{"id":5470,"date":"2022-01-09T20:42:19","date_gmt":"2022-01-09T20:42:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5470"},"modified":"2022-02-04T00:12:06","modified_gmt":"2022-02-04T00:12:06","slug":"o-mundo-a-transformar-mote-ou-resposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/o-mundo-a-transformar-mote-ou-resposta\/","title":{"rendered":"O mundo a transformar: mote ou resposta"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 19 de Dezembro de 2021 cumpriram-se 60 anos do assassinato de Jos\u00e9 Dias Coelho. De tantas mortes levadas a cabo pelo fascismo durante os seus longos e sombrios 48 anos, esta foi particularmente revoltante. O crime consternou todos os que dele souberam, pela viol\u00eancia do ato e frieza dos assassinos, sendo um dos pontos mais baixos da hist\u00f3ria da ditadura. Passou quase impune, mas chocou e comoveu muitos, tamb\u00e9m porque Jos\u00e9 Dias Coelho era conhecido quer na sua qualidade de funcion\u00e1rio do Partido Comunista, quer enquanto artista pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pessoa de Jos\u00e9 Dias Coelho, as dimens\u00f5es de artista e de militante coexistiram desde cedo na sua vida. Contudo, houve um dia em que o artista que lutava contra o fascismo abandonou a perspetiva de desenvolver &#8211; em jeito de trabalho &#8211; a sua arte e mergulhou na clandestinidade, abra\u00e7ando tarefas de grande responsabilidade, determinantes para a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. O artista n\u00e3o desapareceu nesse dia, mas foi severamente penalizado em prol de um combate que permitiria dar o passo maior para a liberta\u00e7\u00e3o de um povo de trabalhadores, dentre os quais, artistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem faz arte e molda a m\u00fasica, as palavras ou o barro, interromper a cria\u00e7\u00e3o pode ser violento. \u00c0s ideias n\u00e3o lhes \u00e9 permitido seguir o seu curso natural e culminar em obra. A carreira art\u00edstica de Dias Coelho, que j\u00e1 vinha sendo intermitente, foi efetivamente sacrificada com a sua passagem \u00e0 clandestinidade. Ainda assim, reconhecemos-lhe gravuras e outros desenhos que foi fazendo para a imprensa clandestina e que em muito elevaram a qualidade destas publica\u00e7\u00f5es. O seu talento &#8211; termo que aqui usamos para definir sensibilidade e inclina\u00e7\u00e3o aliadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao trabalho &#8211; teve corpo e express\u00e3o dentro dos limites da sua vida dedicada \u00e0 luta contra o fascismo. O artista teve um percurso, diferente talvez do da maioria dos seus contempor\u00e2neos, e que foi definitivamente terminado com a sua morte precoce. Mas a arte de Jos\u00e9 Dias Coelho n\u00e3o deixou a desejar e n\u00e3o poderia ter sido de outra forma, porque a sua vida tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que um artista n\u00e3o pode deixar de o ser sendo privado das suas ferramentas de trabalho, tamb\u00e9m um revolucion\u00e1rio n\u00e3o deixar\u00e1 de o ser se se dedicar \u00e0 sua atividade art\u00edstica. Num Portugal libertado do fascismo, a arte de Dias Coelho seria sempre sobre os sujeitos que lhe eram caros, o mundo que o rodeava e as pessoas que o habitam. Portugal, por\u00e9m, n\u00e3o era livre durante a sua vida. Jos\u00e9 Dias Coelho escolheu dedicar-se \u00e0 luta antifascista de forma inteira, porque ainda que isso implicasse silenciar o artista em si, permitiria que tantos outros se emancipassem.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta para a qual Dias Coelho deu a vida levou a que fosse dado um passo determinante na democratiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o culturais. Essa luta n\u00e3o est\u00e1 terminada. O of\u00edcio de artista, nos nossos dias, continua sujeito a regras de mercado e de est\u00e9tica que passam ao lado da esmagadora maioria do povo, e est\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 reservado a uma elite como n\u00e3o habita sequer o sonho da maioria dos que, ainda assim, v\u00e3o criando e produzindo arte. T\u00edmida e desgarradamente, porque h\u00e1 contas para pagar, comida para p\u00f4r na mesa e um sem n\u00famero de constrangimentos que, numa sociedade realmente livre, n\u00e3o se colocariam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com esse mundo livre, por\u00e9m, que a arte nos permite sonhar e Jos\u00e9 Dias Coelho, artista de olhar \u00e1vido, curioso, quase pueril e sempre deslumbrado, com o seu exemplo humano, comprova que o sonho, a luta e a vida s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Que a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o est\u00e1 desligada do contexto que habita, mas que tamb\u00e9m ela tem o poder de mover montanhas. Jos\u00e9 Dias Coelho escreveu \u201cEm toda a parte h\u00e1 \/ um peda\u00e7o de mim \/ que se quer dar\u201d. Mote ou resposta, a verdade \u00e9 que em toda a parte h\u00e1 um peda\u00e7o de mundo a transformar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 19 de Dezembro de 2021 cumpriram-se 60 anos do assassinato de Jos\u00e9 Dias Coelho. 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