{"id":5353,"date":"2021-12-06T15:55:33","date_gmt":"2021-12-06T15:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5353"},"modified":"2021-12-06T15:55:34","modified_gmt":"2021-12-06T15:55:34","slug":"de-pequeno-jornalista-na-voz-para-diretor-do-noticias-da-amadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/12\/06\/de-pequeno-jornalista-na-voz-para-diretor-do-noticias-da-amadora\/","title":{"rendered":"De \u201cpequeno jornalista\u201d n\u2019A Voz para diretor do Not\u00edcias da Amadora"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi a 15 de agosto de 1921 que nasceu aquele que ficou conhecido como diretor do Not\u00edcias da Amadora, um jornal local que ganhou notoriedade nacional no combate \u00e0 ditadura fascista. Nasceu no Bairro do Rio Seco, na Ajuda, e estudou n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, onde a professora Concei\u00e7\u00e3o Ribeiro o apelidou de \u201cpequeno jornalista\u201d. Segundo o filho, Orlando C\u00e9sar, os motivos podem ter sido v\u00e1rios: o interesse pela origem da escola da institui\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou com o jornal A Voz do Oper\u00e1rio, o contacto com o di\u00e1rio O S\u00e9culo que entrava todos os dias na casa da av\u00f3 e o quarto do tio, com uma ampla oferta de revistas, jornais e livros revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Filho de um oper\u00e1rio e de uma costureira, foi muito ativo no Rio Seco Sporting Club e foi tamb\u00e9m ali que despertou a consci\u00eancia combativa de Orlando Gon\u00e7alves. Em 1948, publicou o livro Tormenta e, j\u00e1 antes, a atividade cultural e as confer\u00eancias organizadas na coletividade haviam chamado a aten\u00e7\u00e3o da PVDE. Logo a seguir o regime mandou apreender a obra, depois de ler a recens\u00e3o cr\u00edtica elogiosa da obra e do autor que se destinava ao jornal Rep\u00fablica, que foi cortada pela censura. Isso n\u00e3o impediu, contudo, a sua leitura. Na Academia de Instru\u00e7\u00e3o e Recreio Familiar Almadense, por exemplo, Tormenta foi o livro mais lido no ano de 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira pris\u00e3o de Orlando Gon\u00e7alves chegara em 1943 pela sua participa\u00e7\u00e3o no Socorro Vermelho Internacional (SVI). Na altura, o jornal Avante! noticiou a pris\u00e3o, sem identificar os nomes, a n\u00e3o ser o do delator que \u201crevelou \u00e0 pol\u00edcia aspectos da atividade do SVI e denunciou quatro camaradas\u201d. Foi nessa \u00e9poca que conheceu o pintor Cipriano Dourado, que viria a ser um dos mais importantes amigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1945, com a funda\u00e7\u00e3o do Movimento de Unidade Democr\u00e1tica, o ent\u00e3o escritor adere \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e participa na campanha da oposi\u00e7\u00e3o ao regime. Foi apoiante de Norton de Matos, Ruy Lu\u00eds Gomes e Arlindo Vicente e esteve na Comiss\u00e3o Democr\u00e1tica Eleitoral (CDE). Como intelectual, foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1956, encerrada pela PIDE em 1965.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Combate ao fascismo no Not\u00edcias da Amadora<\/h2>\n\n\n\n<p>Homenageado na Escola Secund\u00e1ria de Seomara da Costa Primo, na Amadora, numa iniciativa organizada pela Uni\u00e3o de Resistentes Antifascistas Portugueses, o filho, Orlando C\u00e9sar, e S\u00e9rgio Ribeiro, ex-deputado comunista na Assembleia da Rep\u00fablica e no Parlamento Europeu, recordaram a trajet\u00f3ria de vida de Orlando Gon\u00e7alves. J\u00e1 participara com trabalhos em diferentes publica\u00e7\u00f5es mas \u00e9 em 1963 que se junta ao Not\u00edcias da Amadora. Depois de ser despedido de uma multinacional francesa por diverg\u00eancias com a administra\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o das verbas da venda de desperd\u00edcios, que Orlando Gon\u00e7alves destinava ao financiamento de um refeit\u00f3rio para os oper\u00e1rios, passa a estar \u00e0 frente da publica\u00e7\u00e3o local que tinha sido fundada em 1958.