{"id":5116,"date":"2021-10-13T16:55:50","date_gmt":"2021-10-13T16:55:50","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5116"},"modified":"2021-11-09T08:59:02","modified_gmt":"2021-11-09T08:59:02","slug":"contra-as-distopias-sonhar-um-futuro-melhor1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/13\/contra-as-distopias-sonhar-um-futuro-melhor1\/","title":{"rendered":"Contra as distopias, sonhar um futuro melhor"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nega \u00e9 o nome art\u00edstico de Ricardo Romero, um dos mais conhecidos rappers do outro lado da fronteira. \u00c9 MC no grupo Los Chikos del Maiz, ao lado de Toni Mej\u00eda e do Dj Plan B. Alvos de amea\u00e7as da extrema-direita, j\u00e1 viram v\u00e1rios concertos proibidos pelas autoridades espanholas. As letras s\u00e3o verdadeiros rastilhos de p\u00f3lvora, um grito contra o sistema capitalista e o fascismo. \u00c9 um verdadeiro comanche do rap antifascista que defende que precisamos de sonhar futuros poss\u00edveis. De passeio por Lisboa e de visita \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, Nega anuncia que est\u00e3o a preparar um quarto \u00e1lbum e revela em exclusivo para este jornal o nome do novo trabalho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como chegas ao mundo do rap?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Bom, chego pelo mundo do graffiti e, ao contr\u00e1rio de outras cidades, como Madrid ou Barcelona, o graffiti chegou antes a Val\u00eancia, e as pessoas do mundo do graffiti ouviam rap. E depois, bom, come\u00e7\u00e1mos a pintar por a\u00ed pela cidade. Come\u00e7aram a aparecer grupos como 7 Notas, 7 Colores, Club de los Poetas Violentos [CPV] e foi assim&#8230;<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Qual era o teu tag nas paredes?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Nega, sempre Nega.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Ganhas consci\u00eancia pol\u00edtica nesse contexto?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Claro, tamb\u00e9m com o punk, os centros sociais\u2026<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E atrav\u00e9s da fam\u00edlia.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, claro, o meu pai era comunista, sindicalista, mas \u00e0s vezes quando \u00e9s adolescente se n\u00e3o te metes num determinado c\u00edrculo e em determinados ambientes por muito que o teu pai te diga&#8230;Mas, sim, havia nos meados dos anos 90 muita efervesc\u00eancia dos centros sociais ocupados e tamb\u00e9m bandas como Mani\u00e1tica, El Oso Yonki. Para al\u00e9m disso, deixavam-nos pintar nos centros sociais e, claro, ias-te deixando impregnar pelo ambiente pol\u00edtico. Claro, quando come\u00e7am a sair os primeiros grupos de rap, ao contr\u00e1rio dos que h\u00e1 agora, como esta merda do trap, tinham consci\u00eancia antifascista. Nos anos 90, era habitual confrontos com nazis, e a pouco e pouco fui tendo mais consci\u00eancia, tu vias punks e grupos como os CPV, que tinham \u00e1rabes e negros, que se pegavam ao murro com fascistas e, claro, quando tens 16 anos isso tem um grande impacto. Eu pensava: eu quero fazer isto.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como come\u00e7ou tudo?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava no 13 Pasos, que foi o primeiro grupo que cri\u00e1mos em Val\u00eancia, e o Toni [Mej\u00edas] vinha do La Nota M\u00e1s Alta, um grupo posterior. N\u00f3s os dois coincid\u00edamos ao n\u00edvel de refer\u00eancias cinematogr\u00e1ficas e pol\u00edticas, o Che [Guevara], o Fidel [Castro]&#8230;Um dia est\u00e1vamos parados e decidimos criar algo juntos, sem muitas pretens\u00f5es, fizemos uma maquete e mand\u00e1mo-la a discogr\u00e1ficas. Tudo isto tamb\u00e9m coincidiu com o auge dos f\u00f3runs na internet e a verdade \u00e9 que a maquete teve sucesso. Depois chegaram as redes sociais e fomos ao palco das juventudes na festa do Partido Comunista de Espanha [PCE] em 2005 ou 2006. Este ano volt\u00e1mos a tocar na festa do PCE, no centen\u00e1rio deste partido, e tamb\u00e9m estava Silvio Rodr\u00edguez.