{"id":5029,"date":"2021-09-07T14:27:54","date_gmt":"2021-09-07T14:27:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5029"},"modified":"2021-10-10T22:53:18","modified_gmt":"2021-10-10T22:53:18","slug":"a-historia-que-nao-vem-no-rambo-3%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/a-historia-que-nao-vem-no-rambo-3%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria que n\u00e3o vem no Rambo 3\ufeff"},"content":{"rendered":"\n<p>As velhas t\u00e1cticas imperialistas dos Estados Unidos e seus aliados regressam como novas desgra\u00e7as, quase como um eterno retorno, um pouco por todo o mundo. A f\u00f3rmula imperialista de inger\u00eancia pol\u00edtica, asfixia econ\u00f3mica e interven\u00e7\u00e3o militar, que se traduz em ocupa\u00e7\u00f5es ou agress\u00f5es de diversas formas tem como elemento comum a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida dos que vivem nos pa\u00edses intervencionados ou sancionados. Em nenhum momento da hist\u00f3ria beligerante dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, os povos dos territ\u00f3rios agredidos viram a sua vida melhorar ou os seus direitos progredirem. <\/p>\n\n\n\n<p>Vinte anos depois de uma ocupa\u00e7\u00e3o militar e pol\u00edtica, realizada inicialmente sob dois grandes pretextos: suprimir as for\u00e7as terroristas ligadas \u00e0 Al-Qaeda (no seguimento dos atentados de 11 de Setembro de 2001) presentes no territ\u00f3rio Afeg\u00e3o e p\u00f4r fim ao regime taliban; o Afeganist\u00e3o est\u00e1 hoje integralmente \u00e0 merc\u00ea desse regime e continua, ao que tudo indica, a ser um ber\u00e7o e sede de treino de organiza\u00e7\u00f5es ligadas ao terrorismo fundamentalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A NATO e v\u00e1rios Estados, entre os quais Portugal, desempenharam um papel importante no apoio \u00e0 pol\u00edtica de agress\u00e3o dos EUA. Ao longo de duas d\u00e9cadas, sucessivos governos portugueses mostraram a sua servid\u00e3o ao imp\u00e9rio, alinhando na ocupa\u00e7\u00e3o militar do territ\u00f3rio. Essa pol\u00edtica, uma vez mais, mostrou ser completamente incapaz de resolver qualquer dos problemas que inicialmente lhe servem de justifica\u00e7\u00e3o. Nem foram eliminadas as c\u00e9lulas de \u201cterroristas\u201d, nem foi terminado o regime taliban. <\/p>\n\n\n\n<p>Importaria talvez regressar um pouco ao final dos anos 70 do s\u00e9culo passado, para compreender a g\u00e9nese do poder b\u00e9lico e pol\u00edtico de alguns grupos isl\u00e2micos radicais: ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, que origina a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Afeganist\u00e3o e concretiza direitos pol\u00edticos e econ\u00f3micos para toda a popula\u00e7\u00e3o, incluindo as mulheres e as minorias, bem como determina uma reforma agr\u00e1ria e inicia a planifica\u00e7\u00e3o da economia, o Afeganist\u00e3o aproxima-se mais da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica pol\u00edtica e economicamente. Em 1978, na sequ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 assinado o terceiro tratado de amizade entre o Afeganist\u00e3o e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, prevendo coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f3mica e militar. Esse tratado \u00e9 um alerta para a perspectiva de dom\u00ednio global estadunidense, particularmente tendo em conta que o anterior governo afeg\u00e3o era mais pr\u00f3ximo de Washington que de Moscovo. Esse estado de alerta leva os EUA a armar, financiar e promover as for\u00e7as mais retr\u00f3gradas, apostando no fundamentalismo religioso e no anti-comunismo, para dar combate ao novo governo democr\u00e1tico. Enquanto o povo afeg\u00e3o constru\u00eda a sua