{"id":5474,"date":"2022-01-09T20:46:05","date_gmt":"2022-01-09T20:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5474"},"modified":"2022-02-07T17:16:42","modified_gmt":"2022-02-07T17:16:42","slug":"bloody-sunday-foi-ha-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/bloody-sunday-foi-ha-50-anos\/","title":{"rendered":"Bloody Sunday foi h\u00e1 50 anos"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cFoi com a f\u00faria nos calcanhares<\/p>\n\n\n\n<p>Cruzei Bogside de amargo afecto&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Crist\u00e3 piedade! \u2013 Foi num dia<\/p>\n\n\n\n<p>De gelo e n\u00e9voa, arruinado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Butcher\u2019s Dozen,<\/em>&nbsp;Thomas Kinsella (1928-2021)<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde de domingo, 30 de janeiro de 1972, em Derry, na Irlanda, tr\u00eas mulheres perderam os seus maridos, 19 crian\u00e7as ficaram sem pai, 20 pais perderam um filho e 99 outras perderam um irm\u00e3o. As circunst\u00e2ncias que levaram a este desfecho, agora cravado na nossa mem\u00f3ria coletiva como \u201cDomingo Sangrento\u201d (<em>Bloody Sunday<\/em>), s\u00e3o essenciais para a compreens\u00e3o deste per\u00edodo traum\u00e1tico na hist\u00f3ria da Irlanda.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 [do s\u00e9culo XX], republicanos e nacionalistas irlandeses iniciaram um debate em torno da natureza do Estado da \u201cIrlanda do Norte\u201d e da discrimina\u00e7\u00e3o em torno de direitos fundamentais contra uma parte da sociedade. Isto levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da \u201cNorthern Ireland Civil Rights Association\u201d (NICRA), [Associa\u00e7\u00e3o dos Direitos Civis da Irlanda do Norte], em janeiro de 1967. Nesta associa\u00e7\u00e3o estavam sindicalistas, comunistas, republicanos e nacionalistas. As suas seis exig\u00eancias eram: \u201cUma pessoa, um voto\u201d, para permitir o voto de maiores de 18 anos e acabar com os votos de empres\u00e1rios, que valiam mais; acabar com o constante redesenhar de c\u00edrculos eleitorais para garantir majorias unionistas; o fim da discrimina\u00e7\u00e3o em empregos do Estado; o fim da discrimina\u00e7\u00e3o no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica; o fim do \u201cSpecial Powers Act\u201d [Decreto de Poderes Especiais], que permitia a deten\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o sem julgamento; e o desmembramento da \u201cB-Specials\u201d, uma for\u00e7a policial sect\u00e1ria lealista.<\/p>\n\n\n\n<p>A campanha pelos direitos civis gerou uma confian\u00e7a renovada e esp\u00edrito de supera\u00e7\u00e3o na comunidade nacionalista\/republicana, o que gerou respostas ainda mais beligerantes por parte do Estado brit\u00e2nico \u00e0s exig\u00eancias de igualdade. Em julho de 1969, um idoso cat\u00f3lico de nome Francis McCloskey, que havia ido \u00e0 cidade de Dungiven, no condado de Derry, para fazer compras, foi espancado at\u00e9 \u00e0 morte por membros da RUC (Royal Ulster Constabulary], uma for\u00e7a policial. Nunca ningu\u00e9m foi interrogado ou acusado. Este tipo de ocorr\u00eancias repetiu-se v\u00e1rias vezes em muita cidades e vilas do norte da Irlanda. Fam\u00edlias cat\u00f3licas eram foram intimidadas por gangues de lealistas at\u00e9 abandonarem as suas casas, em zonas onde foi levada a cabo uma limpeza \u00e9tnica, o g\u00e1s-pimenta era utilizado em habitantes da zona de \u201cBogside\u201d, em Derry, e aumentou ainda mais a viol\u00eancia policial. A bandeira tricolor irlandesa foi proibida, bem como os \u201churls\u201d \u2013 stiques utilizados no \u201churling\u201d, um desporto irland\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1971, o ex\u00e9rcito brit\u00e2nico lan\u00e7ou a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Demetrius\u201d, detendo e prendendo um grande n\u00famero de pessoas por todo o norte da Irlanda, \u201csuspeitos\u201d de serem republicanos, sem qualquer acesso a julgamento. Esta medida severa e draconiana adotada pelos brit\u00e2nicos foi a mais violadora dos direitos humanos e fez mais pela escalada do conflito do que quaisquer eventos anteriores. Numa primeira fase, soldados brit\u00e2nicos armados lan\u00e7aram buscas, a meio da noite, que resultaram na deten\u00e7\u00e3o de 342 homens, todos oriundos de comunidades nacionalistas e republicanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A 9 de Agosto, na zona republicana de of Ballymurphy, a oeste de Belfast, 10 foram assassinados a tiro pelo Regimento de Paraquedistas, (Paras) do Ex\u00e9rcito brit\u00e2nico. Outro homem morreu de ataque card\u00edaco, ap\u00f3s o mesmo corpo militar simular a sua execu\u00e7\u00e3o. O argumento dos \u201cParas\u201d, de que estavam apenas a responder aos disparos de republicanos que os atacavam, caiu por terra ao ficar provado, em maio de 2021, que era falso, 50 anos depois dos assassinatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 de 30 de Janeiro de 1972, cerca de 15.000 pessoas juntaram-se em Derry para se manifestarem contra a \u201cpris\u00e3o sem julgamento\u201d. Os soldados terroristas do Regimento de Paraquedistas foram mais