{"id":5495,"date":"2018-10-01T21:04:00","date_gmt":"2018-10-01T21:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5495"},"modified":"2022-01-10T14:22:21","modified_gmt":"2022-01-10T14:22:21","slug":"a-cova-da-moura-e-uma-prisao-de-grades-invisiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2018\/10\/01\/a-cova-da-moura-e-uma-prisao-de-grades-invisiveis\/","title":{"rendered":"\u00abA Cova da Moura \u00e9 uma pris\u00e3o de grades invis\u00edveis\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>No dia 5 de fevereiro de 2015, v\u00e1rios jovens, reconhecidos mediadores deste bairro da Amadora, membros da associa\u00e7\u00e3o Moinho da Juventude, dirigiram-se \u00e0 esquadra da PSP para saber da situa\u00e7\u00e3o de Bruno Lopes, detido nessa tarde. Entre eles estavam Fl\u00e1vio Almada e Miguel Reis. Foram algemados, espancados e detidos. \u201cN\u00e3o sabem como odeio a vossa ra\u00e7a. Quero exterminar-vos a todos desta terra\u201d, disse-lhes um dos agentes. \u00c9 o que consta da acusa\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico contra 18 pol\u00edcias que j\u00e1 foram afastados daquela divis\u00e3o e que est\u00e3o no banco dos r\u00e9us acusados dos crimes de tortura, sequestro, inj\u00faria e ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica qualificada, agravados pelo \u00f3dio e discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Qual \u00e9 o teu trabalho no bairro?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu trabalho com jovens, dou apoio escolar e tenho algumas responsabilidade em diferentes frentes a n\u00edvel institucional no Moinho da Juventude de cuja dire\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m fa\u00e7o parte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Nasceste e cresceste em Cabo Verde. Em que medida \u00e9 que isso influenciou o teu compromisso social e pol\u00edtico?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu cresci na periferia da Cidade da Praia. Vivi em v\u00e1rios bairros: Eug\u00e9nio Lima, Calabaceira e Safende. Era muito parecido com a Cova da Moura e at\u00e9 ganhou a alcunha de Chechenia. Havia gente tamb\u00e9m da Nig\u00e9ria, do Gana e do Senegal. Bebi todas essas influ\u00eancias. E havia o marido da minha tia que me dava livros sobre o capitalismo. Na escola, \u00e9ramos muito contestat\u00e1rios.&nbsp; Fiquei l\u00e1 at\u00e9 aos 18 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como foi chegar a Portugal?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vim para estudar sociologia na Universidade da Beira Interior mas n\u00e3o fiquei muito tempo por v\u00e1rias raz\u00f5es de ordem material. Ent\u00e3o, vim para a Cova da Moura onde estava a minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 a partir da\u00ed que come\u00e7as a inserir-te no movimento social do bairro e a ganhar mais consci\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando comecei a trabalhar na constru\u00e7\u00e3o civil, aprendi bastante porque estava sempre a ouvir hist\u00f3rias. Foi um choque ver como a explora\u00e7\u00e3o era t\u00e3o profunda. A emigra\u00e7\u00e3o cabo-verdiana pintava a coisa de forma diferente. Eu trabalhava ali com pessoal mais velho que tinha trabalhado na J. Pimenta. e contavam-me hist\u00f3rias de luta. Era gente sem contrato. Falavam-me de v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es. Sobre como os patr\u00f5es fugiam no final do m\u00eas e ningu\u00e9m recebia. Falavam-me de como tentavam fazer alguma coisa para melhorar a sua situa\u00e7\u00e3o e a dos bairros. Isso para mim foi muito importante e acabou por me influenciar. H\u00e1 edif\u00edcios que n\u00f3s constru\u00edmos, por exemplo, alguns hospitais, que eram privados, e quando ficamos doentes n\u00e3o podemos ir l\u00e1 porque n\u00e3o temos dinheiro. \u00c9 um paradoxo. As pessoas que constru\u00edram aquilo n\u00e3o podem l\u00e1 entrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Isso acontece tamb\u00e9m com quem limpa escrit\u00f3rios e com quem cozinha em restaurantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, lembro-me de uma senhora que limpava numa universidade. Ela limpava gabinetes e dizia que quando as pessoas entravam n\u00e3o a reconheciam. Era como se ela n\u00e3o existisse. O africano foi transformado num corpo que deve ser explorado atrav\u00e9s de um processo muito violento. O corpo negro e o escravo s\u00e3o a mesma coisa. