{"id":5520,"date":"2022-02-03T23:25:08","date_gmt":"2022-02-03T23:25:08","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5520"},"modified":"2022-02-04T12:08:48","modified_gmt":"2022-02-04T12:08:48","slug":"o-sindicalista-jose-santos-arranha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/02\/03\/o-sindicalista-jose-santos-arranha\/","title":{"rendered":"O sindicalista Jos\u00e9 Santos Arranha secret\u00e1rio-geral da CGT (1922\/1923)"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 24 de Fevereiro de 1962, falecia em Lisboa uma figura cimeira do sindicalismo portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob o peso da censura de uma ditadura de tipo fascista, os jornais do dia seguinte n\u00e3o disseram nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quem ia a enterrar era um antigo secret\u00e1rio-geral da CGT (Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho). E antigo director do di\u00e1rio sindicalista <em>A Batalha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um homem que havia sido preso pol\u00edtico pelo menos seis vezes, mas que permaneceu fiel aos seus ideais at\u00e9 ao final da vida. Era anarquista. Ou \u201csocialista-libert\u00e1rio\u201d, como gostava de dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>E tinha sido tamb\u00e9m colaborador da <em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Oper\u00e1rio marceneiro<\/h2>\n\n\n\n<p>Filho de um ferrovi\u00e1rio, Jos\u00e9 da Silva Santos Arranha nasceu a 3 de janeiro de 1891, na ent\u00e3o vila de Caldas da Rainha.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornou-se oper\u00e1rio marceneiro e rumou a viver para Lisboa, onde viria a casar com uma oper\u00e1ria tabaqueira.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui se salientou nas lutas sindicais, no per\u00edodo da 1\u00aa Guerra Mundial. Foi ali\u00e1s nessa altura, em 1916 e 1917, que colaborou no principal jornal oper\u00e1rio que existia em Portugal: <em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, ent\u00e3o com edi\u00e7\u00e3o semanal de 60 mil exemplares.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste jornal, Santos Arranha exp\u00f4s duas lutas concretas do seu sector profissional. A primeira em torno do hor\u00e1rio de trabalho, procurando conquistar um limite di\u00e1rio de 9 horas. A segunda por quest\u00f5es salariais, tentando recuperar poder de compra face \u00e0 elevada infla\u00e7\u00e3o que se registava \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os sindicato \u00fanicos<\/h2>\n\n\n\n<p>Alguns anos depois, em 1920, Santos Arranha destacou-se num processo de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical que passou pela cria\u00e7\u00e3o dos ent\u00e3o chamados \u201csindicatos \u00fanicos\u201d. Tratava-se de reunir trabalhadores do mesmo ramo de actividade que anteriormente estavam divididos em diferentes sindicatos de of\u00edcios especializados.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Santos Arranha, a sua antiga Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Oper\u00e1rios Marceneiros de Lisboa aderiu ao novo Sindicato \u00danico da Ind\u00fastria Mobili\u00e1ria de Lisboa. Santos Arranha foi um dos fundadores deste novo sindicato e um dos seus primeiros dirigentes, respons\u00e1vel pela \u201ccaixa de solidariedade e Bolsa de Trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No final desse ano de 1920, ele foi tamb\u00e9m um dos fundadores da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Oper\u00e1rios da Ind\u00fastria de Mobili\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A CGT<\/h2>\n\n\n\n<p>No congresso oper\u00e1rio realizado em Outubro de 1922, na Covilh\u00e3, Santos Arranha foi eleito secret\u00e1rio-geral da central sindical CGT. E exerceu esse cargo durante um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma preocupa\u00e7\u00e3o central da CGT nesse per\u00edodo foi o agravamento do custo de vida. Para se ter uma ideia, at\u00e9 o governo republicano dizia que \u201ca carestia dos g\u00e9neros de primeira necessidade\u201d atingia pre\u00e7os \u201cexorbitantes\u201d e que era \u201cverdadeiramente aflitiva a situa\u00e7\u00e3o de milhares de consumidores\u201d. Mais reconhecia que existiam muitos \u201ccasos de explora\u00e7\u00e3o intensamente gananciosa\u201d e de lucros \u201cexcessivos\u201d que estavam \u201csemeando a mis\u00e9ria\u201d [<em>Di\u00e1rio do Governo<\/em> (1\u00aa s\u00e9rie), 21\/10\/1922].