{"id":5254,"date":"2021-11-08T12:00:01","date_gmt":"2021-11-08T12:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5254"},"modified":"2021-11-08T12:00:03","modified_gmt":"2021-11-08T12:00:03","slug":"georges-brassens-um-labirinto-de-cancoes-para-quem-se-quer-encontrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/11\/08\/georges-brassens-um-labirinto-de-cancoes-para-quem-se-quer-encontrar\/","title":{"rendered":"Georges Brassens: um labirinto de can\u00e7\u00f5es para quem se quer encontrar"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Outubro passaram 100 anos do nascimento de Brassens. Viveu apenas seis d\u00e9cadas e morreu tamb\u00e9m num m\u00eas de Outubro. Nascer e morrer em datas redondas \u00e9 uma coincid\u00eancia harmoniosa, uma ordem que se encontra numa fant\u00e1stica e tumultuosa vida, espelho das suas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Do pante\u00e3o dos cantores franceses do s\u00e9culo XX n\u00e3o ser\u00e1 dos mais conhecidos em Portugal. Os seus temas n\u00e3o seriam dos mais apelativos para a r\u00e1dio. A beleza da musicalidade de Brassens n\u00e3o adv\u00e9m de intrincados arranjos, mas da forma como a palavra se torna m\u00fasica e como a m\u00fasica serve a palavra. O ponto onde se encontra a ideia com o tempo da valsa, o momento em que as s\u00edlabas se encaixam na marcha a galope, \u00e9 onde temos a certeza de estar perante um artista genial.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ouvir, l\u00ea-lo \u00e9 novamente uma experi\u00eancia intensa. Mesmo para quem domine a l\u00edngua francesa, \u00e9 um trabalho \u00e1rduo entender cada subtil voc\u00e1bulo, cada liberdade dialetal. Interpretar os seus quadros aleg\u00f3ricos \u00e9 igualmente desafiante e estimulante. As est\u00f3rias de cada can\u00e7\u00e3o d\u00e3o uma vida vibrante aos protagonistas, sejam mais festivas ou melanc\u00f3licas.&nbsp;<em>Les copains d\u2019abord<\/em>&nbsp;\u00e9 um hino \u00e0 amizade e camaradagem;&nbsp;<em>Chanson pour l\u2019Auvergnat<\/em>, uma valsa a escutar com len\u00e7o \u00e0 m\u00e3o, apresenta tr\u00eas personagens generosas a quem se manifesta uma sentida gratid\u00e3o. Muitas vezes, uma pequena situa\u00e7\u00e3o aned\u00f3tica desdobra-se numa transposi\u00e7\u00e3o para abordagem de quest\u00f5es pol\u00edticas, como em<em>&nbsp;Le Gorille<\/em>, que parece ser sobre um animal que saiu da jaula e procura um humano para copular, mas que na verdade possui uma forte mensagem contra a pena capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Brassens \u00e9 reconhecido por esta cr\u00edtica social com que impregnou alguns dos seus temas, assim como pela forma como se posicionava, ainda que de forma fluida, na pol\u00edtica \u2013 antes das can\u00e7\u00f5es, escrevia regularmente para publica\u00e7\u00f5es anarquistas. Mas mais que letras panflet\u00e1rias, o que escutamos \u2013 ora evidente, ora subtil \u2013 \u00e9 um retrato, um olhar comprometido com a humanidade. No tema&nbsp;<em>La complainte des filles de joie<\/em>, Brassens apresenta-nos a realidade da prostitui\u00e7\u00e3o sem romantismos ou vitimiza\u00e7\u00f5es, exortando ao respeito pelas mulheres prostitu\u00eddas. E da mesma forma que toma partido pelos mais vulner\u00e1veis, tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de afirmar o seu direito a n\u00e3o querer lidar selectivamente com a realidade: \u201cN\u00e3o fa\u00e7o mal a ningu\u00e9m ao seguir o meu caminho de bom rapaz, ao ignorar o som dos clarins, ao deixar correr os ladr\u00f5es de ma\u00e7\u00e3s\u201d, como ouvimos em&nbsp;<em>La Mauvaise R\u00e9putation<\/em>.<br>A liberdade de pensar, escrever e sentir ser\u00e1 talvez o legado mais significativo da sua obra. Quando se apresentava ao vivo, chocava com as suas letras um p\u00fablico conservador. Era capaz de descrever, por exemplo, como em&nbsp;<em>Fernande<\/em>, a forma como se masturbava. Alternou entre o er\u00f3tico e o sat\u00edrico, o c\u00f3mico, o pornogr\u00e1fico, o rom\u00e2ntico e o militante como s\u00f3 quem tem uma sede de viver e uma honestidade para com quem lhe bebe as palavras \u00e9 capaz. Quem assim escreve tem, em \u00faltima an\u00e1lise, um profundo amor pela vida em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Amor, um ingrediente nem sempre principal mas com que sempre temperava as can\u00e7\u00f5es. O amor em Brassens continua a ser exemplo &#8211; quer-se livre, sem as amarras do casamento como em&nbsp;<em>La non-demande en mariage<\/em>, sem as expectativas dos pap\u00e9is da sociedade &#8211;&nbsp;<em>Je me suis fait tout petit<\/em>&nbsp;\u00e9 um deleite para os entusiastas de BDSM. O amor pode querer-se tamb\u00e9m ef\u00e9mero como em&nbsp;<em>Putain de toi<\/em>, plat\u00f3nico como em&nbsp;<em>Les passantes<\/em>&nbsp;ou s\u00f3 apenas como uma lembran\u00e7a do que podia ter sido como em&nbsp;<em>Coupidon s\u2019en fout<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvir Brassens \u00e9 mergulhar em palavras que a cada ano que passa, ganham novas leituras. Escrever como Brassens (ou algo assim, como alguns de n\u00f3s por vezes sonham), \u00e9 um acto de coragem e resist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Outubro passaram 100 anos do nascimento de Brassens. Viveu apenas seis d\u00e9cadas e morreu tamb\u00e9m num m\u00eas de Outubro. Nascer e morrer em datas redondas \u00e9 uma coincid\u00eancia harmoniosa, uma ordem que se encontra numa fant\u00e1stica e tumultuosa vida, espelho das suas composi\u00e7\u00f5es. 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