{"id":5104,"date":"2021-10-10T22:46:23","date_gmt":"2021-10-10T22:46:23","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5104"},"modified":"2021-11-02T12:51:35","modified_gmt":"2021-11-02T12:51:35","slug":"a-luta-que-forjou-a-voz-do-operario-ha-142-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/10\/a-luta-que-forjou-a-voz-do-operario-ha-142-anos\/","title":{"rendered":"A luta que forjou A Voz do Oper\u00e1rio h\u00e1 142 anos"},"content":{"rendered":"\n<p>O jornal A Voz do Oper\u00e1rio celebra no dia 11 de outubro 142 anos. \u00c9 quase s\u00e9culo e meio de hist\u00f3ria a dar voz \u00e0 classe trabalhadora. Centenas de mulheres e homens fazem parte desta constru\u00e7\u00e3o coletiva, do mais antigo jornal oper\u00e1rio portugu\u00eas em circula\u00e7\u00e3o. Somos passado, mas tamb\u00e9m futuro. Queremos ir onde outros n\u00e3o v\u00e3o, falar do que outros calam.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi pelas m\u00e3os de oper\u00e1rios tabaqueiros que este jornal nasceu h\u00e1 142 anos atr\u00e1s, em Outubro de 1879, num beco de Alfama.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudioso e promotor do associativismo popular, Costa Goodolfim escrevia nesse tempo que&nbsp;<em>\u201ca classe dos oper\u00e1rios do tabaco \u00e9 de todas assim como as dos oper\u00e1rios das minas a mais desgra\u00e7ada. Os sal\u00e1rios s\u00e3o pequen\u00edssimos, a mat\u00e9ria em que trabalham danifica-lhes horrorosamente a sa\u00fade. Contemple-se a cara desses m\u00edseros e ver-se-h\u00e1 a sombra p\u00e1lida da morte debuxada nas suas faces. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mais do que entrar numa f\u00e1brica e ver-se-h\u00e1 como aquele p\u00f3 subtil nos sufoca, a dificuldade com que respiramos\u201d<\/em>&nbsp;[Costa Goodolfim (1876),&nbsp;<em>A Associa\u00e7\u00e3o<\/em>, p.126].<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o estava apenas nos baixos sal\u00e1rios e no p\u00f3 do tabaco. Um cronista do antigo movimento oper\u00e1rio, C\u00e9sar Nogueira, aponta que nos seus locais de trabalho os oper\u00e1rios tabaqueiros&nbsp;<em>\u201csofriam a mais crua explora\u00e7\u00e3o, v\u00edtimas de multas, horas excessivas de trabalho, maus tratos, pouca higiene e os aprendizes castigos corporais. Uma vida infernal\u201d<\/em>. Foi para se defenderem dessa&nbsp;<em>\u201cdeplor\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;que&nbsp;<em>\u201csurgiu a ideia de publicar um jornal\u201d<\/em>&nbsp;[<em>Rep\u00fablica<\/em>, 13\/10\/1962, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Por ocasi\u00e3o do 10\u00ba anivers\u00e1rio d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, em 1889, Costa Goodolfim v\u00ea uma esperan\u00e7a:&nbsp;<em>\u201co movimento oper\u00e1rio apresenta-se cada dia mais imponente, afirmam-se os direitos, tracejam-se planos de vast\u00edssimo alcance social\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu ver,&nbsp;<em>\u201cdois grandes elementos t\u00eam contribu\u00eddo para estas conquistas; a associa\u00e7\u00e3o e o jornal. A associa\u00e7\u00e3o que \u00e9 a for\u00e7a, o jornal que \u00e9 a voz, que vai chamando \u00e0 vida activa todos esses elementos que estavam inertes\u201d<\/em>. E aponta que a classe oper\u00e1ria&nbsp;<em>\u201ccompreendendo esta verdade tem procurado manter na imprensa o seu lugar, com jornais exclusivamente seus, e em que expande as suas doutrinas\u201d<\/em>. E&nbsp;<em>\u201cse todos os oper\u00e1rios compreendessem t\u00e3o nitidamente o poder que vem da solidariedade\u201d<\/em>, o seu movimento&nbsp;<em>\u201cteria alcan\u00e7ado j\u00e1 maiores vantagens\u201d<\/em>&nbsp;[<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, 13\/10\/1889, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Goodolfim faleceu, em 1911, este jornal era um seman\u00e1rio com uma tiragem de 52 mil exemplares. Estava a publicar em folhetim a primeira edi\u00e7\u00e3o em l\u00edngua portuguesa de&nbsp;<em>O Capital<\/em>&nbsp;de Marx (na vers\u00e3o resumida por Gabriel Deville). E ainda cresceu mais, atingido uma tiragem semanal de 60 mil exemplares at\u00e9 1917.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi&nbsp;<em>\u201co maior jornal oper\u00e1rio\u201d<\/em>&nbsp;em Portugal. E para o historiador Jos\u00e9 Tengarrinha, ter\u00e1 sido nesses tempos&nbsp;<em>\u201co jornal que exerceu influ\u00eancia mais directa, mais longa e mais ampla sobre as lutas oper\u00e1rias\u201d<\/em>&nbsp;[Tengarrinha (1989),&nbsp;<em>Hist\u00f3ria da imprensa peri\u00f3dica portuguesa<\/em>, pp. 243\/4]<\/p>\n\n\n\n<p>Em Outubro de 1915, o poeta e fadista oper\u00e1rio Martinho d\u2019Assun\u00e7\u00e3o dedicou este poema \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio e ao seu redator \u00e0 \u00e9poca, Jos\u00e9 Fernandes Alves:<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mensageiro de luz<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Salv\u00e9! Salv\u00e9, jornal A Voz do Oper\u00e1rio,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que tanta luz vens dando ao povo produtor!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9s para a humilde gente um facho educador,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um poeta, um prosador, um belo doutrin\u00e1rio!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que te posso ofertar pelo teu anivers\u00e1rio,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Merecendo o teu gesto um t\u00e3o alto valor?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas que valias tu sem o teu redator,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O nosso Alves, mentor do teu vocabul\u00e1rio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Envio-lhe com afeto a minha sauda\u00e7\u00e3o,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Desejando para ti muita prosperidade,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que eu veja longo tempo a tua ilustra\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Aniquilando o mal da pobre humanidade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E conduzindo a plebe \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Preparando o alvor para a Fraternidade!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>[<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, 24\/10\/1915, p.4]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal A Voz do Oper\u00e1rio celebra no dia 11 de outubro 142 anos. \u00c9 quase s\u00e9culo e meio de hist\u00f3ria a dar voz \u00e0 classe trabalhadora. 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