{"id":5144,"date":"2021-10-20T19:43:38","date_gmt":"2021-10-20T19:43:38","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5144"},"modified":"2021-12-03T12:47:43","modified_gmt":"2021-12-03T12:47:43","slug":"alcindo-e-a-historia-que-nao-esquecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/20\/alcindo-e-a-historia-que-nao-esquecemos\/","title":{"rendered":"&#8220;Alcindo \u00e9 a hist\u00f3ria que n\u00e3o esquecemos&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Cerca de 800 espetadores esgotaram o S\u00e3o Jorge para assistir ao filme \u201cAlcindo\u201d, sobre o assassinato de Alcindo Monteiro, por neonazis, em 1995. Miguel Dores n\u00e3o esqueceu a noite em que, ainda adolescente, lhe contaram os pormenores. \u00c9 ele que assina o document\u00e1rio que acaba de ganhar o Pr\u00e9mio do P\u00fablico no DocLisboa, um trabalho que pretende falar do racismo no presente, atrav\u00e9s do passado. N\u00e3o quer que se perdoe ou se esque\u00e7a a morte do jovem cabo-verdiano. E n\u00e3o tem d\u00favidas. Este document\u00e1rio \u00e9 um grito contra o fascismo.<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porqu\u00ea fazer um document\u00e1rio sobre o Alcindo Monteiro?&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Eu diria que esta \u00e9 uma hist\u00f3ria que me impacta pessoalmente h\u00e1 muito tempo. A primeira vez que fui ao Bairro Alto, com amigos do meu irm\u00e3o mais velho, lembro-me perfeitamente de me contarem a hist\u00f3ria do Alcindo Monteiro com o dedo apontado \u201cfoi aqui que aconteceu\u201d e mostrarem-me o trajeto todo. Essa hist\u00f3ria acompanhou sempre a minha vida noturna, que era no Bairro Alto inicialmente, e o Bairro Alto sempre foi um lugar de ritualiza\u00e7\u00e3o desta tens\u00e3o social que era o poss\u00edvel encontro de skinheads neonazis.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, mais tarde, com a minha participa\u00e7\u00e3o na cena punk [fez parte da banda Sobressaltos e esteve envolvido na Taberna Ocupada pela Cultura na Amadora], o que se passou era muito lembrado nesse seio como a hist\u00f3ria que n\u00e3o perdoamos e a hist\u00f3ria que queremos que n\u00e3o seja esquecida. Isto foi sempre importante na minha constru\u00e7\u00e3o enquanto sujeito mas eu diria que h\u00e1 um momento, ali em 2019, em que nos come\u00e7amos a aperceber de que dentro de um cen\u00e1rio mundial de reconstru\u00e7\u00e3o de projetos nacionalistas e conservadores, h\u00e1 uma higieniza\u00e7\u00e3o de figuras fascistas em curso em Portugal. O ano come\u00e7a logo com uma coisa muito reveladora que foi o grande destaque dado a M\u00e1rio Machado, no programa do Goucha, e que era feito no contexto de uma manifesta\u00e7\u00e3o que se chamava \u201cSalazar faz muita falta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ano, tamb\u00e9m \u00e9 quando se cria o Movimento Zero e quando Andr\u00e9 Ventura \u00e9 eleito deputado. Come\u00e7a uma etapa de reconstru\u00e7\u00e3o de um movimento de extrema direita em Portugal e eu estava a definir a minha tese de mestrado nesse momento e a perceber todas essas dimens\u00f5es que estavam a acontecer na sociedade portuguesa e pensei \u201cfazer neste momento um document\u00e1rio sobre o caso Alcindo Monteiro \u00e9 uma forma de falar sobre tudo isto que estamos a viver, sobre todo este processo social\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que o que aconteceu em 2020 acaba por ser revelador do qu\u00e3o importante era fazer um document\u00e1rio sobre o Alcindo Monteiro. O ano abre com o assasinato de Giovani, a seguir temos o caso da Cl\u00e1udia Sim\u00f5es, do Ihor Homeniuk, do Bruno Cand\u00e9. H\u00e1 xerifes da extrema-direita que clamam pela constru\u00e7\u00e3o de um dom\u00ednio p\u00fablico racializado e isto tem consequ\u00eancias na constru\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es e \u00f3dios sociais que levam a uma viol\u00eancia racial acentuada. Foi justamente o que aconteceu no caso do Alcindo Monteiro e naquele per\u00edodo, nos in\u00edcios dos anos 90.