democracia, os EUA alimentavam um ex\u00e9rcito religioso de chamados \u201cfreedom fighters\u201d, os Mujahideen. Se \u00e9 verdade que o Rambo 3 n\u00e3o \u00e9 uma fonte hist\u00f3rica integralmente fi\u00e1vel, n\u00e3o deixa de ser curioso verificar a forma como esses guerrilheiros s\u00e3o mostrados nesse filme, deixando um documento sobre como os EUA financiaram, armaram e treinaram os grupos que mais tarde viriam a dominar o Afeganist\u00e3o e a fazer o pa\u00eds mergulhar num novo per\u00edodo obscurantista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica interv\u00e9m militarmente no territ\u00f3rio afeg\u00e3o ao abrigo do tratado de amizade e coopera\u00e7\u00e3o assinado em 1978, como forma de ajudar o legal governo do pa\u00eds a superar os ataques dos grupos terroristas financiados pelos EUA. Em 1989 a URSS retira, mas mant\u00e9m o apoio pol\u00edtico ao Afeganist\u00e3o. Em 1992, tr\u00eas anos mais tarde, os Mujahideen tomam o poder e formam governo. O povo afeg\u00e3o resistiu aos Mujahideen, o governo e o ex\u00e9rcito resistiram, apesar do apoio dos EUA aos terroristas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A retirada militar dos EUA, em 2021 demonstra um cen\u00e1rio completamente diferente: o povo afeg\u00e3o n\u00e3o resistiu e o governo capitulou imediatamente. N\u00e3o ser\u00e1 um mero acaso: em 29 de Fevereiro de 2020, o Governo dos EUA e os Taliban assinam um Acordo \u2013 o Acordo de Doha \u2013 em que os Estados Unidos, pela m\u00e3o de Trump, apenas exigem a retirada segura do seu pessoal militar e diplom\u00e1tico, sem quaisquer outras exig\u00eancias pol\u00edticas aos Taliban. A concretiza\u00e7\u00e3o da retirada viria a ditar o regresso autom\u00e1tico dos Taliban ao poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante, depois de fazer essa contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana e do surgimento das for\u00e7as mais anti-democr\u00e1ticas atrav\u00e9s dos Mujahideen e dos Taliban, fazer nova avalia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o no terreno tendo em conta os desenvolvimentos presentes e pr\u00f3ximos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A nova avalia\u00e7\u00e3o implicar\u00e1 n\u00e3o tecer conclus\u00f5es precipitadas sobre a regi\u00e3o e sobre o futuro do Afeganist\u00e3o e ter a lucidez para ver al\u00e9m dos jornais e telejornais. Nem os Taliban de hoje s\u00e3o exactamente os Mujahideen de ontem, nem a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 integralmente resolvida. O posicionamento geoestrat\u00e9gico dos pa\u00edses vizinhos, bem como dos pa\u00edses do G7, n\u00e3o ser\u00e1 totalmente alheio ao futuro do Afeganist\u00e3o. A campanha medi\u00e1tica em curso, de valoriza\u00e7\u00e3o sem fundamento da presen\u00e7a norte-americana no territ\u00f3rio e de condena\u00e7\u00e3o sem elementos concretos do regime taliban visa no essencial criar as condi\u00e7\u00f5es para a manuten\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio imperialista da regi\u00e3o e para manter afastado o Afeganist\u00e3o da R\u00fassia e da China, ao mesmo tempo que, pela calada, o G7 prepara o reconhecimento do regime taliban. O futuro do Afeganist\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 determinado, como o de nenhum povo, mas \u00e9 certo que s\u00f3 livre de inger\u00eancias poder\u00e1 ser o seu povo a construir os seus destinos, o seu futuro, nos seus termos e em paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As velhas t\u00e1cticas imperialistas dos Estados Unidos e seus aliados regressam como novas desgra\u00e7as, quase como um eterno retorno, um pouco por todo o mundo. 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