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E porqu\u00ea o nome Los Chikos del Maiz?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Porque soava bem, e depois h\u00e1 o conto de Stephen King, Children of the Corn, e o filme [em portugu\u00eas, Os Filhos da Terra], que \u00e9 p\u00e9ssimo. N\u00f3s somos da periferia de Val\u00eancia, da cintura vermelha industrial, e sempre nos sentimos um pouco afastados em rela\u00e7\u00e3o a quem vivia na cidade. E na novela, as crian\u00e7as revoltam-se contra os adultos e ocorre num ambiente rural. Bom, a verdade \u00e9 que soava bem, apesar de agora estar um bocado desactualizado porque j\u00e1 temos 40 anos.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"718\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/U\u0301ltimo-concierto-de-DJ-Bokah-con-Los-Chikos-del-Mai\u0301z-en-Mallorca.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5123\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/U\u0301ltimo-concierto-de-DJ-Bokah-con-Los-Chikos-del-Mai\u0301z-en-Mallorca.jpeg 960w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/U\u0301ltimo-concierto-de-DJ-Bokah-con-Los-Chikos-del-Mai\u0301z-en-Mallorca-300x224.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/U\u0301ltimo-concierto-de-DJ-Bokah-con-Los-Chikos-del-Mai\u0301z-en-Mallorca-768x574.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/U\u0301ltimo-concierto-de-DJ-Bokah-con-Los-Chikos-del-Mai\u0301z-en-Mallorca-220x165.jpeg 220w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Los Chikos del Maiz em Maiorca.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">As vossas letras est\u00e3o cheias de refer\u00eancias pol\u00edticas, cinematogr\u00e1ficas, liter\u00e1rias, musicais, entre outras.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mas nunca quisemos vestir a pele de educadores ou algo assim. Foi de uma forma bastante natural.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E s\u00e3o letras muito visuais. O rap sempre foi muito visual.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Claro, podes dizer muitas coisas num espa\u00e7o muito curto de tempo. Com o rap podes dizer muitas coisas. Um concerto de rock dura uma folha, s\u00f3 uma can\u00e7\u00e3o nossa gasta uma folha. A quantidade de refer\u00eancias, de jogos de palavras, de piscares de olhos a outros temas&#8230;O que se passa \u00e9 que, claro, com o passar de anos vais acumulando maquetes, discos e tal e chega a um momento em que tens de escolher o material porque a mem\u00f3ria n\u00e3o d\u00e1 para tudo. Agora queremos fazer um concerto no 15\u00ba anivers\u00e1rio do grupo no Pal\u00e1cio dos Desportos de Madrid e vamos revisitar toda a carreira e vou ter de recordar can\u00e7\u00f5es mais antigas e nem quero imaginar como vou ter de fazer\u2026<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"700\" height=\"467\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5124\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02.jpeg 700w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02-300x200.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02-150x100.jpeg 150w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02-370x247.jpeg 370w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/chikos-maiz-bilbao-02-220x147.jpeg 220w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Um concerto marcante, portanto.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, j\u00e1 tinha sido desmarcado por causa da pandemia e esperamos que agora possa ser um concerto com toda a gente de p\u00e9 porque isto foi terr\u00edvel.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Esta manh\u00e3, quando acordaste em Lisboa, publicaste nas redes sociais um sonho que tiveste e que vamos transcrever para os nossos leitores. Sonhar \u00e9 importante?