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Cresceste na Amadora e vens de uma fam\u00edlia comunista. Achas que isso, de certa forma, te ajudou a construir a tua vis\u00e3o do mundo?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Eu n\u00e3o compreendia porque \u00e9 que eu passava para o secund\u00e1rio ou para o ensino universit\u00e1rio mas uma percentagem alta dos meus colegas negros n\u00e3o, n\u00e3o compreendia a raiva deles perante a escola, e numa escola que tinha matrizes racistas bastante vincadas, desde logo nos programas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida. N\u00e3o s\u00f3 de uma fam\u00edlia comunista mas tamb\u00e9m, da parte do meu av\u00f4 paterno, havia uma grande consci\u00eancia e uma grande experi\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o com os movimentos anti-coloniais, que ele me foi sempre comunicando. Essa dimens\u00e3o \u00e9 bastante importante. A quest\u00e3o da Amadora \u00e9 importante, eu diria, porque a minha fam\u00edlia ajudou-me num pensamento sobre as matrizes de classe de opress\u00e3o e ajudou-me a compreender fen\u00f3menos sociais que se d\u00e3o na cidade da Amadora, como o racismo. Havia uma grande presen\u00e7a de estudantes africanos nas escolas e essa presen\u00e7a obrigava-me a ressemantizar-me fora das lentes do nacionalismo. Ou seja, essa ideia do que \u00e9 ser portugu\u00eas, era uma coisa que era muito distante de mim. Sempre convivi entre pessoas que ouviam kuduro e kizomba. Essa socializa\u00e7\u00e3o impacta na forma como eu construo a minha identidade social e, portanto, a minha forma de pensar o mundo. Eu n\u00e3o compreendia porque \u00e9 que eu passava para o secund\u00e1rio ou para o ensino universit\u00e1rio mas uma percentagem alta dos meus colegas negros n\u00e3o, n\u00e3o compreendia a raiva deles perante a escola, e numa escola que tinha matrizes racistas bastante vincadas, desde logo nos programas. Acho que foi a tentativa de entender essa realidade principal que mais me marcou no percurso acad\u00e9mico.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Ainda por cima, viveste um tempo no Brasil e tens uma grande rela\u00e7\u00e3o com essa realidade. Participas at\u00e9, em Lisboa, num grupo de maracatu. Entendes que isso tamb\u00e9m te ajudou, de certa forma, a situar-te nesse campo do anti-racismo e do antifascismo?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, n\u00e3o h\u00e1 detalhe do Brasil que possa ser afastado da dimens\u00e3o racial. \u00c9 o maior pa\u00eds negro de brancos no mundo. Isto na medida em que o capital \u00e9 branco mas as pessoas, a maioria da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 negra. S\u00f3 a Nig\u00e9ria tem mais negros do que o Brasil e \u00e9 um pa\u00eds com muita dificuldade em p\u00f4r pontos finais. A transi\u00e7\u00e3o para o imp\u00e9rio brasileiro \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o absolutamente manhosa, o mesmo se pode dizer da rep\u00fablica, o mesmo se pode dizer do fim da escravatura, o mesmo se pode dizer do fim da ditadura militar. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 pontos finais na hist\u00f3ria do Brasil, e isso faz com que a hist\u00f3ria colonial esteja muito viva em toda a forma como se estruturam as rela\u00e7\u00f5es sociais e viver essa realidade e perceb\u00ea-la, perceber o peso dela, ajudou-me a compreender a import\u00e2ncia de me posicionar no mundo enquanto anti-racista.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porque \u00e9 que achas que as pessoas devem ver este filme?