{"id":5023,"date":"2021-09-07T14:22:14","date_gmt":"2021-09-07T14:22:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5023"},"modified":"2021-09-13T09:59:03","modified_gmt":"2021-09-13T09:59:03","slug":"a-vida-e-a-obra-de-olga-prats","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/a-vida-e-a-obra-de-olga-prats\/","title":{"rendered":"A Vida e a Obra de Olga Prats"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa entre um int\u00e9rprete e um m\u00fasico. A diferen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1, por\u00e9m, no fator criativo, mas naquilo que o indiv\u00edduo carrega consigo e partilha com os outros no momento em que executa o seu instrumento. Em Portugal, durante o fascismo e logo ap\u00f3s o 25 de Abril, tivemos a felicidade de ter gente que, consciente do seu privil\u00e9gio, se disponibilizou para andar pelo pa\u00eds fora a democratizar o acesso \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos 40 ou 50 anos, uma das figuras mais importantes na divulga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica foi Olga Prats. A pianista que conviveu com Constan\u00e7a Capedeville e Fernando Lopes-Gra\u00e7a, a pianista que estimulou o conhecimento dos compositores portugueses e que deixou uma marca perene em todos os alunos que com ela se cruzaram no Conservat\u00f3rio Nacional e na Escola Superior de M\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida num contexto de privil\u00e9gio, Prats confrontou-se com o dilema entre fam\u00edlia e carreira, tal como algumas (poucas) mulheres do seu tempo, incluindo a sua m\u00e3e, que abdicara de uma carreira de concertista. Apesar de a sua vida \u00edntima ter conhecido grandes sobressaltos, a pianista resistiu \u00e0 desist\u00eancia e persistiu na pedagogia, na divulga\u00e7\u00e3o e nos concursos e concertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos, assim, ao nosso ponto inicial: h\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa entre um int\u00e9rprete e um m\u00fasico. Olga Prats foi uma divulgadora at\u00e9 no tipo de pe\u00e7as que selecionava para os seus concertos ou para os seus discos. Veja-se o caso da s\u00e9rie de concertos \u00e0 volta de Astor Piazzola ou o seu disco&nbsp;<em>Piano Singular<\/em>&nbsp;(2007), onde nos proporciona uma viagem de intertextualidades que nos ir\u00e3o deixar uma pista sobre a hist\u00f3ria da m\u00fasica nacional e internacional. Prats nega quase a ideia de erudi\u00e7\u00e3o (essa ideia cada vez mais anacr\u00f3nica de m\u00fasica erudita, de cultura classista), acreditando que a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cultura passa por garantir que todos t\u00eam acesso aos mesmos c\u00f3digos de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem nasce numa casa de m\u00fasicos, sem ter de se preocupar com o acesso dos outros aos bens culturais, este \u00e9 um gesto revolucion\u00e1rio. Olga Prats percorreu o pa\u00eds proporcionando concertos pedag\u00f3gicos. A pianista deu verdadeiras aulas em diversos contextos e em circunst\u00e2ncias muito diferentes, fosse a solo, fosse com o Opus Ensemble, conjunto de c\u00e2mara que criou com o obo\u00edsta Bruno Pizzamiglio, a violetista Ana Bela Chaves e o contrabaixista Alejandro Erlich Oliva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da sua linha pedag\u00f3gica, Olga Prats foi respons\u00e1vel pelo conhecimento mais profundo que temos hoje dos trabalhos dos compositores portugueses, t\u00e3o desprezados pelos pares da artista. \u00c9 ela a grande respons\u00e1vel pela recupera\u00e7\u00e3o do report\u00f3rio de Constan\u00e7a Capedeville, por exemplo, mas n\u00e3o s\u00f3. Ainda em 2021 havia lan\u00e7ado um disco de tributo a Joly Braga Santos, no qual nos aparece sem ostenta\u00e7\u00e3o, sem virtuosismos desnecess\u00e1rios, cumprindo o papel de divulgadora e n\u00e3o de protagonista de uma hist\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 sua. Tamb\u00e9m com Fernando Lopes-Gra\u00e7a fez um trabalho de grande impacto, dando um especial relevo \u00e0s Her\u00f3icas e aos quartetos de cordas e piano.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a sua morte, \u00e9 importante recordar uma gera\u00e7\u00e3o generosa (de Lopes-Gra\u00e7a a Atalaya, passando por Victorino d\u2019Almeida) que acreditou num pa\u00eds democratizado, a come\u00e7ar na sua cultura; um pa\u00eds onde a partilha do conhecimento \u00e9 mais importante do que a ostenta\u00e7\u00e3o de um conhecimento secreto e ego\u00edsta. Com Olga Prats aprendemos tanto sobre m\u00fasica como sobre divulga\u00e7\u00e3o e aprendemos, talvez, o mais fundamental de tudo: a responsabilidade que temos na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais emancipada e livre onde n\u00e3o podemos ser meros int\u00e9rpretes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa entre um int\u00e9rprete e um m\u00fasico. 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