{"id":5413,"date":"2022-01-09T20:11:58","date_gmt":"2022-01-09T20:11:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5413"},"modified":"2022-02-04T00:10:42","modified_gmt":"2022-02-04T00:10:42","slug":"a-nossa-luta-e-pela-libertacao-da-comunidade-em-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/01\/09\/a-nossa-luta-e-pela-libertacao-da-comunidade-em-geral\/","title":{"rendered":"&#8220;A nossa luta \u00e9 pela liberta\u00e7\u00e3o da comunidade em geral&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Jakilson Pereira \u00e9 um dos dirigentes do Moinho da Juventude, associa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Cova da Moura que trabalha com a popula\u00e7\u00e3o. Abandonado durante anos pela autarquia e pelo Estado, este bairro&nbsp;da Amadora enfrenta a falta de investimento p\u00fablico. \u00c9 uma luta de quem aqui vive e trabalha pelo direito&nbsp;a existir para l\u00e1 do estigma alimentado pelo ass\u00e9dio medi\u00e1tico e policial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"pergunta wp-block-heading\">Em que medida \u00e9 que teres nascido em&nbsp;Cabo Verde te fez ganhar consci\u00eancia social e pol\u00edtica?<\/h2>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia pol\u00edtica ganhei-a porque sempre vivi muito a quest\u00e3o da luta de liberta\u00e7\u00e3o. Era uma coisa de que sempre se falava entre os meus familiares, at\u00e9 porque tive alguns deles envolvidos nessa luta. Tinham liga\u00e7\u00e3o ao PAIGC e traziam informa\u00e7\u00f5es do Senegal para Cabo Verde. Tive tamb\u00e9m um av\u00f4 que foi cercado pela pol\u00edcia pol\u00edtica e teve de se esconder antes de fugir do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E como \u00e9 que chegas a Portugal?<\/h2>\n\n\n\n<p>Eu vim para Portugal com os meus familiares mas n\u00e3o fiquei em Lisboa. Ainda regressei a Cabo Verde e acabei por voltar para Lisboa para ficar com o irm\u00e3o do meu pai, j\u00e1 na Cova da Moura. Entretanto, licenciei-me em Educa\u00e7\u00e3o Social porque, na altura, a minha ideia era fazer pedagogia mas depois o Eduardo aconselhou-me este curso, que tinha muita influ\u00eancia no Brasil por causa do Paulo Freire.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Falas do Eduardo Pontes, o fundador do Moinho da Juventude?<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, sim. Naquele tempo, eu ia para l\u00e1. Estava sempre com ele na biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Achas que foi uma figura importante para ti, para a tua forma\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi uma figura importante porque, mesmo sobre a hist\u00f3ria de Cabo Verde, aprendi muito com ele. Lembro-me do livro Bastidores da Luta pela Independ\u00eancia. E ele fez parte do Centro de Interven\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Am\u00edlcar Cabral e tinha muito contacto com as pessoas do movimento [de liberta\u00e7\u00e3o].&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como \u00e9 que se deu o processo de funda\u00e7\u00e3o do Moinho da Juventude?<\/h2>\n\n\n\n<p>O Moinho da Juventude foi fundado pelos moradores. H\u00e1 quem diga que foi por causa de um chafariz na parte de baixo da Cova. As pessoas juntavam-se e ali come\u00e7aram algumas discuss\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida e fizeram um abaixo-assinado para terem uma rede de esgotos. Depois disso, juntou-se o sindicato das empregadas dom\u00e9sticas, que acabou por se diluir no tempo, mas acabaram por fundar o Moinho da Juventude que funcionava primeiro no s\u00f3t\u00e3o do Eduardo, depois foram para a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores e, mais tarde, v\u00e3o para o primeiro edif\u00edcio do Moinho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5420\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-300x200.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-768x512.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-150x100.jpg 150w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-370x247.jpg 370w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DSCF5275-min-220x147.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Jakilson Pereira em frente a um dos espa\u00e7os do Moinho da Juventude.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hoje em dia, qual \u00e9 que \u00e9 o papel da associa\u00e7\u00e3o no bairro?