{"id":5100,"date":"2021-10-10T22:44:43","date_gmt":"2021-10-10T22:44:43","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5100"},"modified":"2021-10-10T22:44:44","modified_gmt":"2021-10-10T22:44:44","slug":"rifkins-festival-woody-allen-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/10\/rifkins-festival-woody-allen-presente\/","title":{"rendered":"Rifkin\u2019s Festival: Woody Allen, presente."},"content":{"rendered":"\n<p>Com 85 anos de vida, nada a provar e pouca disponibilidade para arrumar as botas, Woody Allen regressa \u00e0 Europa que teimosamente o resgata do desprezo a que foi votado do outro lado do mar. Chegado \u00e0s paisagens id\u00edlicas de San Sebastian, escreve e realiza o 48\u00ba filme, postal citadino de encomenda, ilustrado pelas cores quentes da lente de Vittorio Storaro. Wallace Shawn \u00e9 aqui respons\u00e1vel pela habitual recria\u00e7\u00e3o da sua&nbsp;<em>persona<\/em>. Poderia at\u00e9 ser uma mulher \u2013 como&nbsp;<em>Jasmine<\/em>, a sua Blanche Dubois contempor\u00e2nea \u2013 mas, desta vez, a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 quase directa, n\u00e3o apenas pela interpreta\u00e7\u00e3o de Shawn, mas pelo n\u00famero de&nbsp;<em>monomanias<\/em>&nbsp;comuns \u00e0 personagem e realizador. Shawn interpreta Mort Rifkin, um ex-professor de cinema que acompanha a mulher, Sue (Gina Gershon), ao festival de San Sebastian, suspeitando do seu interesse rom\u00e2ntico no jovem realizador (Louis Garrell) que ela promove. A trama, sem grandes surpresas, tem mesmo reminisc\u00eancias do filme anterior,&nbsp;<em>A Rainy Day in New York<\/em>, cujos protagonistas poderiam ser filhos de Mort e Sue. \u00c9 o mote para uma primeira observa\u00e7\u00e3o: O conjunto de neuroses que distingue o cinema de Woody Allen ser\u00e1 explanado, independentemente do enredo proposto, pelo alter-ego de servi\u00e7o, quase sempre um judeu intelectual, hipocondr\u00edaco e periclitante, agn\u00f3stico convicto em busca do sentido da vida, angustiado e inconformado com a ideia da morte. Em contraponto, a figura feminina de temperamento forte e emocionalmente distante, \u00e9 o ideal que a todo o momento lhe escapa. Como condimentos, a cr\u00edtica social ao snobismo dos meios art\u00edsticos, o pessimismo, uma cinefilia devota e uma aura de melancolia, a espa\u00e7os rompida por uma ironia fina e tr\u00e1gico-c\u00f3mica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se muitos destes ingredientes est\u00e3o presentes em&nbsp;<strong>Rifkin\u2019s Festival<\/strong>, dificilmente se misturam para produzir um resultado coeso. O filme \u00e9 sobretudo centrado no mundo on\u00edrico de Rifkin, em que mem\u00f3rias e desejos s\u00e3o convertidos em cenas dos seus filmes de elei\u00e7\u00e3o. Assim o filme se passeia, a preto-e-branco, pelas obras de Truffaut, Bergman ou Fellini (homenageando o cinema cl\u00e1ssico), regressando ao ambiente do festival de San Sebastian (satirizando o&nbsp;<em>novo<\/em>&nbsp;cinema), e uma vez mais ao passado que \u00e9 simultaneamente futuro: na recria\u00e7\u00e3o do jogo de xadrez na praia, a mais ic\u00f3nica cena de&nbsp;<em>O S\u00e9timo Selo&nbsp;<\/em>(1963), a morte personificada por Christoph Waltz oferece conselhos para a vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, no texto, uma indol\u00eancia ineg\u00e1vel do ponto de vista da coer\u00eancia interna: um gui\u00e3o desconectado e personagens sem espessura, apesar da presen\u00e7a, desperdi\u00e7ada, de Gershon e Garrell. Mais do que recontar a hist\u00f3ria de amor, atribula\u00e7\u00e3o e desencontro que tantas vezes escreveu e dirigiu, Woody Allen parece ter aproveitado a ocasi\u00e3o e o financiamento (que lhe v\u00e3o escasseando) para voltar a filmar, falar de si mesmo e falar de cinema (ser\u00e3o das suas actividades favoritas), talvez com uma certa neglig\u00eancia, talvez um resqu\u00edcio da amargura das pol\u00e9micas recentes, talvez pouca inspira\u00e7\u00e3o, mas ainda grande vontade. Apesar das limita\u00e7\u00f5es, o filme conserva um valor m\u00ednimo garantido presente numa marca autoral j\u00e1 gravada na hist\u00f3ria do cinema, com todas as suas particularidades, bastando dois minutos de ecr\u00e3 para que percebamos de que(m) se trata: na selec\u00e7\u00e3o da banda-sonora, na narra\u00e7\u00e3o, na hist\u00f3ria, nos trejeitos dos actores, na fotografia, na fonte e fundo preto dos cr\u00e9ditos iniciais. De quantos cineastas poderemos dizer o mesmo? Consideremos, por isso, estar perante um produto de intervalo entre grandes filmes, um dispositivo frequente na sua longa carreira. Confiando nesse grande filme que vir\u00e1, alegramo-nos, por ora, com o mon\u00f3logo de um velho cin\u00e9filo judeu, escaparate dos seus tormentos existenciais e declara\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a \u2013 como se nos dissesse:&nbsp;<em>Apesar de tudo, estou ainda aqui.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 85 anos de vida, nada a provar e pouca disponibilidade para arrumar as botas, Woody Allen regressa \u00e0 Europa que teimosamente o resgata do desprezo a que foi votado do outro lado do mar. 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