<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, foi priorit\u00e1ria a luta pela recupera\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios. Mas essa luta viu-se confrontada com outro problema, a repress\u00e3o pol\u00edtica sobre a classe trabalhadora: activistas presos, imprensa apreendida, sindicatos temporariamente encerrados, reuni\u00f5es dissolvidas&#8230; S\u00f3 no per\u00edodo em que Santos Arranha foi secret\u00e1rio-geral da CGT, ele pr\u00f3prio foi duas vezes preso, ambas quando participava em pac\u00edficas reuni\u00f5es sindicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ac\u00e7\u00e3o da CGT nesse per\u00edodo \u00e9 de salientar o trabalho de solidariedade com trabalhadores em luta. <em>\u201cEm Outubro de 1922 os mineiros de Aljustrel declaram-se em greve, reclamando melhores sal\u00e1rios, luta que sustentaram ininterruptamente at\u00e9 Janeiro seguinte\u201d<\/em>. A CGT organizou ent\u00e3o o acolhimento tempor\u00e1rio dos filhos destes trabalhadores em fam\u00edlias de Beja e Lisboa, <em>\u201cpara subtra\u00ed-los \u00e0 fome e ajudar os pais na sua luta\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo repetiu-se em Lisboa e no Porto para apoiar trabalhadores em greve na Covilh\u00e3 e S. Pedro da Cova. Acolhendo no total algumas centenas de crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Como sublinharia Em\u00eddio Santana, estes <em>\u201cforam actos de solidariedade de um grande significado e demonstrativos das energias morais do movimento\u201d <\/em>[Santana (1987), <em>Mem\u00f3rias de um militante anarco-sindicalista<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>Em Outubro de 1923, Santos Arranha demitiu-se da lideran\u00e7a da CGT, no quadro das disc\u00f3rdias que \u00e0 \u00e9poca dividiram o movimento sindical portugu\u00eas. Disc\u00f3rdias sobretudo entre a corrente anarquista e a corrente comunista, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel interno da corrente anarquista.<\/p>\n\n\n\n<p>No ver\u00e3o de 1925, Santos Arranha voltou \u00e0 linha da frente como director do \u2018\u00f3rg\u00e3o central\u2019 da CGT, o jornal <em>A Batalha<\/em>. Cargo do qual de novo acabou por se demitir ao fim de um ano e pelas mesmas raz\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fascismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Na fase que Santos Arranha dirigiu <em>A Batalha<\/em>, esse jornal marcou posi\u00e7\u00e3o na den\u00fancia e no apelo \u00e0 luta contra a amea\u00e7a de uma ditadura militar e do fascismo. Uma amea\u00e7a bem real, que se concretizou com o golpe militar de 28 de Maio de 1926.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1927, <em>A Batalha<\/em> foi encerrada, a CGT foi for\u00e7ada \u00e0 clandestinidade e Santos Arranha foi mais uma vez preso pol\u00edtico. Viu-se depois constrangido a sair do pa\u00eds. Na d\u00e9cada de 1930 viveu na B\u00e9lgica, onde integrou um sindicato de oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter\u00e1 regressado a Portugal em 1939, para escapar \u00e0 invas\u00e3o nazi [segundo Jo\u00e3o Freire\/Maria Alexandre Lousada (2013), <em>Roteiros da mem\u00f3ria urbana \u2013 Lisboa: marcas deixadas por libert\u00e1rios e afins ao longo do s\u00e9culo XX<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 40, Santos Arranha foi militante de um grupo anarco-sindicalista clandestino: o grupo \u00abEsperan\u00e7a\u00bb. E quando faleceu ainda participava numa \u201ctert\u00falia\u201d que reunia velhos sindicalistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 24 de Fevereiro de 1962, falecia em Lisboa uma figura cimeira do sindicalismo portugu\u00eas. Sob o peso da censura de uma ditadura de tipo fascista, os jornais do dia seguinte n\u00e3o disseram nada. 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