{"id":5074,"date":"2021-10-10T22:24:40","date_gmt":"2021-10-10T22:24:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5074"},"modified":"2021-10-10T22:24:42","modified_gmt":"2021-10-10T22:24:42","slug":"lojas-montras-e-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/10\/lojas-montras-e-memorias\/","title":{"rendered":"\u2026lojas, montras e mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\n<p>No \u00faltimo n\u00famero de <em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, o artigo publicado sob o t\u00edtulo\u00a0<em>Uma cidade de montras vazias<\/em>\u00a0fez chegar recorda\u00e7\u00f5es a muitos velhos e possivelmente muitas l\u00e1grimas ao canto dos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para aqueles que j\u00e1 contam dezenas de anos de idade vieram ter com eles as montras da Kermesse de Paris, junto \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o do Rossio, que vendia brinquedos ou da Pastelaria Su\u00ed\u00e7a, no Rossio e cujas montras estavam repletas de bolos de todos os feitios e sabores. Haver\u00e1 alguns que ainda ter\u00e3o na mem\u00f3ria a \u201cguerra das montras\u201d quando, durante a Segunda Guerra Mundial, Aliados e nazis disputavam montras para l\u00e1 exibirem propaganda dos seus feitos. Ganhava em arrog\u00e2ncia a Alemanha que dispunha da melhor montra de Lisboa, na esquina da rua do Carmo com a rua Garrett, mas maior aten\u00e7\u00e3o despertava entre a popula\u00e7\u00e3o aquela que a Inglaterra tinha na vitrine de uma cervejaria da rua da Palma, logo no princ\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizia um velho, daqueles que se juntam no jardim do meu bairro: \u2026ver montras d\u00e1 para uma pessoa sonhar, mesmo que n\u00e3o compre nada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pensaria assim o respons\u00e1vel por uma grande cadeia de supermercados num col\u00f3quio h\u00e1 tempos realizado em Lisboa sobre Urbanismo Comercial. Ao ser abordado o papel dinamizador da vida de rela\u00e7\u00e3o que se estabelece em qualquer espa\u00e7o p\u00fablico onde haja \u201clojas com montra para a rua\u201d, opinou ele que o papel do supermercado n\u00e3o era vender sonhos mas sim vender aquilo de que as pessoas precisavam e, se poss\u00edvel, vender aquilo de que as pessoas n\u00e3o precisassem e para isso elas deveriam ser \u201cfechadas\u201d em edif\u00edcios sem montras e as compras deveriam ser automatizadas, sem a necessidade de entrar numa loja, cumprimentar ou ser cumprimentado por quem o atendesse ou de estabelecer qualquer tipo de di\u00e1logo com quem inclusivamente orientasse a escolha. Note-se que, dizem os dicion\u00e1rios, atender significa dar aten\u00e7\u00e3o, ouvir, responder, cuidar ou mostrar a mercadoria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria necess\u00e1rio s\u00f3 olhar, estender o bra\u00e7o, encher o carrinho, pagar e sair. Um algoritmo de grande simplicidade onde s\u00f3 caberia o \u201cpreciso, n\u00e3o preciso mas est\u00e1 em promo\u00e7\u00e3o\u201d. Compro.<\/p>\n\n\n\n<p>Descaiu-se ele, j\u00e1 fora do \u00e2mbito do col\u00f3quio, em conversa informal, ao revelar alguns estratagemas para atingir aqueles fins: \u2026a carne e outros bens essenciais para a alimenta\u00e7\u00e3o vendem-se no fundo da grande superf\u00edcie, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada e depois do comprador ter percorrido o maior n\u00famero poss\u00edvel de metros lineares de prateleiras; os bens que forneceriam maiores lucros \u00e0 empresa deveriam estar \u00e0 altura dos olhos e os chocolates, as guloseimas e a \u201cliteratura de centro comercial\u201d junto \u00e0s caixas, enquanto as pessoas esperam e olham \u00e0 sua volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m interveniente no referido col\u00f3quio estranhou que uma cadeia implantasse um supermercado num bairro de iniciativa municipal onde o n\u00edvel de rendimentos era relativamente baixo em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da cidade, ao que ele respondeu que a sua atividade contemplava a classe C, definindo assim a fam\u00edlia alvo representativa dessa classe:<\/p>\n\n\n\n<p>fazem compras ao s\u00e1bado e para toda a semana; para eles fazer compras \u00e9 um ato simultaneamente necess\u00e1rio e l\u00fadico; \u00e9 constitu\u00edda por um pai, uma m\u00e3e, dois filhos de sexos diferentes, a av\u00f3 ou a sogra; e, por necessidade ou op\u00e7\u00e3o, destinam grande parte dos seus rendimentos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois acrescentou que a ger\u00eancia da cadeia de distribui\u00e7\u00e3o a que pertencia nunca calendarizava a abertura de uma grande superf\u00edcie em ano de elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas e isso porque tinha a no\u00e7\u00e3o de que essa abertura estiolaria todo o com\u00e9rcio tradicional num raio de 500 a 600 metros, provocaria fal\u00eancias, encerramentos, desemprego e sentimentos de revolta em alguns setores da popula\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do que afetaria o bom nome da empresa e abalaria o valor eleitoral do executivo que licenciara o empreendimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que as grandes superf\u00edcies comerciais vieram para ficar. Facilitam a vida a grande parte da popula\u00e7\u00e3o, mas no bairro onde eu vivo todos temos saudades da leitaria do senhor Z\u00e9, da pequena livraria do senhor Barata, quando era pequena ou da mercearia do senhor Pacheco que vendia arroz e bacalhau e acompanhava Herm\u00ednia Silva \u00e0 guitarra (anda Pacheco, dizia ela\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 parte do saudosismo n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel a coexist\u00eancia das grandes distribuidoras e do pequeno com\u00e9rcio? Talvez a resposta esteja num planeamento coerente e integrado onde tanto caibam os abastecimentos, como a cultura. Porque a conveni\u00eancia \u00e9 um ato de cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo n\u00famero de A Voz do Oper\u00e1rio, o artigo publicado sob o t\u00edtulo\u00a0Uma cidade de montras vazias\u00a0fez chegar recorda\u00e7\u00f5es a muitos velhos e possivelmente muitas l\u00e1grimas ao canto dos olhos. 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