<br><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O filme procura, a partir deste caso, discutir uma forma sist\u00e9mica de racismo e como \u00e9 que a sociedade se estrutura para a produ\u00e7\u00e3o de linchamentos sociais e para a produ\u00e7\u00e3o de um patrulhamento e de um clima de seguran\u00e7a associado a figuras que se tornam inimigos p\u00fablicos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aquilo que menos esperaria neste filme \u00e9 que se fizesse um close up sobre os nazis e que houvesse uma interpreta\u00e7\u00e3o isolada dos nazis. O filme \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. O filme \u00e9 um grande plano sobre Portugal. \u00c9 um filme que procura fazer uma meton\u00edmia entre esta noite longa, a de Alcindo Monteiro, e uma \u00e9poca. O objetivo \u00e9 olhar para o&nbsp; que aconteceu nessa noite mas tamb\u00e9m as articula\u00e7\u00f5es desta noite com uma constela\u00e7\u00e3o de temas que nos permitem perceber um processo social, e portanto todos os fen\u00f3menos que est\u00e3o ligados a este caso. Como a constru\u00e7\u00e3o da CPLP, a Expo98, as leis de regulariza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1rias criadas pelo Dias Loureiro num tempo de muito subemprego, da desindustrializa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds vivia nos anos 90. <\/p>\n\n\n\n<p>O filme procura junt\u00e1-los como uma esp\u00e9cie de constela\u00e7\u00e3o que tem como estrela guia o caso Alcindo Monteiro. Portanto, a import\u00e2ncia que eu dou a que as pessoas vejam este filme \u00e9 a import\u00e2ncia de pensar o racismo como um fen\u00f3meno com agentes concretos, com politiza\u00e7\u00f5es sociais, das quais partem as a\u00e7\u00f5es reivindicativas. Mas tamb\u00e9m pensar o racismo como uma estrutura que permeia a totalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme procura, a partir deste caso, discutir uma forma sist\u00e9mica de racismo e como \u00e9 que a sociedade se estrutura para a produ\u00e7\u00e3o de linchamentos sociais e para a produ\u00e7\u00e3o de um patrulhamento e de um clima de seguran\u00e7a associado a figuras que se tornam inimigos p\u00fablicos. Ent\u00e3o, o filme parte dessa estrutura de explicar o que \u00e9 que aconteceu nesse momento, escutar as v\u00edtimas diretas deste caso, a fam\u00edlia e os amigos do Alcindo, mas tamb\u00e9m observar como \u00e9 que a sociedade se posiciona sobre este caso e como \u00e9 que a sociedade se vinha construindo durante os anos 90.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"724\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n-724x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5185\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n-724x1024.jpeg 724w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n-212x300.jpeg 212w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n-768x1086.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n-127x180.jpeg 127w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/247131217_275253487942115_6000354543775557408_n.jpeg 1448w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como \u00e9 que reagiu a fam\u00edlia do Alcindo \u00e0 ideia de avan\u00e7ares com este trabalho?&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia teve uma postura bastante corajosa em rela\u00e7\u00e3o a isto desde o in\u00edcio, porque percebem a import\u00e2ncia de se falar do caso de forma a que n\u00e3o volte a acontecer. Percebem a dimens\u00e3o que extrapola o \u00e2mbito da dor familiar. Ainda assim, aquilo que deline\u00e1mos fazer enquanto grupo, e isso marcou a forma como fomos conseguindo trabalhar com a fam\u00edlia, foi de n\u00e3o fazer um trabalho r\u00e1pido ou exigir \u00e0 fam\u00edlia que trabalhasse connosco de uma forma apressada. Uma meta que t\u00ednhamos era, por exemplo, nunca gravar com intervalos menores de dois meses porque, obviamente, estamos a falar de uma dor profunda e de uma mem\u00f3ria traum\u00e1tica. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5157\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1-220x124.