{"id":5258,"date":"2021-11-08T12:07:03","date_gmt":"2021-11-08T12:07:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5258"},"modified":"2021-11-08T12:07:05","modified_gmt":"2021-11-08T12:07:05","slug":"na-palestina-no-outono-e-a-terra-que-resiste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/11\/08\/na-palestina-no-outono-e-a-terra-que-resiste\/","title":{"rendered":"Na Palestina, no Outono, \u00e9 a terra que resiste"},"content":{"rendered":"\n<p>Na Palestina, o Outono deveria ser um tempo de festa. Entre Outubro e Novembro, as fam\u00edlias re\u00fanem os mais jovens e os mais idosos, e espalham-se pelos campos entre o nascer e o p\u00f4r do sol, na colheita da azeitona. \u00c9 uma \u00e9poca de celebra\u00e7\u00e3o da vida, da fertilidade, de comunh\u00e3o com a terra milenar, de partilha e fraternidade. Deveriam ser de festa e, ainda assim, estes s\u00e3o dias de uma desabrida viol\u00eancia e crueldade, tantas vezes de dor lancinante, ainda mais insuport\u00e1vel quanto sofrida sob um denso silenciamento. Os holofotes da comunica\u00e7\u00e3o social sempre lestos a agitar o espantalho do \u201cterrorismo\u201d, sempre prontos a fazer eco das ac\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia de jovens palestinos embrulhando-as na ret\u00f3rica dos \u201cconfrontos\u201d e do \u201cconflito\u201d, ignoram por sistema o sobressalto que se vive por estes dias na generalidade das aldeias e nas comunidades rurais na Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Al-Mazraa al-Garbieh \u00e9 uma pequena aldeia no eixo central da Margem Ocidental do rio Jord\u00e3o, escassos 7 quil\u00f3metros a norte de Ramallah. Os primeiros registos da sua exist\u00eancia datam do s\u00e9c. XVI, quando esta regi\u00e3o estava integrada no Imp\u00e9rio Otomano e as fam\u00edlias ali residentes, cerca de 8, pagavam um tributo correspondente \u00e0 terra que cultivavam. No final do s\u00e9c. XIX, a aldeia tinha crescido e era descrita, num invent\u00e1rio levado a cabo por uma sociedade inglesa, como \u201cuma aldeia de boas propor\u00e7\u00f5es situada em terras baixas no meio de oliveiras\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1945, nas v\u00e9speras da cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel e da limpeza \u00e9tnica de parte da Palestina que se lhe seguiu, al-Garbieh teria uma popula\u00e7\u00e3o calculada em 860 pessoas, todas palestinas e mu\u00e7ulmanas, e dedicadas sobretudo \u00e0 agricultura. Depois da divis\u00e3o da Palestina a aldeia foi administrada pela Jord\u00e2nia at\u00e9 1967, altura em que foi submetida \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o israelita tal como toda a Palestina. De acordo com os acordos de Oslo, as suas terras foram repartidas entre a zona B \u2013 controle de seguran\u00e7a israelita e governo civil da Autoridade Palestina \u2013 e a zona C \u2013 controle total de Israel \u2013, respectivamente 54,2 e 45.8 por cento. Desde ent\u00e3o a aldeia haveria de ser agregada a outras povoa\u00e7\u00f5es nas cercanias, tomando, n\u00e3o por acaso o nome de Al-Zaitounah, \u201ca oliveira\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura da oliveira constitui um eixo estruturante da condi\u00e7\u00e3o de vida das popula\u00e7\u00f5es na Palestina. A exporta\u00e7\u00e3o de azeite da Palestina est\u00e1 documentada desde a Antiguidade. Metade do territ\u00f3rio da Palestina est\u00e1 ocupado por oliveiras que produzir\u00e3o mais de 25 mil toneladas de azeitona e que d\u00e3o sustento directo a mais de 100 mil pessoas, correspondendo a um quarto do rendimento agr\u00edcola. Al\u00e9m do seu valor econ\u00f3mico, as oliveiras s\u00e3o s\u00edmbolo e testemunho dos v\u00ednculos milenares que ligam o povo palestino \u00e0 sua terra. A oliveira mais antiga registada em todo o mundo est\u00e1 na Palestina, na aldeia de Al-Walaja, em Bel\u00e9m. Tem cerca de 5 mil anos, mede 13 metros de altura, ocupa uma \u00e1rea de 250 metros quadrados e as suas ra\u00edzes estendem-se por 25 metros.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 neste s\u00e9culo e desde a sua segunda d\u00e9cada, a expans\u00e3o e cont\u00ednua constru\u00e7\u00e3o de colonatos por parte de Israel no territ\u00f3rio palestino ilegalmente ocupado desde 1967 atingiu com particular viol\u00eancia a aldeia de al-Garbieh. Primeiro de maneira prec\u00e1ria e informal, caucionados depois pela administra\u00e7\u00e3o militar israelita que governa os territ\u00f3rios palestinos, mas sempre com a protec\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito israelita, grupos de colonos foram-se instalando na regi\u00e3o, um ap\u00f3s o outro, dando origem ao que s\u00e3o hoje os colonatos de Haresha, Kerem Reim e Horesh Yaron. Em conex\u00e3o com o estabelecimento dos colonatos, a estrada n\u00ba 450 que serpenteia pelo territ\u00f3rio palestino ocupado, ligando os colonatos entre si e estes com o territ\u00f3rio ocupado pela cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel em 1948 e onde apenas os colonos s\u00e3o autorizados a circular, constitui um obst\u00e1culo adicional ao acesso da