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 \u00e0 morte do escritor e jornalista, em 1994, esteve na dire\u00e7\u00e3o do Not\u00edcias da Amadora. Quando assumiu a propriedade, edi\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o, o jornal era um peri\u00f3dico da freguesia da Amadora, ainda no concelho de Oeiras. A publica\u00e7\u00e3o cresceu primeiro para os munic\u00edpios lim\u00edtrofes e alargou os temas tratados nas p\u00e1ginas do jornal dando destaque \u00e0s artes, letras e internacional. \u00c9 a partir de 1970 que o \u00e2mbito geogr\u00e1fico se expande com distribui\u00e7\u00e3o nacional e assinantes no estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o regime nunca perdoou as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Orlando Gon\u00e7alves e recusou-lhe o reconhecimento do cargo de dire\u00e7\u00e3o do jornal. Existem 12 cartas suscitadas por iniciativa de Orlando Gon\u00e7alves, que solicitou autoriza\u00e7\u00e3o para assumir a dire\u00e7\u00e3o em 1964, 1967, 1968, 1969 e 1970. As autoridades fascistas admitiam que conduzisse o peri\u00f3dico mas sem car\u00e1ter oficial. Era um elemento de \u201ctend\u00eancias comunistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornal comete a proeza de desobedecer abertamente \u00e0 censura. Chegou a publicar edi\u00e7\u00f5es falsas para o corte do l\u00e1pis azul e edi\u00e7\u00f5es sem cortes para os leitores. Em 1973, em 35 das 52 edi\u00e7\u00f5es do ano, per\u00edodo que separa o 3\u00ba. Congresso da Oposi\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica das elei\u00e7\u00f5es legislativas, Orlando Gon\u00e7alves constou como diretor-adjunto e depois diretor em 14 edi\u00e7\u00f5es. Alvo do fascismo, que lhe nega a possibilidade de dirigir o jornal com o argumento de que n\u00e3o tinha escolaridade para tal, sonda o economista S\u00e9rgio Ribeiro para o cargo, que assina 11 edi\u00e7\u00f5es. Mas o regime tampouco autorizou esta op\u00e7\u00e3o. Foi o jovem economista Carlos Carvalhas a solu\u00e7\u00e3o para contornar a proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Not\u00edcias da Amadora assumia-se como projeto com a causa de afrontar a oculta\u00e7\u00e3o da realidade da ditadura, fiel ao conceito de \u201cimprensa de resist\u00eancia\u201d, e Orlando Gon\u00e7alves n\u00e3o estava sozinho neste combate. V\u00e1rias equipas passaram pela reda\u00e7\u00e3o do jornal. Pelo menos, mais de mil colaboradores at\u00e9 25 de Abril de 1974. Exemplo disso s\u00e3o as Oficinas Gr\u00e1ficas do jornal, que, para al\u00e9m do peri\u00f3dico, publicaram livros para v\u00e1rias editoras e informa\u00e7\u00e3o para os sindicatos da rec\u00e9m-fundada Intersindical.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas at\u00e9 \u00e0 queda estrondosa do fascismo, o regime n\u00e3o deixaria de mostrar a sua face mais violenta. A 18 de abril, Orlando Gon\u00e7alves e S\u00e9rgio Ribeiro s\u00e3o levados pela PIDE das Oficinas Gr\u00e1ficas do Not\u00edcias da Amadora, assim como a jornalista Helena Neves. S\u00f3 a 27 de abril, j\u00e1 com o fim da ditadura, \u00e9 que se abrem as portas da liberdade para estes \u00faltimos presos pol\u00edticos.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Obreiro do munic\u00edpio de Abril<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a revolu\u00e7\u00e3o, exerceu, entre 1974 e 1994, diversos cargos aut\u00e1rquicos em Oeiras e na Amadora. Foi presidente da Comiss\u00e3o Administrativa da C\u00e2mara Municipal de Oeiras, na qual se integrava a freguesia da Amadora, at\u00e9 \u00e0s primeiras elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas em 1976. Orlando Gon\u00e7alves, ao lado das popula\u00e7\u00f5es, foi um dos obreiros do primeiro concelho criado depois da revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Participou nos debates que se travaram pela democratiza\u00e7\u00e3o do poder local e na constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para problemas como a car\u00eancia habitacional, o saneamento b\u00e1sico, os transportes e tantas outras, e acolheu na C\u00e2mara Municipal de Oeiras personalidades estrangeiras que visitavam o pa\u00eds e que queriam conhecer as conquistas de Abril.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi a 15 de agosto de 1921 que nasceu aquele que ficou conhecido como diretor do Not\u00edcias da Amadora, um jornal local que ganhou notoriedade nacional no combate \u00e0 ditadura fascista. 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