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o: <em>\u201cHoje sonhei que ocup\u00e1vamos um edif\u00edcio no Chiado e criavamos uma comunidade de artistas que governada com punho de ferro em que a \u00fanica regra era &#8220;limpa e esfrega a casa de banho ou baza para a tua casa, hippie de merda\u201d. E ali estivemos, o tempo todo a compor, a criar, com um cineforum, com feiras de discos que organizavamos regularmente, trocando fanzines e livros. Havia tamb\u00e9m um est\u00fadio de tatuagens, claro. E um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o. E uma \u00e1gora p\u00fablica onde debatiamos as pr\u00f3ximas ac\u00e7\u00f5es, como por exemplo arrasar as instala\u00e7\u00f5es da Fnac e de outros templos da pervers\u00e3o da cultura. Quando a pol\u00edcia j\u00e1 nos tem cercados e est\u00e1 prestes a capturar-nos, o Partido Comunista Portugu\u00eas ganha as elei\u00e7\u00f5es e somos absolvidos de todas as acusa\u00e7\u00f5es, claro. Acolhemos refugiados espanh\u00f3is em fuga da presen\u00e7a do VOX nos minist\u00e9rios, especificamente da Cultura e Igualdade. Um ano mais tarde, invadimos Espanha e libert\u00e1mo-la do jugo fascista. Depois acordei, olhei pela janela e vi a merda da H&amp;M. E lembrei-me como \u00e9 repugnante visitar outros pa\u00edses, com outra l\u00edngua e outra cultura e ver a mesma merda de cadeias comerciais de merda&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[Risos] Bom, era um conto, uma utopia mas eu creio que h\u00e1 que reivindicar um pouco a utopia. \u00c0s vezes, parece que perdemos um pouco a capacidade de sonhar. Somos incapazes de sonhar futuros e se os que militamos na esquerda n\u00e3o somos capazes de imaginar um futuro poss\u00edvel porque tudo \u00e9 uma merda, porque tudo \u00e9 terr\u00edvel, porque est\u00e1 tudo desintegrado. Porque se desmontou tudo o que era o tecido oper\u00e1rio, cultural&#8230;mas, porra, se n\u00e3o acreditarmos n\u00f3s pr\u00f3prios quem \u00e9 que vai acreditar? O vizinho que v\u00ea a Telecinco [canal de televis\u00e3o] todas as tardes e que est\u00e1 alienado e que passa o dia entre o trabalho e o bar?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Em Espanha, h\u00e1 agora certas autoras e autores que est\u00e3o a reivindicar isso mesmo como Layla Mart\u00ednez. Essa capacidade de sonhar futuros poss\u00edveis. E \u00e9 bom voltarmos a acreditar em utopias porque tudo o que nos chega s\u00e3o distopias. Os produtos culturais que nos chegam s\u00e3o isso. Agora saiu uma nova s\u00e9rie na Netflix que \u00e9 uma distopia em que h\u00e1 que lutar uns contra os outros&#8230;Ou seja, vamos imaginar futuros em que as coisas sejam melhores, em que haja solidariedade.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Achas que estas distopias servem para distanciar-nos\u2026<br><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;sim, para sustentar o sistema. Para al\u00e9m disso, nos \u00faltimos tempos h\u00e1 uma quantidade brutal deste tipo de produtos culturais. E agora com a pandemia parece que se p\u00f4s o foco nisso. Que as pessoas v\u00e3o cada uma por si, que s\u00e3o egoistas, mas, claro, depois de 25 anos de neoliberalismo quando chega uma pandemia n\u00e3o esperes que as pessoas apresentem a sua melhor cara. Se tivessemos recebido outra educa\u00e7\u00e3o e se imaginassemos outro futuro ou outra sociedade&#8230;Mas tamb\u00e9m houve bons comportamentos. Houve ajuda entre vizinhos, reconheceu-se o trabalho dos trabalhadores da sa\u00fade, muitos jovens passaram a dar apoio a idosos que n\u00e3o conseguiam sair de casa. O problema \u00e9 que o que se d\u00e1 destaque \u00e9 a tudo o que \u00e9 mau. Atrevamo-nos a sonhar e a pensar em futuros poss\u00edveis.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dur\u00edssimo o que digo mas n\u00f3s at\u00e9 nos sentimos de alguma forma privilegiados por termos tempo para ler, para estudar, para reunirmos. Estamos em tempos em que a milit\u00e2ncia quase que se converteu num privil\u00e9gio. Muita gente tem de trabalhar 14 horas ao dia. N\u00e3o t\u00eam for\u00e7a nem tempo. A din\u00e2mica neoliberal do individualismo j\u00e1 est\u00e1 estabelecida. \u00c9 que n\u00e3o se trata s\u00f3 de ganhar elei\u00e7\u00f5es. Como desmontas um sistema cultural que te diz que deves pensar em ti, que votar chega e que depois pensem por ti? \u00c9 que nem eleitoralmente h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o. Cerca de 35% n\u00e3o vota e n\u00e3o s\u00e3o ricos. Eu n\u00e3o digo que as institui\u00e7\u00f5es e as elei\u00e7\u00f5es sejam a solu\u00e7\u00e3o mas at\u00e9 isto \u00e9 um drama.