{"id":5000,"date":"2021-09-07T14:07:59","date_gmt":"2021-09-07T14:07:59","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=5000"},"modified":"2021-10-10T22:48:41","modified_gmt":"2021-10-10T22:48:41","slug":"esta-cidade-nao-e-para-lisboetas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/esta-cidade-nao-e-para-lisboetas\/","title":{"rendered":"Esta cidade n\u00e3o \u00e9 para lisboetas"},"content":{"rendered":"\n<p>Por lisboetas entenda-se, como documentou S\u00e9rgio Tr\u00e9faut, todos aqueles que vivem e trabalham em Lisboa, independentemente da sua origem, sexo, pron\u00fancia ou tom de pele. Os n\u00fameros dos \u00faltimos anos mostram que h\u00e1 um \u00eaxodo da popula\u00e7\u00e3o de certas zonas da cidade para outros concelhos. \u00d3rf\u00e3os de pol\u00edticas que sirvam de tamp\u00e3o ao processo de financeiriza\u00e7\u00e3o de Lisboa, os mun\u00edcipes da capital s\u00e3o empurrados para a periferia em nome de um modelo de cidade pouco democr\u00e1tico e participativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, o PS conquistou a C\u00e2mara Municipal de Lisboa pela primeira vez com Fernando Medina. Contudo, para al\u00e9m das pol\u00edticas levadas a cabo, a sa\u00edda de Ant\u00f3nio Costa a meio do mandato e a sua substitui\u00e7\u00e3o pelo atual presidente da autarquia levou a uma perda de 10 mil votos e tr\u00eas vereadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a perda da maioria absoluta, o PS viu-se obrigado a encontrar uma solu\u00e7\u00e3o de estabilidade atrav\u00e9s de um acordo com o BE que voltava a eleger um vereador. Desde 2005 que isso n\u00e3o acontecia, precisamente depois de dar apoio ao PS com o independente Jos\u00e9 S\u00e1 Fernandes, que acabou por perder a confian\u00e7a pol\u00edtica do BE. Se se pensava que com o vereador Ricardo Robles, membro do partido, o mandato ia decorrer com menos turbul\u00eancia, aconteceu o contr\u00e1rio. Menos de um ano depois da tomada de posse, Ricardo Robles renunciava ao mandato e era substitu\u00eddo por Manuel Grilo depois de se tornar p\u00fablico que havia adquirido, em 2014, um pr\u00e9dio em Alfama que comprou com a irm\u00e3 por 347 mil euros para o vender por 5,7 milh\u00f5es de euros em pleno processo de gentrifica\u00e7\u00e3o da cidade. Protagonista de v\u00e1rias pol\u00e9micas, o sucessor de Ricardo Robles, apesar do \u201cbalan\u00e7o positivo\u201d que o BE diz fazer do mandato, n\u00e3o \u00e9 o candidato \u00e0 C\u00e2mara Municipal. O partido decidiu apresentar antes, a sua deputada na Assembleia da Rep\u00fablica, Beatriz Gomes Dias.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o PSD, ainda na ressaca da sa\u00edda de Pedro Passos Coelho, decidiu romper a coliga\u00e7\u00e3o com o CDS-PP e candidatou Teresa Leal Coelho. O resultado foi desastroso, com 11,22%, elegendo dois vereadores. O CDS-PP apostou na ent\u00e3o l\u00edder do partido, Assun\u00e7\u00e3o Cristas, que chegou aos 20,59% e conseguiu quatro eleitos na C\u00e2mara Municipal. Quatro anos depois, PSD e CDS-PP, entre outros partidos de direita, chegaram a acordo para concorrerem em coliga\u00e7\u00e3o novamente, desta vez com Carlos Moedas, importante figura do governo de Passos Coelho e Paulo Portas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a CDU, que em 2017 subiu de um para dois vereadores, volta a apostar em Jo\u00e3o Ferreira para a C\u00e2mara Municipal. Fora do acordo com o PS, a coliga\u00e7\u00e3o entre comunistas, verdes e independentes assumiu o papel exclusivo de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O desespero de n\u00e3o conseguir casa<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando a maioria PSD e CDS-PP aprovou a lei que ficou conhecida