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/alcindo-doclisboa-1.jpeg 1800w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quer\u00edamos trazer para a fam\u00edlia uma abordagem a este tema que os massacrasse com esta mem\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria para estar a ser falada e lembrada constantemente. Grav\u00e1mos com a fam\u00edlia e constru\u00edmos esta hist\u00f3ria com a fam\u00edlia, sempre com grande espa\u00e7amento de tempo e isso foi uma das raz\u00f5es para o facto do filme ter demorado dois anos. Levou-nos a um trabalho insistente, com sess\u00f5es de visualiza\u00e7\u00e3o do filme na casa da fam\u00edlia para repensar o pr\u00f3prio corte consoante o interesse da fam\u00edlia.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Na constru\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, conseguiste arrecadar 12 mil euros em praticamente 10 dias atrav\u00e9s de crowdfunding. Sentiste que as pessoas queriam que este filme fosse feito?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre que eu falava a v\u00e1rias pessoas de que estava a fazer este filme, sentia uma grande ansiedade, sentia que queriam que fosse feito.As pessoas falavam com outras que depois vinham falar comigo sobre o filme. Ou seja, a expetativa era grande. Por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, este caso causou, em v\u00e1rios setores da popula\u00e7\u00e3o, muita como\u00e7\u00e3o. Ainda assim, n\u00e3o esperava isto e s\u00f3 assisti a essa express\u00e3o da como\u00e7\u00e3o generalizada em rela\u00e7\u00e3o a este caso quando fizemos o crowdfunding. Foi o momento em que se concretizou aquilo que eu sentia ser uma contra-mem\u00f3ria, na medida em que ela n\u00e3o \u00e9 oficial. N\u00e3o \u00e9 de forma oficial que esta mem\u00f3ria \u00e9 preservada. Mas as pessoas recordam-se desta hist\u00f3ria e lembram-na para lembrarem aquilo que n\u00e3o querem que volte a acontecer.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Tamb\u00e9m tiveste o interesse de contar a hist\u00f3ria das outras v\u00edtimas dessa noite. Ainda h\u00e1 muito desconhecimento sobre o que aconteceu?&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O que h\u00e1 de n\u00e3o compreendido dessa noite \u00e9 justamente essa dimens\u00e3o genocida. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Acho que h\u00e1 um grande desconhecimento sobre a forma como este linchamento racial se sucedeu. \u00c9 coletivo, h\u00e1 uma intencionalidade e as agress\u00f5es s\u00e3o feitas todas mesma forma. Com intensidades diferentes, nesta noite v\u00e1rios espancamentos s\u00e3o feitos com recurso ao cerco em grupo, com desferimento de golpes letais \u00e0 cabe\u00e7a das v\u00edtimas, e constantes verbaliza\u00e7\u00f5es de vontade expressa de matar pessoas negras durante o trajeto, tudo isto provado em tribunal. Portanto, como j\u00e1 diziam na altura v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es sociais, n\u00e3o tem nenhum sentido a retirada de crime de genoc\u00eddio de cena no final do processo do tribunal, porque de facto ao olhar para o processo, ao ler o ac\u00f3rd\u00e3o, e se pensarmos na aplica\u00e7\u00e3o deste crime contra a humanidade, percebe-se a clareza deste gesto enquanto um gesto genocida. O que h\u00e1 de n\u00e3o compreendido dessa noite \u00e9 justamente essa dimens\u00e3o genocida. O facto de ser um crime contra a humanidade e um crime coletivo, um crime contra v\u00e1rias pessoas e que, portanto, tem uma import\u00e2ncia pol\u00edtica, no sentido da responsabilidade pol\u00edtica.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Com a extrema direita a ganhar for\u00e7a, achas que este filme pode ser uma ferramenta para ajudar a combat\u00ea-la? <br><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que o fa\u00e7o.