{"id":5052,"date":"2021-10-08T15:29:25","date_gmt":"2021-10-08T15:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5052"},"modified":"2021-10-13T17:02:51","modified_gmt":"2021-10-13T17:02:51","slug":"ano-escolar-abre-te","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/10\/08\/ano-escolar-abre-te\/","title":{"rendered":"Ano Escolar, abre-te"},"content":{"rendered":"\n<p>No hemisf\u00e9rio norte-ocidental, o ritual repete-se todos os anos em setembro. Os nossos espa\u00e7os educativos da Voz do Oper\u00e1rio cumpriram-no. Ainda que, em tempos normais, os pais e as m\u00e3es t\u00eam a oportunidade de acompanhar de perto o projeto de aprendizagem dos seus educandos, h\u00e1 aquele primeiro dia. <\/p>\n\n\n\n<p>Porque \u201cabrir\u201d o ano letivo? Para assinalar o projeto pol\u00edtico que \u00e9 a escola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de certa idade as crian\u00e7as s\u00e3o obrigadas a percorrer um curr\u00edculo. Frequentemente ainda antes s\u00e3o obrigadas \u00e0 escola. As sociedades baseadas na venda do trabalho, n\u00e3o deixam muitas op\u00e7\u00f5es para os progenitores quando \u00e9 para cuidar da prole.<\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da escola e a escolaridade obrigat\u00f3ria associada foi sempre uma decis\u00e3o pol\u00edtica. Conhecemos as hist\u00f3rias dos antigos fil\u00f3sofos, mais tarde dos te\u00f3logos. Escravizados ou livres, eram preceptores das crian\u00e7as de fam\u00edlias abastadas para que contactem com o conhecimento e o saber dispon\u00edvel. Simultaneamente surgiam locais menores de instru\u00e7\u00e3o para as restantes crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m era assim no s\u00e9culo XV. Enquanto os filhos de nobres e patr\u00edcios acediam ao conhecimento autorizado, havia espa\u00e7os de instru\u00e7\u00e3o para outros. Mestres-escola pouco letrados tinham duas tarefas: incutir bons modos e obedi\u00eancia, e cuidar da educa\u00e7\u00e3o religiosa. Na Europa dividida entre crist\u00e3os cat\u00f3licos e reformadores, a f\u00e9 era assunto de vida e morte. E o Poder secular bem como o religioso, seja cat\u00f3lico, seja reformador, tinha na escola o meio para controlar a popula\u00e7\u00e3o nas quest\u00f5es de f\u00e9 e moral.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se praticava nas escolas era de t\u00e3o baixo n\u00edvel que o te\u00f3logo Erasmo questionava abertamente o ensino administrado na pequena escola, t\u00e3o mais pobre do que no semin\u00e1rio. Para escolas serem mais do que meros locais de castigo tinham que ter qualidade. Mestres-escola deveriam ter conhecimento das coisas da natureza e da natureza humana. Toda a escola deveria ser p\u00fablica e certamente n\u00e3o era p\u00fablica se n\u00e3o aceitasse todo o p\u00fablico. Nessas escolas os mestres acompanhariam a aprendizagem dos alunos, oferecendo&nbsp;<em>nec multa sed optima<\/em>, n\u00e3o demasiadas coisas, mas sempre da melhor maneira, dizia ele. Muitos dos escritos do c\u00f3nego humanista, tolerante com os crist\u00e3os n\u00e3o cat\u00f3licos, mas n\u00e3o com a religi\u00e3o judaica, foram colocados no \u00edndice de livros proibidos da Igreja Cat\u00f3lica&nbsp;<em>donec corrigatur<\/em>, at\u00e9 estarem certos. E a sua influ\u00eancia notara-se em Col\u00e9gios Superiores, como o&nbsp;<em>Col\u00e9gio Trilingue&nbsp;<\/em>da Universidade de Lovaina, mas n\u00e3o muito nas escolas das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados do s\u00e9culo XVII, Ian Amos Comenius constatava-o mais uma vez: as pequenas escolas que reuniam crian\u00e7as dos 4 aos 10 anos mal as levavam a soletrar. Muitas nem sequer chegavam a ler, ficando pela recita\u00e7\u00e3o dos textos edificantes que lhes eram impostos. Comenius defendeu uma reorganiza\u00e7\u00e3o da escola, com abordagem faseada ao conhecimento. Seis anos de escola materna, seis de escola na l\u00edngua vern\u00e1cula, seis na l\u00edngua da ci\u00eancia. Assim, garantiria&nbsp;<em>Omnis Omnia Omino.&nbsp;<\/em>Todos seriam profundamente familiarizados com tudo. Comenius produziu livros bilingues e ilustrados para crian\u00e7as e jovens:&nbsp;<em>O Universo Explicado<\/em>&nbsp;em texto e imagem. Era bispo protestante. O conhecimento descrito n\u00e3o inclu\u00eda as teses de Cop\u00e9rnico ou Galileu. Mas os livros eram bem mais informativos do que os pequenos e entediantes abeced\u00e1rios promovidos pelo Poder eclesi\u00e1stico, tanto nas escolas cat\u00f3licas como protestantes. Contudo, durante muito tempo os seus livros foram mais utilizadas nas col\u00f3nias de pot\u00eancias europeias protestantes do que na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje o curr\u00edculo, ao qual o Poder e a escolaridade obrigam, abrange melhor o conhecimento do que h\u00e1 400 anos. Mas n\u00e3o \u00e9 ideal. Vejamos s\u00f3 como a Hist\u00f3ria tem as suas vers\u00f5es espec\u00edficas em cada Estado ou Na\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje fala-se tamb\u00e9m da escola que d\u00e1 voz ao aluno. Muitas escolas pretendem que o aluno d\u00ea voz ao que o adulto deseja. Algumas outras, como a Voz do Oper\u00e1rio, assentam o seu projeto educativo na aprendizagem dialogada. As crian\u00e7as t\u00eam voz para co-construir criticamente o seu curr\u00edculo com os adultos que as acompanham&nbsp;<em>nec multa sed optima<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A escola \u00e9 um projeto pol\u00edtico da sociedade na qual ela se insere. A hist\u00f3ria mostra que o acesso ao conhecimento n\u00e3o \u00e9 dado. \u00c9 conquistado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No hemisf\u00e9rio norte-ocidental, o ritual repete-se todos os anos em setembro. Os nossos espa\u00e7os educativos da Voz do Oper\u00e1rio cumpriram-no. 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