popula\u00e7\u00e3o de Al-Zaitounah \u00e0s suas oliveiras e campos de cultivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para poderem cultivar as suas pr\u00f3prias terras \u2013 separadas das aldeias por uma malha de muitas centenas de postos de controle do ex\u00e9rcito israelita, al\u00e9m das barreiras f\u00edsicas como os colonatos e as vias onde apenas circulam colonos \u2013 os camponeses palestinos s\u00e3o sujeitos a um sem n\u00famero de autoriza\u00e7\u00f5es concedidas pelas autoridades militares de Israel, t\u00e3o humilhantes quanto limitadoras. Essas licen\u00e7as t\u00eam uma dura\u00e7\u00e3o de dois anos, mas, em qualquer momento, podem ser suspensas. Durante o per\u00edodo das colheitas, o acesso \u00e0s oliveiras e campos de cultivo pode ser concedido, durante algumas horas ou escassos dias, mas de igual modo pode ser impedido por nenhuma raz\u00e3o al\u00e9m da discricionariedade moment\u00e2nea de uma qualquer patrulha do ex\u00e9rcito de Israel. Segundo dados das Na\u00e7\u00f5es Unidas, na colheita de 2020, por compara\u00e7\u00e3o com o ano anterior, verificou-se um decr\u00e9scimo de mais de 60 por cento nas licen\u00e7as de acesso concedidas. Tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o, a colheita do ano transacto foi anormalmente baixa, cerca de 13 toneladas de azeitona, menos 55 por cento que em 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas al\u00e9m da arbitrariedade do ex\u00e9rcito israelita, a popula\u00e7\u00e3o de todas as aldeias na Palestina ocupada em 1967 tem que confrontar-se com uma outra amea\u00e7a, t\u00e3o ou mais brutal que aquela. No passado dia 21 de Outubro, quinta-feira, quando alcan\u00e7aram os seus campos para a colheita da azeitona, os camponeses de al-Garbieh deparam-se com uma paisagem desoladora: mais de trezentas oliveiras tinham sido arrancadas ou mutiladas. Em duas semanas apenas, este foi apenas um dos dezoito ataques de colonos contra as comunidades camponesas da Palestina visando em particular as oliveiras e a sua produ\u00e7\u00e3o. Durante a campanha de 2020, em quatro semanas (de 7 de Outubro a 2 de Novembro), as Na\u00e7\u00f5es Unidas registaram um total de 39 ataques que provocaram dezenas de feridos, a mutila\u00e7\u00e3o de mais de 1000 oliveiras e o roubo de largas quantidades de azeitona. Mas vista em perspectiva, a crescente agressividade das mil\u00edcias dos colonos fica ainda mais evidente. Como o jornal Haaretz divulgou no in\u00edcio de Outubro, durante o ano de 2019 registaram-se 363 ataques contra os campos de cultivo e as aldeias palestinas. Esse n\u00famero subiu para 507 durante o ano de 2020 e, s\u00f3 durante a primeira metade do ano corrente, esse n\u00famero j\u00e1 totaliza 416 com um saldo de 33 feridos. Em todos os epis\u00f3dios de viol\u00eancia reportados, os colonos contaram com a passividade do ex\u00e9rcito israelita, quando n\u00e3o com a sua protec\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o. Segundo dados da Cruz Vermelha Internacional, entre Agosto de 2020 e Agosto de 2021, foram destru\u00eddas mais de 9300 oliveiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, por estes dias, entre as comunidades camponesas da Palestina, o tempo \u00e9 de sobressalto e de resist\u00eancia tamb\u00e9m, mais que nunca. Os apedrejamentos e amea\u00e7as f\u00edsicas das mil\u00edcias dos colonatos, armadas e protegidas pelo ex\u00e9rcito, o roubo das colheitas, a mutila\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores s\u00e3o amea\u00e7as constantes. Visam incutir o medo, destruir as bases de sobreviv\u00eancia econ\u00f3mica da popula\u00e7\u00e3o palestina, provocar o \u00eaxodo, romper os v\u00ednculos milenares com a terra. Em direito internacional, estas ac\u00e7\u00f5es, patrocinadas pelo estado de Israel, t\u00eam um nome: genoc\u00eddio. S\u00e3o merecedoras de condena\u00e7\u00e3o veemente e devem suscitar uma solidariedade consequente. Esse \u00e9 o de ver de todos os homens e mulheres de boa vontade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Palestina, o Outono deveria ser um tempo de festa. Entre Outubro e Novembro, as fam\u00edlias re\u00fanem os mais jovens e os mais idosos, e espalham-se pelos campos entre o nascer e o p\u00f4r do sol, na colheita da azeitona. \u00c9 uma \u00e9poca de celebra\u00e7\u00e3o da vida, da fertilidade, de comunh\u00e3o com a terra milenar, &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/11\/08\/na-palestina-no-outono-e-a-terra-que-resiste\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Na Palestina, no Outono, \u00e9 a terra que resiste<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":5260,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[174],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5258"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5258"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5258\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5261,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5258\/revisions\/5261"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5258"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}