{"id":5233,"date":"2021-11-01T18:41:26","date_gmt":"2021-11-01T18:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5233"},"modified":"2021-11-01T18:41:27","modified_gmt":"2021-11-01T18:41:27","slug":"nos-80-anos-da-publicacao-de-esteiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/11\/01\/nos-80-anos-da-publicacao-de-esteiros\/","title":{"rendered":"Nos 80 anos da publica\u00e7\u00e3o de Esteiros"},"content":{"rendered":"\n<p>O aparecimento de <em>Esteiros<\/em>, em 1941, de Soeiro Pereira Gomes (cumprem-se este ano 80 anos da sua publica\u00e7\u00e3o), numa edi\u00e7\u00e3o que exibia a bel\u00edssima e expressiva capa desenhada por \u00c1lvaro Cunhal, vem aprofundar o caminho de descoberta e den\u00fancia social, iniciado com\u00a0<em>Gaib\u00e9us,<\/em>\u00a0de Redol, incidindo a obra de Soeiro e a sua especula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social sobre os universos da explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, cujas coordenadas mais abjectas escapavam \u00e0s consci\u00eancias burguesas e a grande parte da intelectualidade urbana.<\/p>\n\n\n\n<p>Soeiro<em>&nbsp;<\/em>introduz no discurso liter\u00e1rio deste exemplar romance, dados sociol\u00f3gicos novos, uma linguagem sens\u00edvel e arguta que mergulha fundo nesse nicho de desprez\u00edvel explora\u00e7\u00e3o, dado que exercida sobre os mais indefesos elementos da base social, levando o leitor a tomar consci\u00eancia dessa realidade, da vida agreste desse n\u00facleo sobre o qual a usura do capital exercia toda a sua inumana brutalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas vulner\u00e1veis ilhas humanas, ainda n\u00e3o inscritas no corpo dieg\u00e9tico do neo-realismo: o mundo da inf\u00e2ncia e da pr\u00e9-adolesc\u00eancia, da mis\u00e9ria que invade, desde o ber\u00e7o, esse territ\u00f3rio que quer\u00edamos de descoberta e constru\u00e7\u00e3o do ser, invadido de forma violenta pela gan\u00e2ncia que vai destruindo sonhos, capacidades, modos outros de crescimento e realiza\u00e7\u00e3o pessoal e colectiva; um mundo do desenrasca, da luta quotidiana por um naco de p\u00e3o para enganar a maligna, do trabalho escravo nos telhais, da rebeldia, da ternura, do companheirismo, da aventura e da transgress\u00e3o \u2013 esse universo \u00e9pico, que o verbo dorido e sensitivo de Soeiro Pereira Gomes trata e percorre com objectividade e plena maturidade formal; a expressiva utiliza\u00e7\u00e3o do linguajar das gentes da beira Tejo, doseando de modo exemplar o drama e o jocoso popular com a agudeza de an\u00e1lise das contradi\u00e7\u00f5es da burguesia, o gradual cinismo que os t\u00edteres em presen\u00e7a estabelecem entre si, para melhor definirem os campos e o espa\u00e7o que lhes cabe na refrega da cupidez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Soeiro cria, com&nbsp;<em>Esteiros<\/em>, um fresco denunciador da sordidez que o fascismo luso exibia nas suas invis\u00edveis margens, na an\u00e1lise que constr\u00f3i, ancorado nos tra\u00e7os significantes da mat\u00e9ria social e hist\u00f3rica que dominava a Europa \u2013 o feroz capitalismo ungido no terror -, no modo como elabora, a partir das personagens principais (Gineto, Gaitinhas, Maquineta, Sagui) a representa\u00e7\u00e3o realista e modelar desse per\u00edodo, das circunst\u00e2ncias at\u00edpicas em que a sua ac\u00e7\u00e3o (partindo do particular para o colectivo) nele se desenvolve, marcando as componentes te\u00f3ricas que condicionaram o desenvolvimento do pa\u00eds nessa fase hist\u00f3rica (1930\/40).<\/p>\n\n\n\n<p>Um romance a v\u00e1rios t\u00edtulos exemplar e actual. A ler ou a reler.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aparecimento de Esteiros, em 1941, de Soeiro Pereira Gomes (cumprem-se este ano 80 anos da sua publica\u00e7\u00e3o), numa edi\u00e7\u00e3o que exibia a bel\u00edssima e expressiva capa desenhada por \u00c1lvaro Cunhal, vem aprofundar o caminho de descoberta e den\u00fancia social, iniciado com\u00a0Gaib\u00e9us,\u00a0de Redol, incidindo a obra de Soeiro e a sua especula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social sobre os &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/11\/01\/nos-80-anos-da-publicacao-de-esteiros\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Nos 80 anos da publica\u00e7\u00e3o de Esteiros<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":5234,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5233"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5233"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5236,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5233\/revisions\/5236"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5233"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}