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Anda tudo demasiado depressa. Vivemos na sociedade do imediato, na sociedade Glovo [aplica\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 Uber]. Quero uma pizza e tenho-a em cinco minutos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E isso intensificou-se com a pandemia.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, outra coisa que acontece com esta coisa de pensar futuros \u00e9 que quando h\u00e1 vit\u00f3rias n\u00e3o sabemos sabore\u00e1-las e valoriz\u00e1-las. H\u00e1 pouco tempo, os oper\u00e1rios da Tubacex [produ\u00e7\u00e3o de tubagens] depois de uma greve indefinida de quase oito meses ganharam. Tamb\u00e9m a luta do t\u00e1xi contra a Uber em Barcelona. E \u00e0s vezes vai tudo t\u00e3o depressa, hoje h\u00e1 uma pol\u00e9mica e no dia seguinte essa pol\u00e9mica parece que foi h\u00e1 mil anos e j\u00e1 estamos com outro tema. Por isso \u00e9 que acho que temos de saborear, valorizar e dar a conhecer as nossas vit\u00f3rias. Temos de ter tempo para assimilar as vit\u00f3rias e dizer \u2018olha, as greves funcionam\u2019.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 um grupo em Portugal que se chama C.O.M.A. e que tem uma letra dos anos 2000 em que se canta \u201ca respira\u00e7\u00e3o \u00e9 mais lenta que as telecomunica\u00e7\u00f5es\u201d. A internet ainda n\u00e3o estava no auge e j\u00e1 se sentia a velocidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa esquerda d\u00e1 mais import\u00e2ncia \u00e0s redes sociais do que t\u00eam na verdade. As redes sociais s\u00e3o importantes para difundir, n\u00e3o para debater. Debater com a direita \u00e9 in\u00fatil. Eles s\u00e3o mais, t\u00eam mais voz, compram p\u00e1ginas, compram seguidores. E a maioria das pessoas da rua n\u00e3o participa nisso. Para al\u00e9m disso, h\u00e1 a quest\u00e3o da sa\u00fade mental. N\u00e3o sei como est\u00e1 aqui mas em Espanha, com a pandemia, as pessoas est\u00e3o muito afectadas. Depois, n\u00e3o h\u00e1 psic\u00f3logos e as redes sociais s\u00e3o um foco de problemas de sa\u00fade mental. Porque geram ansiedade, porque geram depend\u00eancia. \u00c0s vezes, achamos que o Twitter \u00e9 uma \u00e1gora p\u00fablica. N\u00e3o, n\u00e3o, \u00e9 uma empresa privada, norte-americana.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1009\" height=\"578\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5e0f5113e1d46.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5128\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5e0f5113e1d46.jpeg 1009w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5e0f5113e1d46-300x172.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5e0f5113e1d46-768x440.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5e0f5113e1d46-220x126.jpeg 220w\" sizes=\"(max-width: 1009px) 100vw, 1009px\" \/><figcaption>Fotograma de Toni Mej\u00eda e Nega no videoclip da can\u00e7\u00e3o antifascista No Pasar\u00e1n.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E h\u00e1 quem se ache activista pelo simples facto de escrever coisas no Twitter.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 outra. A\u00ed pod\u00edamos falar de tanta merda&#8230;Estas pessoas n\u00e3o conhecem os vizinhos, as associa\u00e7\u00f5es do bairro em que vivem. E isto j\u00e1 dizia o Walter Benjamin h\u00e1 um s\u00e9culo. Temos de ir mais devagar, meter o p\u00e9 no trav\u00e3o. Temos de saborear a vida porque o que temos agora n\u00e3o \u00e9 vida. \u00c9 um c\u00famulo de situa\u00e7\u00f5es super r\u00e1pidas em que n\u00e3o temos tempo para pensar e para debater. Estamos a perder a vida nestas auto-estradas da informa\u00e7\u00e3o e isso tem tradu\u00e7\u00e3o na forma como nos relacionamos com as pessoas. Tem tradu\u00e7\u00e3o nas nossas rela\u00e7\u00f5es amorosas, com os amigos.