{"id":5636,"date":"2022-02-09T12:20:22","date_gmt":"2022-02-09T12:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5636"},"modified":"2022-02-09T12:29:26","modified_gmt":"2022-02-09T12:29:26","slug":"sobre-o-suicidio-e-o-filme-chamada-para-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/02\/09\/sobre-o-suicidio-e-o-filme-chamada-para-a-vida\/","title":{"rendered":"Sobre o suic\u00eddio e o filme &#8220;Chamada para a Vida&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>O protagonista e volunt\u00e1rio Sidney Poitier, e a hist\u00f3ria de um filme com poucas liga\u00e7\u00f5es \u00e0 realidade portuguesa<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira obra que Sydney Pollack realiza para o grande ecr\u00e3, em 1965, \u201cChamada para a Vida\u201d (\u201cThe Slender Thread\u201d), retrata uma \u00fanica situa\u00e7\u00e3o milimetricamente escalpelizada de uma mulher de trinta anos que liga para uma linha de apoio psicol\u00f3gico para aqueles que tentam ou pensam suicidar-se. \u00c9 um filme baseado numa hist\u00f3ria na altura publicada na revista Life, e o \u201ccaso real\u201d s\u00f3 nos pode alertar para o facto de que o suic\u00eddio a\u00ed est\u00e1 e continua bem como outras preval\u00eancias e doen\u00e7as de cariz ps\u00edquico, talvez at\u00e9 com maior predom\u00ednio, face ao que o mundo enfrenta em termos epid\u00e9micos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Sidney Poitier, recentemente falecido (a seis de Janeiro, com 94 anos), e que dois anos antes da produ\u00e7\u00e3o deste filme foi o primeiro actor negro a ganhar um \u00d3scar (como Melhor Actor Principal em \u201cUma Voz nas Sombras\u201d, \u201cLilies of the Field\u201d), interpreta o papel de um jovem estudante volunt\u00e1rio de uma linha de apoio, no Centro de Crise, linha dispon\u00edvel vinte e quatro horas, pois como diz num cartaz na sala de atendimento, de dois e dois minutos algu\u00e9m se tenta suicidar nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo uma not\u00edcia de Setembro de 2021 publicada no <a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/em-portugal-suicidam-se-tres-pessoas-por-dia-vamos-falar-sobre-isso-14106005.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/a>, h\u00e1 em m\u00e9dia tr\u00eas pessoas que decidem p\u00f4r termo \u00e0 vida no nosso pa\u00eds. N\u00famero que aumenta no resto do mundo: de quarenta em quarenta algu\u00e9m comete suic\u00eddio no mundo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No nosso pa\u00eds n\u00e3o existe uma linha que consiga estar permanentemente dispon\u00edvel para este tipo de situa\u00e7\u00f5es limite. O SOS Voz Amiga \u00e9 a linha que est\u00e1 mais pr\u00f3xima do retratado em \u201cChamada para a Vida\u201d. Existe desde 1978, \u00e9 composta por volunt\u00e1rios com forma\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, e o atendimento, que funciona todos os dias do ano entre as 15h30 e as 24h30, \u00e9 confidencial e feito em regime de duplo anonimado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que vemos descrito no filme de Pollack, a referida linha nacional n\u00e3o pede aos apelantes o nome ou sequer pode saber o telefone; por seu turno, os volunt\u00e1rios tamb\u00e9m n\u00e3o referem a sua identidade, sendo que podem sugerir que quem liga pode dar-lhes um nome. \u00c9 uma conversa entre duas pessoas numa sala.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme de Pollack, o volunt\u00e1rio Allan Newell tem o apoio de um psiquiatra, que acaba por regressar ao local de atendimento perante a situa\u00e7\u00e3o de crise de uma chamada. Nesta linha que funciona para todo o pa\u00eds, os volunt\u00e1rios assistem e participam em reuni\u00f5es semanais orientadas por uma psic\u00f3loga, onde podem falar e debater chamadas ou quest\u00f5es e temas centrais da sa\u00fade mental, ou que surjam nos telefonemas que v\u00e3o recebendo durante os turnos de atendimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos a narrativa de \u201cChamada para a