. Rua da Igreja Velha, Rua do Correio Velho. tudo velho, ruas, becos, vielas. Mas tudo caiado e limpo, tudo varrido, do vento do mar. Velhos, velhas, crian\u00e7as, pescadores. Redes como estore, a taparem portas. Cheiro a peixe.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Num excerto dos di\u00e1logos entre o escritor Manuel da Fonseca e o editor M\u00e1rio Neves: <em>&#8211; Neste final, melhoraste. \u2013 Achas? \u2013 Melhora-se sempre quando aparecem pessoas, <\/em>podemos constatar que o objectivo do escritor \u00e9 diferente daquele que o filme de Fleischer prop\u00f5e. Albufeira e os seus habitantes e trabalhadores s\u00e3o mero cen\u00e1rio de fundo em \u201cA \u00faltima fuga\u201d, desde os homens que est\u00e3o no caf\u00e9 onde p\u00e1ram os fugitivos, e v\u00eam um filme tamb\u00e9m de gangsters (que nunca estaria a passar na televis\u00e3o de um daqueles caf\u00e9s, que se assemelha mais a uma tasca), aos guardas que conferem os passaportes na fronteira. O centro narrativo do filme \u00e9 a hist\u00f3ria desse homem, norte-americano, que, como diz o prisioneiro que ele ajuda a escapar, j\u00e1 estava morto h\u00e1 muito tempo, mesmo antes de ser alvejado. Garmes apenas quer descobrir se ainda \u00e9 poss\u00edvel ter um objectivo, uma miss\u00e3o que consiga abra\u00e7ar e cumprir na sua vida. Portugal e Albufeira apenas fazem parte desse fim-de-linha, de um \u00faltimo estertor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed podermos talvez dizer que o nosso pa\u00eds \u00e9 uma esp\u00e9cie de postal ilustrado, em 1971, v\u00e9speras da queda do regime fascista, para a hist\u00f3ria de um homem em decad\u00eancia, que cumpre aquela corrida louca no come\u00e7o, desafiando a morte, para abra\u00e7ar esse fim derradeiro no areal da praia, no desfecho do filme. Em \u00faltima an\u00e1lise, o barco que comprou salva o casal de evadidos, sacrificando a sua vida, e a do pescador Miguel, que nada tinha a ver com todo este enredo (t\u00e3o distante da sua vida di\u00e1ria) e foi morto, por aqueles que boicotaram toda a miss\u00e3o da fuga.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Falando sobre as suas dores, dificuldades e trabalho \u00e1rduo, os protagonistas da obra de Manuel da Fonseca s\u00e3o aqueles que costumeiramente ficam na sombra. Como podemos constatar tamb\u00e9m nos versos do seu poema \u201c Can\u00e7\u00e3o da beira-mar\u201d:&nbsp; \u201c\u00d3 mar que \u00e9s um le\u00e3o, \/ com a tua garra, \/ a vaga, \/ despeda\u00e7a a amarra \/ que nos prende \u00e0 terra. (&#8230;) A noite passa, \/ o dia volta&#8230; \/ e no peito dos homens \/ sempre o mesmo grito de ansiedade e de desgra\u00e7a: \/ &#8211; \u00d3 mar de revolta! \/ montanhas de \u00e1gua, \/ oceano de vendavais (&#8230;)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Conclu\u00edmos a cr\u00f3nica<em> <\/em>com um dado que o pr\u00f3prio Manuel da Fonseca deixa no pref\u00e1cio ao livro, datado da altura de edi\u00e7\u00e3o do mesmo, 1986: \u201cPelo censo, de 341&nbsp;843 habitantes (na regi\u00e3o do Algarve) apenas 125 857 exerciam profiss\u00f5es. Destes, s\u00f3 73&nbsp;004, na sua maioria, segundo antiqu\u00edssimos usos e costumes, trabalhavam como desde h\u00e1 mil anos na pesca e na agricultura; 52&nbsp;853 nas comunica\u00e7\u00f5es, nos transportes, na ind\u00fastria, esta quase inexistente se exceptuarmos o turismo.\u201d Dois desafios ficam, para pr\u00f3xima investida. Saber, de acordo com os censos 2021, como se distribuem pelos diferentes sectores profissionais de actividade (bem como os n\u00fameros do desemprego) os 226 839 habitantes do Algarve&#8230; E, numa revisita\u00e7\u00e3o e caminhada pelos lugares do barlavento mencionados nas cr\u00f3nicas de Manuel da Fonseca e no filme de Richard Fleischer, perceber como est\u00e3o, que pessoas os habitam e neles convivem.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filmar e imaginar um filme em Albufeira: um protagonista de fic\u00e7\u00e3o, e os habitantes \u201creais\u201d. 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