<\/h2>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o tem um papel muito importante e est\u00e1 junto das pessoas. Muitas vezes, quando acontece qualquer coisa no bairro, as pessoas v\u00eam ter connosco e h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a. E a associa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o da comunidade, para defender os interesses da comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como \u00e9 que se explica a estigmatiza\u00e7\u00e3o que existe em rela\u00e7\u00e3o a este bairro?<\/h2>\n\n\n\n<p>Eu acho que a estigmatiza\u00e7\u00e3o tem muito a ver com uma propaganda medi\u00e1tica que tinha de ser feita para nos expropriar daqui, para aqui ser constru\u00eddo um condom\u00ednio de luxo. Isso chegou at\u00e9 a ter projeto na C\u00e2mara Municipal. Na altura, os bairros \u00e0 volta de Lisboa estavam a ser demolidos porque se criou um estigma no espa\u00e7o geogr\u00e1fico. O problema n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o, o problema que existe \u00e9 que h\u00e1 muitas pessoas a viverem em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, muitas pessoas a quem a sua for\u00e7a de trabalho n\u00e3o \u00e9 reconhecida, trabalham e continuam pobres. E h\u00e1 ainda o problema dos mais jovens, das pessoas que saem para trabalhar e que, com o dinheiro que ganhavam, n\u00e3o conseguiram colocar as crian\u00e7as na creche. O Moinho conseguiu preencher essa lacuna no bairro. Hoje, temos uma boa estrutura de ATL, de creche, que acaba por dar um bom suporte \u00e0s fam\u00edlias, sendo que os jovens est\u00e3o a ser mais acompanhados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Achas que isso ajudou a combater essa&nbsp;imagem que existe do bairro?<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 certo ponto mas n\u00e3o no geral. Muitas vezes, h\u00e1 quem tente apresentar a Cova da Moura como se n\u00e3o fizesse parte do espa\u00e7o geogr\u00e1fico portugu\u00eas. A excecionalidade \u00e9 utilizada de v\u00e1rias formas, entre elas o abuso de autoridade. V\u00e1rias vezes, por exemplo, entre os agentes policiais, h\u00e1 jovens que v\u00eam do norte, com toda aquela propaganda contra o bairro, v\u00eam aqui sem nos conhecerem, j\u00e1 mentalizados para um cen\u00e1rio de guerra. J\u00e1 conheci alguns que me falaram da ideia errada que tinham. Uma vez, est\u00e1vamos na rua e estava uma mi\u00fada que era agente rec\u00e9m-formada e estava a tremer com uma arma. \u00c9 uma coisa bastante perigosa porque, se acontece qualquer coisa, se um mi\u00fado come\u00e7ar a correr ela pode disparar. E essa estigmatiza\u00e7\u00e3o criou-se e alimentou-se durante muitos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s sabemos tamb\u00e9m que houve, claramente, nas esquadras da Amadora, a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de extrema-direita. Avis\u00e1mos durante muitos anos. T\u00ednhamos v\u00eddeos dos agentes com tatuagens de su\u00e1sticas e foi-se alertando. O pr\u00f3prio relat\u00f3rio do SIS reconhecia isso. Cheg\u00e1mos a ver aqui agentes \u00e0 noite a correr armados, a torturar pessoas, coisas horr\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ouve-se muito falar da viol\u00eancia policial mas, para al\u00e9m disso, de que forma \u00e9 que o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o se refletem nas pol\u00edticas p\u00fablicas que h\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao bairro?&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 vis\u00edvel, por exemplo, no \u00fanico edif\u00edcio p\u00fablico existente, que \u00e9 a escola. E foi constru\u00edda por volta de 1988. E depois v\u00ea-se nas ruas, v\u00ea-se na higiene urbana. Por exemplo, durante a campanha para as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, alcatroaram as ruas \u00e0 volta da Cova. O alcatr\u00e3o termina na entrada do bairro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5423\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-225x300.jpeg 225w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-510x680.jpeg 510w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09-135x180.jpeg 135w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.03.09.jpeg 1368w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Mural dedicado a Am\u00edlcar Cabral, hist\u00f3rico combatente pela liberta\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9 e Cabo Verde.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Cova da Moura n\u00e3o conta para a autarquia?