Vida\u201d. Newell recebe a chamada de uma mulher, Inga, interpretada por Anne Bancroft, que acabou de ingerir uma grande quantidade de barbit\u00faricos. A miss\u00e3o do primeiro \u00e9 falar com a mulher, localiz\u00e1-la, e evitar que esta acabe por morrer. Toda uma equipa vai sendo mobilizada nesse sentido. N\u00e3o s\u00f3 o psiquiatra vai ao encontro de Poitier, como acontece o regresso de uma secret\u00e1ria que supostamente j\u00e1 teria abandonado o local de atendimento, bem como um outro t\u00e9cnico, que consegue ir vigiando as pulsa\u00e7\u00f5es de Inga atrav\u00e9s da sua voz ao telefone. Fora daquele ambiente vemos telefonistas, pol\u00edcias dentro e fora de uma esquadra a mobilizar constantes esfor\u00e7os para chegar \u00e0 mulher em vias de concretizar o suic\u00eddio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esta linha de ac\u00e7\u00e3o, Anne Bancroft vai contando a sua hist\u00f3ria a Poitier, ou seja, tentamos perceber as motiva\u00e7\u00f5es para aquele acto fatal. Vamos vendo epis\u00f3dios em flashback da sua hist\u00f3ria recente de vida. O que sentimos \u00e9 que ela \u00e9 uma mulher de classe m\u00e9dia , com muito poucos interesses, com um trabalho de secret\u00e1ria numa empresa, e que entra sobretudo em crise emocional, quando o marido, um pescador de alto mar, descobre que o filho de ambos, com doze anos, \u00e9 afinal filho de um homem com quem Inga teve um caso. Tudo se desmorona, e vamos acompanhando as sucessivas tentativas desta mulher de trinta anos para se tentar reaproximar do marido. De qualquer forma, o colapso \u00e9 iminente; o que sentimos \u00e9 que, independentemente do segredo revelado, que abalou a rela\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia e o casamento, esta mulher parecia ter um vazio interior e emocional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes isto \u00e9 o que \u00e9 dif\u00edcil de registar e explicar racional e exteriormente. Ou seja, uma perspectiva exterior dir\u00e1 que Inga n\u00e3o tem grandes motivos para se suicidar. Independentemente de tudo, o marido n\u00e3o se foi embora, o filho nada sabe. Tem pelo menos um casal amigo, uma casa de classe m\u00e9dia, emprego. O sofrimento interior e emocional tem raz\u00f5es que a raz\u00e3o desconhece. Ou esta mulher est\u00e1 apenas insatisfeita com a vida conformada que tem, em termos profissionais e pessoais. O que faz ela pelos outros, o que faz ela para mudar a sua vida, o que faz ela para criar comunidade (ou se aproximar dela)? Se formos ler as motiva\u00e7\u00f5es principais que levam a tentativas de suic\u00eddio lemos, ainda no mesmo artigo quest\u00f5es como a solid\u00e3o, o desemprego, o isolamento, a depress\u00e3o, problemas econ\u00f3micos, de habita\u00e7\u00e3o, div\u00f3rcios, etc. Por isso, estas linhas s\u00e3o t\u00e3o personalizadas, e atentam a cada pessoa que liga, sem limite de dura\u00e7\u00e3o da chamada. Apesar do volunt\u00e1rio ter de fazer, durante o seu turno, no que respeita por exemplo \u00e0 linha SOS Voz Amiga, a gest\u00e3o desse tempo, uma vez que \u00e9 uma linha muito solicitada, dada a car\u00eancia ao n\u00edvel da sa\u00fade mental em Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A aten\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e narrativa dada \u00e0 preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio: cada vida conta\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>Newell s\u00f3 se dedica \u00e0quele caso durante os 96 minutos que dura o filme ; trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o limite. Aquela mulher est\u00e1 algures e precisa de ser salva. Para que ela n\u00e3o desligue e seja localizada, ele tem de ir mantendo com ela uma conversa. E a conversa passa por tentar perceber quem ela \u00e9, criar um elo, literalmente mant\u00ea-la agarrada \u00e0 vida atrav\u00e9s da voz de um estranho, que naquele caso revela o seu nome. Podemos pensar, atentando ao que est\u00e1 escrito na parede da sala, que outras pessoas est\u00e3o a ligar para a linha de crise (ali\u00e1s no in\u00edcio existe um barbeiro b\u00eabedo que o est\u00e1 a fazer, e que o jovem \u201cdespacha\u201d, uma vez que Inga est\u00e1 j\u00e1 em linha). O que pode o jovem volunt\u00e1rio fazer? Al\u00e9m disso, nem todos os suicidas t\u00eam como derradeiro recurso telefonar para uma linha de ajuda, como a que o filme retrata, como o SOS Voz Amiga, ou mesmo a linha de sa\u00fade 24.