<br><\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas deixaram de se encontrar na rua. Com a pandemia, em Val\u00eancia, as restri\u00e7\u00f5es foram muito duras e aconteceu algo muito curioso. Houve um momento em que podias sair mas os caf\u00e9s estavam fechados e a \u00fanica coisa que podias fazer era passear. Era bonito porque combinava com os amigos para passear. E creio que nisso refor\u00e7\u00e1mos v\u00ednculos com amigos. Isto porque dantes combinavas alguma coisa e tinhas de consumir. Ent\u00e3o era como \u2018raios, n\u00f3s t\u00ednhamos perdido este h\u00e1bito\u2019.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Em Espanha, voc\u00eas foram censurados v\u00e1rias vezes. Sentes que o franquismo nunca se foi embora por completo?<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 frustrante. S\u00e3o j\u00e1 tantos anos e j\u00e1 passou tanto tempo da transi\u00e7\u00e3o&#8230;O pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 uma democracia completa. N\u00e3o vou dizer que \u00e9 uma ditadura porque n\u00e3o \u00e9 uma ditadura mas n\u00e3o \u00e9 uma democracia completa comparando com os pa\u00edses vizinhos. N\u00e3o \u00e9 It\u00e1lia, n\u00e3o \u00e9 Portugal e n\u00e3o \u00e9 Fran\u00e7a. N\u00e3o houve uma ruptura com o regime. Hoje deitamo-nos em ditadura e no dia seguinte acordamos democratas como se n\u00e3o tivesse acontecido nada. E estamos a falar de gente com muito poder. Gente instalada na justi\u00e7a, na pol\u00edcia, no ex\u00e9rcito&#8230;Por exemplo, o Tribunal de Ordem P\u00fablica [antigo tribunal fascista semelhante aos tribunais plen\u00e1rios em Portugal] que era um \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o brutal est\u00e1 no mesmo edif\u00edcio da Audi\u00eancia Nacional [tribunal actual para crimes pol\u00edticos e de terrorismo]. S\u00f3 mudaram a tabuleta. Tamb\u00e9m est\u00e3o os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o e, claro, as grandes fortunas que enriqueceram gra\u00e7as \u00e0 m\u00e3o de obra escrava de presos republicanos durante o franquismo.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Temos censura, temos um rapper na pris\u00e3o, o Pablo H\u00e1sel, temos as barbaridades que se fizeram no Pa\u00eds Basco e na Catalunha, aut\u00eanticas barb\u00e1ries pr\u00f3prias de ditaduras latino-americanas dos anos 70, fecharam-se jornais, censuraram-se grupos. A n\u00f3s, frequentemente, se o PP diz que n\u00e3o tocamos em tal localidade, n\u00e3o tocamos. Em Espanha, temos um ditado em que dizemos que nas fam\u00edlias ricas o filho mais velho \u00e9 posto a dirigir a empresa e o filho idiota metem-no no partido. E o filho idiota \u00e9 o que facilita todos os neg\u00f3cios da empresa atrav\u00e9s do partido e da pol\u00edtica. E idiotas temos muitos: Rajoy, Casado, Ayuso\u2026<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Uma das coisas que nos surpreende \u00e9 n\u00e3o haver em Espanha um museu como o da Resist\u00eancia e Liberdade, no Aljube, em Lisboa, que visitaste hoje.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco tempo, tiraram Franco [do Vale dos Ca\u00eddos] e olha o esc\u00e2ndalo que foi. Franco estava enterrado sobre uma das maiores valas comuns do mundo com cad\u00e1veres republicanos. Quando se constr\u00f3i um monumento \u00e0s Brigadas Internacionais ou aos republicanos, dura uma semana. Vandalizam-no logo com deputados do Vox a posar ao lado. \u00c9 um apelo \u00e0 vandaliza\u00e7\u00e3o dos monumentos anti-franquistas. Constru\u00edram ao longo de anos a ideia de que isto foi uma guerra entre irm\u00e3os, que n\u00e3o houve bons nem maus. Como \u00e9 que n\u00e3o havia bons nem maus se havia um movimento em Espanha apoiado por Hitler e Mussolini? Fizeram-se aut\u00eanticas barbaridades. O que se fez em Badajoz, o que se fez em M\u00e1laga\u2026\u2019Ah, porque os comunistas mataram dois padres\u2019, dizem alguns. S\u00f3 em Badajoz, Manolete, o famoso toureiro, toreava presos republicanos na pra\u00e7a de touros. Foi uma carnificina. Havia rios de sangue. Ah, porque agora os republicanos mataram uma freira querem apresentar isto como uma guerra entre iguais. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a avia\u00e7\u00e3o militar, sobretudo nazi, bombardeou cidades, objectivos civis. Espanha foi um campo de experi\u00eancias do fascismo para a Segunda Guerra Mundial e durante anos venderam-nos esta equidist\u00e2ncia de que foi uma luta entre irm\u00e3os. Mas que irm\u00e3os? Os fascistas n\u00e3o s\u00e3o meus irm\u00e3os. E depois tens um genocida [Franco] que tem um mausol\u00e9u de merda e \u00e9 todo um esc\u00e2ndalo quando o tiram de l\u00e1. Imagina que o Hitler estava enterrado num mausol\u00e9u e que lhe faziam homenagens todos os anos com o bra\u00e7o estendido. Era precisamente isto que acontecia no Vale dos Ca\u00eddos. Uff, j\u00e1 me estou a exaltar\u2026Ainda por cima estou no estrangeiro e isto d\u00e1-me ainda mais vergonha [risos].<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E projectos futuros do grupo?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, sac\u00e1mos um disco [<a href=\"https:\/\/youtu.be\/2P9LcTOmvs8\">Comancheria<\/a>] e fizemos uma digress\u00e3o por todo o Estado e esper\u00e1vamos pelo Ver\u00e3o, pelos festivais, e de repente chegou isto. Mas agora parece que tudo o que aconteceu antes da pandemia foi h\u00e1 mil anos. Por isso, estamos acelerados e, bom, eu n\u00e3o disse isto ainda em lado nenhum&#8230;mas vamos lan\u00e7ar o quarto \u00e1lbum da nossa carreira. Queremos ver como funciona, queremos meter mais instrumentos reais com banda, bateria, baixo.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"450\" height=\"450\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5125\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd.jpeg 450w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd-150x150.jpeg 150w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd-300x300.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd-100x100.jpeg 100w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/comancheria-cd-180x180.jpeg 180w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption>\u00daltimo \u00e1lbum de Los Chikos del Maiz.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E v\u00e3o ter convidados?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Menos, no outro tivemos muitos convidados mas neste menos. Isto vai ser um trabalho mais pequeno mas tamb\u00e9m n\u00e3o vos quero contar porque ainda estamos a construir tudo isto. Mas o que, sim, vos vou dizer \u00e9 como se vai chamar. Um exclusivo para A Voz do Oper\u00e1rio [risos]. Vai chamar-se Yes Future.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porqu\u00ea esse nome?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Por causa do lema punk No Future. Tem tudo a ver com aquilo de que fal\u00e1vamos antes de imaginar utopias. Se lutamos, h\u00e1 futuro, se ficarmos de bra\u00e7os cruzados, vamos continuar na merda. O objectivo \u00e9 dar um pouco a volta ao lema punk \u2018no future\u2019, muito dist\u00f3pico e nihilista, muito individualista e depressivo. E para depressiva j\u00e1 temos a realidade. Por isso, Yes Future.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image0-1-min-3-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5139\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image0-1-min-3-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image0-1-min-3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image0-1-min-3-768x576.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/image0-1-min-3-220x165.jpeg 220w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nega \u00e9 o nome art\u00edstico de Ricardo Romero, um dos mais conhecidos rappers do outro lado da fronteira. \u00c9 MC no grupo Los Chikos del Maiz, ao lado de Toni Mej\u00eda e do Dj Plan B. Alvos de amea\u00e7as da extrema-direita, j\u00e1 viram v\u00e1rios concertos proibidos pelas autoridades espanholas. 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