{"id":5466,"date":"2022-01-09T20:40:32","date_gmt":"2022-01-09T20:40:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5466"},"modified":"2022-02-07T17:18:03","modified_gmt":"2022-02-07T17:18:03","slug":"do-chile-para-a-america-latina-entre-optimismo-e-a-cautela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/do-chile-para-a-america-latina-entre-optimismo-e-a-cautela\/","title":{"rendered":"Do Chile para a Am\u00e9rica Latina entre optimismo e a cautela"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A vit\u00f3ria de Gabriel Boric nas presidenciais do Chile est\u00e1 carregada de euforia \u00e0 esquerda e de simbolismo pela derrota do legado de Pinochet. Mas tamb\u00e9m de avisos \u00e0s dificuldades de governa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe o Chile foi o ber\u00e7o do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m h\u00e1-de ser o seu t\u00famulo\u201d, afirmou, no discurso de vit\u00f3ria, Gabriel Boric, eleito contra o candidato pinochetista de extrema-direita Jos\u00e9 Antonio Kast.<\/p>\n\n\n\n<p>Boric, 35 anos, \u00e9 um ex-l\u00edder e activista estudantil, entretanto eleito deputado ao Parlamento com a Apruebo Dignidad (AD), frente de coliga\u00e7\u00f5es de esquerda, de que fazem parte, entre outros, o Partido Comunista do Chile, partidos regionalistas, e a esquerda crist\u00e3. \u00c9 o mais jovem presidente da Am\u00e9rica Latina e o mais votado de sempre em elei\u00e7\u00f5es no Chile.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00c0 esquerda, euforia<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta elei\u00e7\u00e3o coroa 2021 como um ano de transi\u00e7\u00e3o no Chile. As revoltas sociais e econ\u00f3micas de 2019 que levaram \u00e0 rua milh\u00f5es de chilenos em protesto, resultaram nas ced\u00eancias do presidente Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era para a elei\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte, com o intuito de redigir uma nova Constitui\u00e7\u00e3o que enterrasse a herdeira da ditadura de Pinochet, ainda vigente. \u00c9 esta Constitui\u00e7\u00e3o que Boric ter\u00e1 de negociar para um plebiscito no Outono de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, o Chile elegeu uma Assembleia Constituinte (pela primeira vez com total paridade de g\u00e9nero e eleitos representantes dos povos ind\u00edgenas), assistiu a profundas mudan\u00e7as nas elei\u00e7\u00f5es regionais (Irac\u00ed Hassler do Partido Comunista chileno tornou-se presidente da C\u00e2mara de Santiago), e duas c\u00e2maras do Parlamento (onde a direita obteve a maioria).<\/p>\n\n\n\n<p>2021 foi tamb\u00e9m um ano de grandes transi\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda na Am\u00e9rica Latina: o sindicalista Pedro Castillo venceu a presid\u00eancia do Peru (n\u00e3o sem enorme press\u00e3o da herdeira de Fujimori para impugnar o resultado; e aos quatro meses de mandato, enfrenta j\u00e1 um processo de destitui\u00e7\u00e3o por alegada \u201cincapacidade moral\u201d); Xiomara Castro foi eleita nas Honduras pela coliga\u00e7\u00e3o de esquerdas oposta ao golpe de 2009; o sandinista Daniel Ortega voltou a vencer na Nicar\u00e1gua; e nas regionais venezuelanas, o PSUV confirmou a popularidade em 45% dos munic\u00edpios. Com o regresso do MAS ao poder na Bol\u00edvia no final de 2020 (ap\u00f3s o golpe de Estado contra Evo Morales em 2019) a Am\u00e9rica Latina est\u00e1 claramente a virar \u00e0 esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>E em 2022, h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es no Brasil e na Col\u00f4mbia, onde tanto Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) como Gustavo Petro (coliga\u00e7\u00e3o progressista de esquerda, Col\u00f4mbia Humana) est\u00e3o destacados para vencer, e transformar o legado catastr\u00f3fico, econ\u00f3mico, social e pand\u00e9mico, dos ultra-liberais Jair Bolsonaro e Iv\u00e1n Duque.