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O centro tem\u00e1tico do filme \u00e9 o que convoca esta reflex\u00e3o. A sa\u00fade mental. O sil\u00eancio, a vergonha, a suposta fragilidade que as pessoas sentem ao esconderem como se sentem, e a falta de apoio que t\u00eam. No fundo, fazendo do seu sofrimento um segredo, adensando-o ainda mais. Por isso, por mais exc\u00eantrica que seja a situa\u00e7\u00e3o retratada em \u201cChamada para a Vida\u201d, ao acompanharmos <em>em directo<\/em> todo um telefonema, as causas reveladas em epis\u00f3dios da vida da interlocutora, ao vermos quantas pessoas e meios s\u00e3o numa noite mobilizados para salvar uma s\u00f3 pessoa, percebemos como cada vida \u00e9 importante e conta. Mesmo para estranhos, que fazem desse \u201csalvamento\u201d uma miss\u00e3o, como Newell (que \u00e9 estudante e volunt\u00e1rio), ou mesmo profiss\u00e3o (telefonistas, bombeiros, socorristas, pol\u00edcias, psiquiatras). E percebemos como est\u00e1 o nosso pa\u00eds longe do que o filme retrata.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, Inga \u00e9 descoberta num quarto de hotel, onde est\u00e1 a acontecer uma conven\u00e7\u00e3o e festejos com dezenas de pessoas alheias ao seu sofrimento. Inga n\u00e3o est\u00e1 afinal s\u00f3, pelo menos exteriormente: o marido \u00e9 avisado, aparece na sala do Centro de Crise. E toda uma equipa consegue descobri-la, inconsciente mas a respirar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Penso no fim do filme, perante o cansa\u00e7o sobretudo do volunt\u00e1rio Newell e na sua satisfa\u00e7\u00e3o; em todos o que morrem sozinhos, no sil\u00eancio, em desespero e na escurid\u00e3o. Sem apoio psiqui\u00e1trico e psicol\u00f3gico. Sem uma voz familiar, amiga. Se pod\u00edamos apontar muitas quest\u00f5es \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o \u201ctelevisiva\u201d (com uns zooms sobre momentos emocionais) ou \u00e0 pr\u00f3pria ideia de diegese cont\u00ednua que se pode tornar aborrecida, focada naquele espa\u00e7o interior onde decorre o atendimento, onde est\u00e1 Poitier, e os epis\u00f3dios em analepse da vida passada de Bancroft, trazer em 1965 este assunto para o centro de uma longa-metragem, falar dele em 2022, seja sob a forma de uma cr\u00edtica, seja at\u00e9 pensar em reflecti-lo num outro objecto cinematogr\u00e1fico, art\u00edstico (ou em debates e outras reflex\u00f5es mais imediatas na sociedade) \u00e9 fundamental face \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que nacional e mundialmente vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O protagonista e volunt\u00e1rio Sidney Poitier, e a hist\u00f3ria de um filme com poucas liga\u00e7\u00f5es \u00e0 realidade portuguesa A primeira obra que Sydney Pollack realiza para o grande ecr\u00e3, em 1965, \u201cChamada para a Vida\u201d (\u201cThe Slender Thread\u201d), retrata uma \u00fanica situa\u00e7\u00e3o milimetricamente escalpelizada de uma mulher de trinta anos que liga para uma linha &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/02\/09\/sobre-o-suicidio-e-o-filme-chamada-para-a-vida\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Sobre o suic\u00eddio e o filme &#8220;Chamada para a Vida&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":5637,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5636"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5645,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions\/5645"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5637"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5636"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}