<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. As nossas ruas n\u00e3o s\u00e3o alcatroadas h\u00e1 muito. N\u00f3s temos aqui, para limpeza do bairro, duas pessoas. N\u00f3s estamos a falar de um bairro que tem \u00e0 volta de 7 mil habitantes. \u00c9 desumano pedir a duas pessoas que fa\u00e7am essa limpeza urbana. O bairro tem uma dimens\u00e3o que justifica ter uma equipa de limpeza e n\u00e3o estou a pedir que as pessoas da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores deixem de fazer aquele trabalho, que \u00e9 um trabalho merit\u00f3rio e com muito esfor\u00e7o, mas dev\u00edamos ter mais por parte da higiene urbana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mas essas duas \u00fanicas pessoas s\u00e3o da&nbsp;Comiss\u00e3o de Moradores?<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, isto \u00e9, atrav\u00e9s de um protocolo que com a C\u00e2mara, em que o valor que recebem \u00e9 o sal\u00e1rio m\u00ednimo para fazer a limpeza. Ali\u00e1s, eu acho desumano pedir para eles fazerem mais, devia haver mais investimento. H\u00e1 coisas inacredit\u00e1veis. Toda a gente ouviu em Portugal, na \u00e9poca, falar da iniciativa Bairros Cr\u00edticos, destinada ao Bairro do Lagarteiro, ao Vale da Amoreira e \u00e0 Cova da Moura. Todo esse investimento de que se falou na altura, que envolveu muito dinheiro, n\u00e3o foi aplicado na Cova da Moura. Fizeram um polidesportivo, que para n\u00f3s foi um investimento completamente exagerado quando n\u00f3s t\u00ednhamos mais necessidades do que aquele equipamento. Depois, usaram o dinheiro para obras de constru\u00e7\u00e3o do Jardim dos Aromas, fora do bairro, na Buraca.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para al\u00e9m da interven\u00e7\u00e3o que fazes dentro do bairro, atrav\u00e9s do Moinho da Juventude, tamb\u00e9m fazes rap.&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, ainda fa\u00e7o rap mas estou mais enferrujado. O rap foi uma boa via de emancipa\u00e7\u00e3o, uma coisa boa que aconteceu na minha vida. No movimento, \u00e9ramos muito influenciados pelos Panteras Negras e, mais tarde, fund\u00e1mos a Plataforma Gueto porque entend\u00edamos que o rap, por si s\u00f3, n\u00e3o chegava para consciencializar e denunciar. Depois, quando houve o \u201cArrast\u00e3o\u201d, ach\u00e1mos que dev\u00edamos ter uma voz, passar informa\u00e7\u00e3o de bairro para bairro, e cri\u00e1mos um jornal, o&nbsp;<em>Gueto: olhos, ouvidos e vozes<\/em>. Foi um sucesso. N\u00f3s \u00edamos entregar o jornal e as pessoas sentiam-se orgulhosas e diziam \u201co nosso jornal, \u00e9 o nosso jornal\u201d. Mas at\u00e9 isso a pol\u00edcia perseguiu. Um dia, bloquearam a estrada e vieram ter connosco: \u201c\u00d3 chefe, olhe os gajos da viol\u00eancia policial\u201d. Vieram dizer-nos que a viol\u00eancia policial n\u00e3o existia, para n\u00e3o nos metermos nisso. Houve um que disse que t\u00ednhamos muita sorte, que ainda \u00edamos dormir a casa naquela noite.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5422\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-300x225.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-768x576.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48-220x165.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/WhatsApp-Image-2022-01-09-at-20.02.48.jpeg 1824w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o na Cova da Moura.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Portanto, houve uma rea\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia ao jornal.<\/h2>\n\n\n\n<p>Houve per\u00edodos bem complicados. Nunca nenhum cidad\u00e3o comum me levou a tribunal mas a pol\u00edcia levou-me quatro vezes com inven\u00e7\u00f5es de que os tinha agredido. Eles ficaram furiosos com o jornal. Sabiam que n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos a cometer nenhum crime e n\u00e3o tinham como nos meter dentro. Uma vez levaram-me para a esquadra, de noite, \u00e0 espera que algu\u00e9m denunciasse um roubo. Passado uma hora, apareceu uma senhora a dizer que tinha sido roubada e levaram-me para que ela me visse e disseram-lhe: \u201c\u00c9 ele, \u00e9 ele, n\u00f3s apanh\u00e1mo-lo\u201d. E a senhora disse que n\u00e3o, que n\u00e3o tinha sido eu. J\u00e1 me agrediram, j\u00e1 me partiram o nariz, houve epis\u00f3dios muito maus.