{"id":5611,"date":"2022-02-07T17:04:35","date_gmt":"2022-02-07T17:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5611"},"modified":"2022-03-08T16:17:41","modified_gmt":"2022-03-08T16:17:41","slug":"a-ucrania-e-a-nato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/02\/07\/a-ucrania-e-a-nato\/","title":{"rendered":"A Ucr\u00e2nia e a NATO"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A partir dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e das tribunas pol\u00edticas hegem\u00f3nicas assistimos, nestas semanas, ao desenvolvimento de um discurso constante e comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 den\u00fancia de uma suposta invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Carmen Parejo, diretora da revista La Comuna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos os discursos correspondem a um prop\u00f3sito. Podemos dizer que procuram claramente intervir tanto na opini\u00e3o p\u00fablica como na atua\u00e7\u00e3o dos interlocutores interpelados. Para compreendermos a inten\u00e7\u00e3o e a finalidade do relato sobre a suposta invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia \u00e9 fundamental aproximarmo-nos do contexto e dos interesses em conflito entre os implicados neste caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a acusa\u00e7\u00e3o por parte, fundamentalmente, das pot\u00eancias da NATO &#8211; e em especial dos Estados Unidos, da iminente invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, a resposta da parte russa tem sido a nega\u00e7\u00e3o constante. De tal forma que o pr\u00f3prio presidente ucraniano Volodimir Zelenski negava estes dias que se estivesse a produzir uma atividade militar extraordin\u00e1ria por parte da R\u00fassia, acusando os Estados Unidos de gerar p\u00e2nico e estar a causar terr\u00edveis danos econ\u00f3micos a um pa\u00eds que j\u00e1 enfrenta uma terr\u00edvel crise. A exig\u00eancia de Zelenski persiste, contudo, h\u00e1 outra quest\u00e3o: Poder\u00e1 a Ucr\u00e2nia entrar na NATO?<\/p>\n\n\n\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (NATO), em cuja cria\u00e7\u00e3o Portugal participou como membro-fundador durante o regime fascista, \u00e9 uma alian\u00e7a militar intergovernamental que surgiu em 1949. O pretexto dos promotores da NATO era nem mais nem menos do que uma suposta \u201cinvas\u00e3o sovi\u00e9tica\u201d no continente europeu. O certo \u00e9 que nessa \u00e9poca o movimento oper\u00e1rio e comunista tinha for\u00e7a e estava no seu auge na regi\u00e3o. Por outras palavras, a NATO n\u00e3o nasceu para combater nenhuma invas\u00e3o estrangeira mas antes pelo medo a um confronto dentro dos seus pr\u00f3prios pa\u00edses. O seu temor era a mudan\u00e7a no equil\u00edbrio de for\u00e7as da luta de classes dentro das pot\u00eancias capitalistas que estavam por tr\u00e1s do acordo. Apesar de se justificar a NATO com o contexto da Guerra Fria n\u00e3o seria at\u00e9 \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o da URSS que as for\u00e7as da alian\u00e7a atl\u00e2ntica atuariam pela primeira vez como for\u00e7a conjunta na Jugosl\u00e1via.<\/p>\n\n\n\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o da URSS sup\u00f4s a destrui\u00e7\u00e3o social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica das rep\u00fablicas que a compunham. A corrup\u00e7\u00e3o e as m\u00e1fias tomaram o poder sob o patroc\u00ednio das pot\u00eancias europeias e dos Estados Unidos. Isto favoreceu a instabilidade dessa resp\u00fablicas e, simultaneamente, o expansionismo da NATO como da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, sem que fosse necess\u00e1ria qualquer justifica\u00e7\u00e3o. Se observamos o mapa, vemos claramente como se desenvolveu essa expans\u00e3o fora do seu \u00e2mbito de influ\u00eancia original.<\/p>\n\n\n\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o Russa ultrapassou a sua pr\u00f3pria etapa sombria que se seguiu \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o. Com a chegada de Vladimir Putin ao poder n\u00e3o se solucionaram todos os problemas dessa etapa. Contudo, produziram-se mudan\u00e7as que devem ser entendidas a partir do realismo pol\u00edtico e n\u00e3o tanto como um voluntarismo abstrato da nova pol\u00edtica russa. A recupera\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos da economia e a viragem progressiva nas suas pol\u00edticas internacionais foram duas pe\u00e7as chave desta nova etapa.