com o nome de Assun\u00e7\u00e3o Cristas, durante o governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas, abriu uma tempestade que ainda hoje n\u00e3o terminou. O aumento explosivo das rendas, do alojamento local e dos despejos for\u00e7ou milhares de pessoas a abandonar as suas casas e a procurar alternativas nos arredores de Lisboa provocando um efeito em cadeia com o consequente aumento dos pre\u00e7os dos im\u00f3veis tamb\u00e9m nos sub\u00farbios. A liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado de arrendamento e a aprova\u00e7\u00e3o dos vistos gold foram instrumentos que contribu\u00edram para a estrat\u00e9gia apoiada pela troika de turistificar ainda mais a economia nacional tendo Lisboa como um dos seus eixos. Contudo, com o apoio dos partidos \u00e0 sua esquerda, o atual governo podia ter revogado a lei e n\u00e3o o fez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os censos realizados este ano mostram as consequ\u00eancias das decis\u00f5es pol\u00edticas tomadas em S\u00e3o Bento e na Pra\u00e7a do Munic\u00edpio. Segundo dados do Instituto Nacional de Estat\u00edstica, Miseric\u00f3rdia (-26,1%), Santa Maria Maior (-22%), S\u00e3o Vicente (-9,4%), Ajuda (-8,4%) e Santo Ant\u00f3nio (-6,4%) foram as freguesias que mais popula\u00e7\u00e3o perderam em Lisboa. Apesar das promessas do PS e BE de criar mais habita\u00e7\u00e3o na cidade, a capital perdeu 1,4% dos seus habitantes na \u00faltima d\u00e9cada. Apesar dos v\u00e1rios programas de habita\u00e7\u00e3o acess\u00edvel aprovados, algumas delas da autoria da CDU, a lentid\u00e3o na sua implementa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu competir com o forte impacto da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa das \u00faltimas sondagens realizadas sobre a perce\u00e7\u00e3o dos lisboetas sobre quais devem ser as prioridades do pr\u00f3ximo presidente eleito, os resultados foram evidentes. Atr\u00e1s da a\u00e7\u00e3o social e apoio \u00e0 pobreza (18%), est\u00e1 a habita\u00e7\u00e3o e o emprego com 15%.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Urbanismo em contra m\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Tanto Ant\u00f3nio Costa como Fernando Medina conviveram bem com esta estrat\u00e9gia \u00e0 frente da autarquia e apostaram em Manuel Salgado como protagonista deste processo de financeiriza\u00e7\u00e3o da cidade entre 2007 e 2019, quando renunciou ao mandato como vereador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos exemplos \u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o do Hospital CUF Tejo em Alc\u00e2ntara que valeu a Manuel Salgado um inqu\u00e9rito judicial acabando como arguido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as pol\u00e9micas foram muitas nestes quatro anos. A gest\u00e3o de Fernando Medina apresentou a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o como uma alavanca das pol\u00edticas a executar. Foi quase sempre o oposto. Foram muitos os casos em que foi o protesto dos mun\u00edcipes que fez recuar projetos da autarquia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, um fundo imobili\u00e1rio alem\u00e3o queria construir um pr\u00e9dio de 60 metros junto \u00e0 Avenida Almirante Reis. Segundo noticiava, ent\u00e3o, o Di\u00e1rio de Not\u00edcias, uma parte do projeto estava j\u00e1 aprovado pelo departamento de Urbanismo da C\u00e2mara Municipal de Lisboa e amea\u00e7ava tornar-se num dos edif\u00edcios mais altos da capital. Foi a indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e a pol\u00e9mica que gerou que obrigou a autarquia a baixar a altura do edif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dos casos que deu que falar foi a rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0s mudan\u00e7as previstas para o Martim Moniz. A C\u00e2mara Municipal viu-se obrigada a recuar.