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na sociedade portuguesa mas tamb\u00e9m a n\u00edvel mundial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Isso explica a forma como a pol\u00edcia se comporta convosco na Cova da Moura?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que faz parte de uma l\u00f3gica que \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 forma como a sociedade est\u00e1 organizada. H\u00e1 uma excecionalidade. A forma como a pol\u00edcia atua sobre pessoas que t\u00eam determinado corpo, isso faz parte de uma l\u00f3gica. Por exemplo, a Cova, e os bairros em geral, s\u00e3o zonas de exce\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia \u00e9 s\u00f3 a face vis\u00edvel. Mas depois somos tamb\u00e9m os \u00faltimos a conseguir emprego e os piores empregos. E os primeiros a ser despedidos, claro. Depois h\u00e1 a forma como se ensina. Os materiais escolares refletem o ensino, o projeto pol\u00edtico que se quer para a sociedade que n\u00e3o nos beneficia como n\u00e3o beneficia todos os outros que s\u00e3o explorados. O Estado n\u00e3o \u00e9 neutro. Responde aos interesses de uma elite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E a pol\u00edcia responde a essa elite?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, quem \u00e9 que a pol\u00edcia defende? No caso dos Estados Unidos ou do Brasil, a pol\u00edcia nasceu para capturar escravos. Ou est\u00e1s no gueto ou est\u00e1s na pris\u00e3o. E o gueto \u00e9 uma pris\u00e3o de grades invis\u00edveis, com <em>checkpoints<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Voc\u00eas t\u00eam regularmente cercos policiais?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mas agora diminuiu um pouco com o nosso caso mas lembro-me de um epis\u00f3dio para ver como as coisas est\u00e3o relacionadas com o que se passa no resto do mundo e que demonstra tamb\u00e9m por que devemos estar solid\u00e1rios com todos os que resistem \u00e0 opress\u00e3o. Aquele mi\u00fado que morreu h\u00e1 pouco tempo, que era rapper, o Puto G [faleceu afogado em junho no Luxemburgo], foi \u00e0 Palestina e passou por um <em>checkpoint. <\/em>Quando algu\u00e9m que ia com ele lhe perguntou a sensa\u00e7\u00e3o, respondeu-lhe que era familiar. \u201c\u00c9 como no bairro\u201d. S\u00e3o realidades extremamente diferentes mas ele ganhou mais consci\u00eancia sobre a opress\u00e3o que vivia na Cova da Moura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que significa viver num territ\u00f3rio de exce\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 que convencer a sociedade portuguesa de que h\u00e1 uma amea\u00e7a e quando se faz essa constru\u00e7\u00e3o da narrativa para convencer a restante parte da sociedade portuguesa &#8211; porque n\u00f3s tamb\u00e9m fazemos parte dessa sociedade &#8211; automaticamente \u00e9 um apelo de que este s\u00edtio deve ser pacificado, que este s\u00edtio deve ser acantonado, que este s\u00edtio deve ser escrutinado, que n\u00f3s representamos o elemento corrosivo da sociedade. E a sociedade reage e diz que n\u00f3s devemos ser punidos. Devemos ser cercados. O medo que nos \u00e9 lan\u00e7ado \u00e9 tamb\u00e9m o medo que permite a elite estar no poder atrav\u00e9s da forma como as pessoas est\u00e3o assustadas. Vivendo no bairro, naquilo a que se chama gueto, consegues ver o paralelismo com o que os imperialistas fazem porque ao assassinar a imagem de determinado espa\u00e7o, cria-se a necessidade de que esse espa\u00e7o seja invadido como o que aconteceu na L\u00edbia ou na S\u00edria. Isto numa l\u00f3gica de pacifica\u00e7\u00e3o e de civiliza\u00e7\u00e3o sobre algu\u00e9m que eles disseram que \u00e9 o outro, mas que at\u00e9 faz parte deles, criando uma fronteira artificial entre as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Viver na cova da moura \u00e9 como viver num <em>apartheid<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. Quando a pol\u00edcia cerca o bairro, que \u00e9 a face mais vis\u00edvel desse <em>apartheid<\/em>, cria-se a sensa\u00e7\u00e3o de que tu n\u00e3o pertences \u00e0 restante sociedade. Cria-se uma fronteira vis\u00edvel. Est\u00e1s na