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo unipolar liderado pelos Estados Unidos, tamb\u00e9m como pot\u00eancia hegem\u00f3nica da NATO, alcan\u00e7ou o seu zenit com a invas\u00e3o ilegal do Iraque em 2003. N\u00e3o obstante, depois daquela agress\u00e3o a unipolaridade norte-americana come\u00e7a a etapa de declive. Devido ao auge de novas pot\u00eancias econ\u00f3micas emergentes, onde se destacam a R\u00fassia e a China, o ressurgimento de eixos de resist\u00eancia ao avan\u00e7o unipolar de car\u00e1ter regional na Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia Ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos assim ao ano 2014 na Ucr\u00e2nia com um novo golpe de Estado que n\u00e3o era in\u00e9dito entre as distintas fa\u00e7\u00f5es da oligarquia ucraniana mas, desta vez, havia algo mais de fundo. O apoio claro e direto da Uni\u00e3o Europeia aos golpistas refor\u00e7ou-se com a chegada do apoio norte-americano. De facto, como na Jugosl\u00e1via ou no Afeganist\u00e3o, vimos estas pot\u00eancias intervir de forma direta e clara nos assuntos internos de outros Estados soberanos com absoluta naturalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Kiev, o novo governo golpista serviu-se de grupos de choque de car\u00e1ter neonazi vinculados com a figura do colaboracionista nazi ucraniano Stepan Bandera. Isto conduziu ao aumento da viol\u00eancia e da persegui\u00e7\u00e3o direta tanto de russos \u00e9tnicos ou culturais como de ciganos, judeus ou militantes de esquerda. Destaca-se o massacre em Odessa onde 47 pessoas foram queimadas vivas na sede dos sindicatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as consequ\u00eancias diretas destes factos temos por um lado o referendo da independ\u00eancia, e posterior ades\u00e3o \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Russa, da pen\u00ednsula da Crimeia e, em segundo lugar, o surgimento da resist\u00eancia na regi\u00e3o em Donbass, zonas de maioria russa.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram v\u00e1rias as tentativas diplom\u00e1ticas para solucionar o conflito entre Kiev e as rep\u00fablicas populares nascidas na guerra de Dobass, as Rep\u00fablicas de Donetsk e Lugansk. O incumprimento sistem\u00e1tico pela parte ucraniana dos acordos de Minsk e o apoio permanente da NATO \u00e0s for\u00e7as ucranianas deixaram estas rep\u00fablicas com poucas op\u00e7\u00f5es para a sua sobreviv\u00eancia para al\u00e9m de continuar com a resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos, pelo seu lado, insistem numa suposta iminente invas\u00e3o que at\u00e9 os seus s\u00f3cios de Kiev negam, enquanto rejeitam a proposta de se comprometerem por escrito a deixar de acossar as fronteiras russas. Muito provavelmente a inten\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 mais do que repetir o esquema da Oss\u00e9tia do Sul: for\u00e7ar a R\u00fassia a proteger o Donbass e consolidar a suposta invas\u00e3o como profecia auto-cumprida.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente ucraniano tem a urg\u00eancia de sair das suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. Manter como s\u00f3cios supremacistas nazis e os Estados Unidos n\u00e3o parece compat\u00edvel com responder ao reto da terr\u00edvel crise econ\u00f3mica e pol\u00edtica depois de oito anos de guerra em Donbass. Saber\u00e1 Zelenski que a Ucr\u00e2nia \u00e9 vista como um simples pe\u00e3o da NATO contra a R\u00fassia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e das tribunas pol\u00edticas hegem\u00f3nicas assistimos, nestas semanas, ao desenvolvimento de um discurso constante e comum em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 den\u00fancia de uma suposta invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia. Carmen Parejo, diretora da revista La Comuna Todos os discursos correspondem a um prop\u00f3sito. 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