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Em 1994, o Tribunal Constitucional extinguiu o Movimento de A\u00e7\u00e3o Nacionalista (MAN), de que faziam parte v\u00e1rios dos respons\u00e1veis pelo assassinato do Alcindo Monteiro. Isto mostra que as inst\u00e2ncias judiciais n\u00e3o resolvem tudo? Ou seja, a extin\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es fascistas por si s\u00f3 n\u00e3o parece eliminar o perigo do pr\u00f3prio fascismo. <br><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Salazar declarava que Portugal era o inventor do multirracialismo e que racistas eram os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eu traria um debate sobre a quest\u00e3o da inefici\u00eancia penal em casos de reincid\u00eancia. Para al\u00e9m da quest\u00e3o do MAN, n\u00f3s tamb\u00e9m j\u00e1 temos v\u00e1rios casos de reincid\u00eancias de assassinos ou de participantes desta noite, de agressores desta noite, em outros crimes de \u00f3dio, seja racial, seja por outros motivos. A a\u00e7\u00e3o penal n\u00e3o transforma a sociedade. E temos de adicionar uma outra forma de justi\u00e7a que parte do princ\u00edpio que existe uma responsabilidade pol\u00edtica que \u00e9 imprescrit\u00edvel, a responsabilidade pol\u00edtica sobre aquilo que n\u00f3s n\u00e3o queremos que aconte\u00e7a e sobre aquilo que n\u00f3s n\u00e3o podemos tolerar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto, desde logo, parece uma coisa que poderia ser \u00f3bvia, mas analisando as mat\u00e9rias que foram divulgadas e os discursos p\u00fablicos das figuras do Estado portugu\u00eas da \u00e9poca, quer no caso do MAN, quer no caso do assassinato do Jos\u00e9 Carvalho, quer no caso do Alcindo Monteiro, colocam-se sempre as figuras, como M\u00e1rio Soares e Cavaco Silva, sobre o espectro de que \u00e9 preciso combater a guerra com a paz, de que \u00e9 preciso combater a intoler\u00e2ncia com a toler\u00e2ncia. \u00c9 um discurso irrespons\u00e1vel, um discurso que n\u00e3o percebe tamb\u00e9m a articula\u00e7\u00e3o com uma nega\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o da viol\u00eancia racial, que \u00e9 uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Esta \u00e9 uma lada\u00ednha inventada na hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o que tem um grande pai te\u00f3rico que \u00e9 Salazar. Salazar declarava que Portugal era o inventor do multirracialismo e que racistas eram os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, toda esta dimens\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da toler\u00e2ncia com que enfrentamos a nossa hist\u00f3ria faz com que n\u00f3s consigamos conviver ao longo da nossa hist\u00f3ria recente com uma s\u00e9rie de massacres coloniais sem que haja um trabalho que trate como crimes contra a humanidade. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Este \u00e9 o teu primeiro filme. Tens outros projetos em mente?&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mas nenhum deles com subst\u00e2ncia suficiente para ainda poder cham\u00e1-los filmes. Mas gostava de continuar, sem d\u00favida.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cerca de 800 espetadores esgotaram o S\u00e3o Jorge para assistir ao filme \u201cAlcindo\u201d, sobre o assassinato de Alcindo Monteiro, por neonazis, em 1995. Miguel Dores n\u00e3o esqueceu a noite em que, ainda adolescente, lhe contaram os pormenores. \u00c9 ele que assina o document\u00e1rio que acaba de ganhar o Pr\u00e9mio do P\u00fablico no DocLisboa, um trabalho &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/20\/alcindo-e-a-historia-que-nao-esquecemos\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Alcindo \u00e9 a hist\u00f3ria que n\u00e3o esquecemos&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5148,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5144"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5304,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5144\/revisions\/5304"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5144"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=5144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}