uma vez acionados. O IRA tinha acordado manter-se afastado da zonas em caso de haver provoca\u00e7\u00f5es das autoridades, uma vez que os organizadores pretendiam uma marcha pac\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a manifesta\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava pelo itiner\u00e1rio acordado, surgiu uma barricada colocada pelo ex\u00e9rcito brit\u00e2nico, que impedia o acesso ao centro da cidade. Come\u00e7aram ent\u00e3o os confrontos entre os manifestantes e os brit\u00e2nicos, o que n\u00e3o era raro. Os manifestantes atiravam garrafas e pedras, os brit\u00e2nicos respondiam com g\u00e1s-pimenta e balas de borracha. Por\u00e9m, quando os oradores se encontravam prontos para falar aos manifestantes, o Regimento de Paraquedistas abriu fogo com muni\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha acabou cercada numa \u00e1rea semelhante a um campo de futebol quando os \u201cParas\u201d abriram fogo. Seguiu-se o caos, com pessoas a tentarem escapar. Em menos de 30 minutos, 13 homens desarmados foram mortos, para al\u00e9m de duas mulheres e 16 homens feridos, um dos quais viria a falecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Prontamente, o ex\u00e9rcito inventou uma hist\u00f3ria para encobrir o sucedido. O comandante militar do norte surgiu na televis\u00e3o a dizer que os soldados apenas tinham disparado quatro tiros. O General Michael Jackson, membro do regimento de paraquedistas, alegou que todos os tiros foram disparados na dire\u00e7\u00e3o de um membro do IRA que havia sido identificado, para al\u00e9m de que quatro dos mortos estavam na lista de mais procurados pelo ex\u00e9rcito brit\u00e2nico. Esta vers\u00e3o foi largamente aceite como verdadeira e encontrou eco nos media convencionais irlandeses e brit\u00e2nicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cWidgery Tribunal\u201d, criado pelo Primeiro-Ministro brit\u00e2nico Edward Heath, ilibou todos os soldados de qualquer comportamento conden\u00e1vel ao aceitar todos os testemunhos do regimento de paraquedistas. A conclus\u00e3o: \u201cn\u00e3o teria havido mortes em Londonderry a 30 de Janeiro se aqueles que organizaram a marcha n\u00e3o tivessem criando uma situa\u00e7\u00e3o altamente perigosa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado da violenta repress\u00e3o como resposta \u00e0s exig\u00eancias de direitos civis e fim da discrimina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, foi um enorme aumento da resist\u00eancia irlandesa ao dom\u00ednio brit\u00e2nico na Irlanda. O \u201cIrish Republican Army (IRA)\u201d [Ex\u00e9rcito Republicano Irland\u00eas] cresceu significativamente no per\u00edodo entre 1969 e 1973, e em meados da d\u00e9cada de 70, estava em posi\u00e7\u00e3o de poder realmente fazer frente, militarmente, ao poderio do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico. Num documento interno revelado em 2006, altas figuras do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico descreveram o IRA como sendo \u201cprofissional, dedicado, altamente preparado e motivado\u201d, admitindo que se tinha tornado numa das organiza\u00e7\u00f5es \u201cterroristas\u201d mais eficientes da Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante mais de 40 anos, familiares dos 15 civis desarmados brutalmente assassinados no Domingo Sangrento lutaram pela verdade e pela justi\u00e7a. Em 1998, decorriam conversa\u00e7\u00f5es para o que viria a ser conhecido como Acordo de Belfast, que colocava um ponto final no conflito armado na Irlanda. Durante as negocia\u00e7\u00f5es, o Primeiro-Ministro Tony Blair anunciou um novo inqu\u00e9rito aos acontecimentos do Domingo Sangrento. A exist\u00eancia de um segundo inqu\u00e9rito foi algo sem precedentes na hist\u00f3ria legal brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio final foi revelado em junho de 2010, e milhares de pessoas juntaram-se em Derry para ouvir que todas as v\u00edtimas foram declaradas inocentes. Os acontecimentos daquele dia foram descritos como \u201cinjustificados e injustific\u00e1veis\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFoi com a f\u00faria nos calcanhares Cruzei Bogside de amargo afecto&nbsp; Crist\u00e3 piedade! \u2013 Foi num dia De gelo e n\u00e9voa, arruinado.\u201d Butcher\u2019s Dozen,&nbsp;Thomas Kinsella (1928-2021) Na tarde de domingo, 30 de janeiro de 1972, em Derry, na Irlanda, tr\u00eas mulheres perderam os seus maridos, 19 crian\u00e7as ficaram sem pai, 20 pais perderam um filho &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/bloody-sunday-foi-ha-50-anos\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Bloody Sunday foi h\u00e1 50 anos<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":79,"featured_media":5476,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[175],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5474"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5474"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5625,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5474\/revisions\/5625"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5474"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}