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ced\u00eancias e cautelas<\/h2>\n\n\n\n<p>As reac\u00e7\u00f5es \u00e0 vit\u00f3ria de Boric n\u00e3o se fizeram esperar. A&nbsp;<em>BBC<\/em>&nbsp;<em>Mundo&nbsp;<\/em>perguntou de imediato que papel teriam os comunistas no futuro governo, jogando abertamente com o fantasma do golpe de 1973 e sugerindo que o Chile se tornar\u00e1 na \u201cpr\u00f3xima Venezuela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias antes, o site financeiro&nbsp;<em>Bloomberg<\/em>&nbsp;noticiava uma fuga de capitais do pa\u00eds andino: 8.8 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares no primeiro semestre de 2021, mais de 24.3 mil milh\u00f5es desde 2019, valores equivalentes a 9% do PIB\/ano. O&nbsp;<em>Financial Times<\/em>&nbsp;deu conta da queda hist\u00f3rica do peso chileno e da bolsa de Santiago (sobretudo nas empresas de l\u00edtio e \u00e1gua, ambas privadas).<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u201cmercados\u201d parecem n\u00e3o simpatizar com Boric e com o seu discurso sobre sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e habita\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, nacionaliza\u00e7\u00e3o das pens\u00f5es e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, mas para aprovar a nova Constitui\u00e7\u00e3o, e para conseguir governar, o futuro presidente vai ter de fazer concess\u00f5es aos conservadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na&nbsp;<em>New Left Review<\/em>, a cientista pol\u00edtica Camila Vergara, lembrava que Boric tem sido tanto elogiado como criticado pela \u201catitude conciliat\u00f3ria face \u00e0 direita\u201d. Enquanto deputado, aprovou a lei \u201canti-barricada\u201d: \u201cCriminalizou o protesto, impondo penas de pris\u00e3o entre dois meses e cinco anos para aqueles que ocupam espa\u00e7os p\u00fablicos ou constroem barricadas. Mais tarde, desculpou-se por apoiar a reforma, admitindo que deu mais poder arbitr\u00e1rio \u00e0 pol\u00edcia e aos ju\u00edzes, mas recusa-se a apoiar o perd\u00e3o para aqueles que foram presos\u201d, escreve Vergara. A sua vit\u00f3ria, diz, \u201cmuito provavelmente ser\u00e1 uma reconfigura\u00e7\u00e3o das for\u00e7as estabelecidas, com o objetivo de implementar o que Boric chama de \u2018transforma\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel\u2019, que eclipsa as energias radicais desencadeadas em 2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No dossier de Dezembro sobre a Am\u00e9rica Latina, a revista&nbsp;<em>Tricontinental<\/em>&nbsp;lembrava que, apesar das mudan\u00e7as no continente, os mecanismos da ofensiva da extrema-direita reacion\u00e1ria, e as suas configura\u00e7\u00f5es mais ou menos neo-fascistas, n\u00e3o cessaram: aliados das bancadas conservadoras evang\u00e9licas, do discurso de \u00f3dio, do grande capital extractivista, do agro-neg\u00f3cio e do min\u00e9rio, da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d das conspira\u00e7\u00f5es alimentadas pela nova tecnologia e pelo algoritmo, esta foi uma d\u00e9cada em que \u201cWashington aumentou os seus n\u00edveis de interven\u00e7\u00e3o, sofisticou os seus m\u00e9todos e alcan\u00e7ou o seu objetivo de desestabilizar o progressivo equil\u00edbrio de poder na Am\u00e9rica Latina.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vit\u00f3ria de Gabriel Boric nas presidenciais do Chile est\u00e1 carregada de euforia \u00e0 esquerda e de simbolismo pela derrota do legado de Pinochet. Mas tamb\u00e9m de avisos \u00e0s dificuldades de governa\u00e7\u00e3o \u201cSe o Chile foi o ber\u00e7o do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m h\u00e1-de ser o seu t\u00famulo\u201d, afirmou, no discurso de vit\u00f3ria, Gabriel &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/do-chile-para-a-america-latina-entre-optimismo-e-a-cautela\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Do Chile para a Am\u00e9rica Latina entre optimismo e a cautela<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":5467,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[147],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5466"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5466"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5466\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5627,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5466\/revisions\/5627"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5466"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}