{"id":5006,"date":"2021-09-07T14:09:54","date_gmt":"2021-09-07T14:09:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5006"},"modified":"2021-09-07T14:09:56","modified_gmt":"2021-09-07T14:09:56","slug":"cronica-do-cao-que-mordia-a-propria-cauda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/cronica-do-cao-que-mordia-a-propria-cauda\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica do c\u00e3o que mordia a pr\u00f3pria cauda"},"content":{"rendered":"\n<p>Para o jardim do meu bairro convergem todos os dias crian\u00e7as que brincam no parque infantil e nos relvados, pessoas que passeiam os seus c\u00e3es e sobre eles conversam e velhos que jogam \u00e0s cartas nas mesas que l\u00e1 h\u00e1 ou que em grupos formulam opini\u00f5es sobre o que se passa \u00e0 sua volta.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dias um desses grupos observava um c\u00e3o que em voltas e reviravoltas tentava morder a sua pr\u00f3pria cauda, talvez para se ver livre de qualquer inc\u00f3modo que o atormentasse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diz um velho, sabe-se l\u00e1 por qual associa\u00e7\u00e3o de ideias: parece o \u201csistema\u201d que anda baralhado a querer ver-se livre de alguns dos seus males\u2026.sem mudar nada de essencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem assim falava era tido como leitor ass\u00edduo e comentador esclarecido, mas os olhares que todos os outros lhe lan\u00e7aram obrigou-o a juntar esclarecimentos, o que ele fez dizendo: temos assistido, nestes \u00faltimos tempos a um fen\u00f3meno curioso: pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o eram reconhecidas como honestas e \u00fateis \u00e0 sociedade, louvadas e condecoradas, s\u00e3o agora publicamente interrogadas no f\u00f3rum mais alto da Na\u00e7\u00e3o, detidas pelas pol\u00edcias, acusadas pela justi\u00e7a\u2026e defendem-se dizendo que s\u00e3o pobres ou infelizes nos neg\u00f3cios; que a falta de transpar\u00eancia de que os acusam se filia no princ\u00edpio popularmente aceite de que \u201co segredo \u00e9 a alma do neg\u00f3cio\u201d e que a ousadia que conduz ao seu enriquecimento oculto se insere no esp\u00edrito do ad\u00e1gio \u201cquem tem unhas \u00e9 que toca guitarra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles afirmou que tudo era&nbsp;<em>business<\/em>, que tudo era legal e que se sentia tranquilo e se mostrava risonho e outro dizia que mesmo que tivesse perdido milh\u00f5es em alguns neg\u00f3cios, vivia bem porque tinha ganho muito mais em outros e tinha uma boa reforma.<\/p>\n\n\n\n<p>Respondeu \u201co sistema\u201d (liberal, elogioso da iniciativa privada, contr\u00e1rio ao papel intervencionista do Estado) que sob o ponto de vista moral n\u00e3o seria curial que algu\u00e9m acumulasse fortuna \u00e0 custa do dinheiro de outros e que a sequ\u00eancia dos acontecimentos se apresentava desprestigiante para muitos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Haveria que fazer qualquer coisa que n\u00e3o abalasse o sistema nem beliscasse valores fundamentais, como o lucro desenfreado, a especula\u00e7\u00e3o, a propriedade privada intoc\u00e1vel e os sinais da acumula\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Como o c\u00e3o que se revolta contra a sua pr\u00f3pria cauda, sem obviamente a p\u00f4r em causa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre foi assim e h\u00e1 de continuar a ser \u2013 disse um velho.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhe que n\u00e3o. Haver\u00e1 certamente maneiras de n\u00e3o ser assim \u2013 respondeu outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o jardim do meu bairro convergem todos os dias crian\u00e7as que brincam no parque infantil e nos relvados, pessoas que passeiam os seus c\u00e3es e sobre eles conversam e velhos que jogam \u00e0s cartas nas mesas que l\u00e1 h\u00e1 ou que em grupos formulam opini\u00f5es sobre o que se passa \u00e0 sua volta. 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