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sentes que isso aconteceu porque tens sido um ativista em defesa dos direitos contra o racismo e contra a discrimina\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p>Isto na altura n\u00e3o foi s\u00f3 comigo, foi com todo aquele grupo. Lembro-me que quando decidimos fazer uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a morte do Kuku [jovem morto pela pol\u00edcia no Bairro da Quinta da Lage], escolhemos n\u00e3o dormir no bairro. Durante uma semana perseguiram-nos para nos pressionarem. Atrav\u00e9s do rap e da plataforma denunci\u00e1vamos a viol\u00eancia policial e os abusos. Todos n\u00f3s pass\u00e1mos por pris\u00e3o arbitr\u00e1ria. Depois dos sequestros e tortura em 2015 [caso que se tornou mediatico e que levou \u00e0 condena\u00e7\u00e3o de oito agentes], houve uma diminui\u00e7\u00e3o mas ainda acontecem abusos. J\u00e1 aconteceu de nos pedirem a identifica\u00e7\u00e3o e ao mostrarmos o cart\u00e3o de cidad\u00e3o partiam-no.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A pol\u00edcia?<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, diziam \u201cessa merda n\u00e3o tem valor, at\u00e9 os c\u00e3es podem ter isso\u201d. E partiam o cart\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"2 - Hezbo MC - RAP DI PROTESTO\" width=\"660\" height=\"371\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/l4_VZdX5c4Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Videoclip da can\u00e7\u00e3o Rap de Protesto, de Hezbo MC, nome art\u00edstico de Jakilson Pereira.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entretanto, foste candidato pela CDU e foste eleito para a Assembleia de Freguesia das \u00c1guas Livres. Por que aderiste ao PCP?<\/h2>\n\n\n\n<p>Tem a ver muito a ver com a forma de trabalho e tamb\u00e9m com a linha ideol\u00f3gica marxista-leninista. Dentro da Plataforma Gueto, n\u00f3s defend\u00edamos princ\u00edpios comunistas, s\u00f3 que n\u00e3o est\u00e1vamos \u2013 falo por mim \u2013 em partido nenhum. Observava a forma como os partidos trabalhavam e havia nalguns a sensa\u00e7\u00e3o de aproveitamento pol\u00edtico de determinadas tem\u00e1ticas. E isso levou-me a analisar o trabalho de base que o PCP tem naquilo em que se envolve e o compromisso com as pessoas, isso foi uma das coisas que levou a aderir. H\u00e1 um conjunto de militantes do PCP que est\u00e3o em diferentes lutas mas n\u00e3o se querem expor e n\u00e3o s\u00e3o paternalistas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mas h\u00e1 quem diga que o PCP tem posi\u00e7\u00f5es racistas.<\/h2>\n\n\n\n<p>Sobre essa quest\u00e3o, recordo que muitos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, durante a guerra, disseram ter recebido muito apoio do PCP. Muita gente para conseguir chegar \u00e0 Arg\u00e9lia ou a Conacri teve a ajuda do PCP. H\u00e1 uma grande contradi\u00e7\u00e3o hoje em dia. H\u00e1 pessoas que dizem ser ativistas mas s\u00f3 existem nas redes sociais. N\u00e3o conhecem os bairros, n\u00e3o conhecem as comunidades racializadas e intitulam-se porta-vozes. O PCP n\u00e3o instrumentaliza a luta para tirar da\u00ed proveitos. H\u00e1 um falso movimento, h\u00e1 uma elite que utiliza a luta para fazer press\u00e3o para obter benef\u00edcios pr\u00f3prios, obter cargos. \u00c9 uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o da luta para obter benef\u00edcios individuais. E depois h\u00e1 uma grande rutura naquilo que \u00e9 o pensamento da luta anti-racista. A nossa luta \u00e9 pela liberta\u00e7\u00e3o da comunidade em geral. N\u00f3s n\u00e3o vamos aos patr\u00f5es e ao governo dizer \u201cn\u00f3s somos negros formados, esta sociedade deve dar-nos condi\u00e7\u00f5es para n\u00f3s, negros formados, termos o nosso escravo negro para nos servir\u201d. Esta gente n\u00e3o quer saber das condi\u00e7\u00f5es em que a comunidade vive, em que vivem as nossas crian\u00e7as, a luta deles n\u00e3o \u00e9 essa. Eu pergunto sempre, porque \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o preocupados com a luta das trabalhadoras da limpeza, que representam uma grande parte da comunidade? Ou com os trabalhadores das obras? Os Guaid\u00f3 anti-racistas est\u00e3o na moda e afirmam-se representantes das comunidades sem as consultar, sem as conhecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jakilson Pereira \u00e9 um dos dirigentes do Moinho da Juventude, associa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Cova da Moura que trabalha com a popula\u00e7\u00e3o. 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