esta\u00e7\u00e3o da Damaia e consegues ver que n\u00e3o consegues entrar no bairro. Se um branco tentar penetrar neste espa\u00e7o v\u00e3o dizer que vem para comprar droga. Isso criou um problema porque essa esp\u00e9cie de <em>apartheid<\/em> se manifesta de v\u00e1rias formas. Se uma pessoa vai \u00e0 procura de emprego tem receio de p\u00f4r o endere\u00e7o no <em>curriculum<\/em>. Os taxistas recusam-se a transportar gente para c\u00e1. Se um jovem for abordado em Lisboa e lhe perguntarem a morada vai dizer que mora na Buraca e eu percebo porqu\u00ea. Porque quando aparece o nome da Cova da Moura s\u00e3o automaticamente mobilizados uma s\u00e9rie de refer\u00eancias e estere\u00f3tipos que fazem dessa pessoa uma criminosa. A criminaliza\u00e7\u00e3o do bairro tem tamb\u00e9m um prop\u00f3sito imobili\u00e1rio e um prop\u00f3sito pol\u00edtico para criar clivagens sociais e abrir caminho a pol\u00edticas securit\u00e1rias, xen\u00f3fobas, anti-imigra\u00e7\u00e3o, restri\u00e7\u00e3o de direitos. At\u00e9 para alimentar uma ind\u00fastria de vigil\u00e2ncia. Nada disto \u00e9 acidental. Faz parte de uma l\u00f3gica estrutural que teve como consequ\u00eancia a morte de v\u00e1rios jovens nos bairros da Amadora. O Teti foi levado para dentro da esquadra, foi torturado e morreu no hospital [em 2004]. A pol\u00edcia foi absolvida e isso significa que os tribunais validaram a morte dele. Como se n\u00e3o fosse uma perda, como se n\u00e3o significasse nada. H\u00e1 uma cultura de impunidade. Ao Kuku deram-lhe um tiro na cabe\u00e7a a uma dist\u00e2ncia de 20 cm quando tinha 14 anos [em 2009].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 poss\u00edvel haver uma mudan\u00e7a com a mediatiza\u00e7\u00e3o do vosso caso?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho a obriga\u00e7\u00e3o de tentar ser racional. A partir dos elementos que tenho, partindo da nossa hist\u00f3ria, n\u00e3o tenho grandes expetativas. Eu vou como [Am\u00edlcar] Cabral. Espero o melhor mas vou preparado para o pior. N\u00f3s n\u00e3o estamos s\u00f3 a lutar contra esses 18 agentes que est\u00e3o no banco dos r\u00e9us. Eles fazem parte do Estado que \u00e9 uma estrutura que durante muito tempo legitimou essa pr\u00e1tica de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 uma luta contra a hist\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim e eu n\u00e3o sei se vai haver uma viragem. Claro que o pessoal tem esperan\u00e7a que se fa\u00e7a justi\u00e7a, que o terrorismo dos fardados acabe e possa ser a primeira vez que vejam algo que devolva \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a cren\u00e7a nesta justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Neste julgamento estiveste cara a cara com os agentes?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o estive, mas mesmo que estivessem l\u00e1 eu ia ser honesto da mesma forma. No julgamento, chegou uma fase em que eu comecei a chorar e n\u00e3o tenho vergonha disso porque somos educados para reprimir aquilo que sentimos e n\u00e3o foi um sinal de fraqueza. Foi basicamente naturalizar a minha humanidade. Eu n\u00e3o sou obrigado a reprimir quando estou a sentir dor s\u00f3 para dizer que eu n\u00e3o sinto dor. E n\u00e3o foi porque me torturaram. Foram l\u00e1grimas de indigna\u00e7\u00e3o pelo que fizeram a uma pessoa com mobilidade reduzida [Rui Moniz, um dos agredidos, que teve um AVC aos nove anos e tem o bra\u00e7o paralisado]. Isso \u00e9 crueldade e ainda por cima eles tiveram prazer em faz\u00ea-lo. \u00c9 cobardia. Foi isso que me indignou. N\u00e3o \u00e9 que tivesse pensado em desistir. Na minha cabe\u00e7a, desistir n\u00e3o faz parte do meu vocabul\u00e1rio. Eu estou todos os dias aqui no Moinho da Juventude a fazer o meu trabalho com a comunidade. Decidi n\u00e3o aceitar validar o sistema que nos oprime. Eles escolheram torturar-nos e n\u00f3s escolhemos resistir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 5 de fevereiro de 2015, v\u00e1rios jovens, reconhecidos mediadores deste bairro da Amadora, membros da associa\u00e7\u00e3o Moinho da Juventude, dirigiram-se \u00e0 esquadra da PSP para saber da situa\u00e7\u00e3o de Bruno Lopes, detido nessa tarde. Entre eles estavam Fl\u00e1vio Almada e Miguel Reis. 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