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo n\u00e3o aconteceu no tipo de reabilita\u00e7\u00e3o projetado para a Pra\u00e7a do Rossio num processo especulativo que for\u00e7ou a sa\u00edda da Pastelaria Su\u00ed\u00e7a e da Casa da Sorte, entre outros, pelos novos propriet\u00e1rios. Aprovado com os votos contra do PCP, absten\u00e7\u00e3o do BE e votos favor\u00e1veis do PS, PSD e CDS, a vereadora da CDU, Ana Jara, apontou o dedo \u00e0 autarquia e afirmou que \u201co melhor e mais rent\u00e1vel uso \u00e9 a m\u00e1xima que gere investimento imobili\u00e1rio e que se confunde com as pol\u00edticas urbanas para Lisboa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fruto das pol\u00edticas locais, tamb\u00e9m na Avenida Almirante Reis, uma das mais populares e centrais art\u00e9rias da cidade de Lisboa, vai desaparecer para sempre um dos seus espa\u00e7os emblem\u00e1ticos. A antiga e hist\u00f3rica Garagem Liz vai ser substitu\u00edda por um hipermercado Continente. A proposta da empresa foi aprovada em reuni\u00e3o de c\u00e2mara com os votos favor\u00e1veis do PS, PSD e CDS-PP e contra do PCP e BE.<\/p>\n\n\n\n<p>O im\u00f3vel, com uma \u00e1rea total de 2.546 metros quadrados distribu\u00edda por dois andares, vai albergar o hipermercado e o estacionamento, uma proposta que recebeu opini\u00f5es negativas. Foi o caso do arquiteto Tiago Mota Saraiva que contestou o plano para aquele espa\u00e7o. \u201cIsto contraria a ideia da cidade de 15 minutos. A cidade deve ser determinada por aquilo que falta e num raio de 100 metros h\u00e1 v\u00e1rias superf\u00edcies parecidas com aquela\u201d, explicou \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio. \u201cEstamos a criar uma densidade de supermercados que n\u00e3o serve o interesse p\u00fablico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Defende tamb\u00e9m que tendo havido altera\u00e7\u00e3o de uso \u201cfazia todo o sentido que fosse um espa\u00e7o de cultura\u201d, recordando que ali j\u00e1 esteve um coliseu. Outro dos problemas apontados \u00e9 o do estacionamento. \u201cN\u00e3o podes pensar em ciclovias e depois fazes um parque estacionamento e um supermercado\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Educa\u00e7\u00e3o e Direitos Sociais sob cr\u00edtica<\/h2>\n\n\n\n<p>No campo da a\u00e7\u00e3o social, o pelouro gerido pelo vereador do BE foi muito criticado. Em tempo de pandemia, os casos sucederam-se. Para o antigo vereador Jo\u00e3o Afonso, ex-titular da pasta, h\u00e1 uma aposta continuada em solu\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o, em vez da instala\u00e7\u00e3o destas pessoas em casas ou quartos, o que seria muito mais pr\u00f3ximo de uma \u201cvida normal\u201d. Foi assim que criticou as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do BE na autarquia para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo num debate com Manuel Grilo na TSF. Para Jo\u00e3o Afonso, a resposta dada no contexto do estado de emerg\u00eancia, recorrendo a equipamentos n\u00e3o adequados a fins habitacionais, deixou de ser aceit\u00e1vel. A proposta do BE para a instala\u00e7\u00e3o de um centro de emerg\u00eancia no antigo quartel de Santa B\u00e1rbara, com um custo de quase um milh\u00e3o de euros numa solu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria de alojamento massificado, n\u00e3o era aceit\u00e1vel para o antigo vereador.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a gest\u00e3o da crise pand\u00e9mica pelo vereador eleito pelo BE tamb\u00e9m foi criticada no tratamento que deu aos refugiados. Quando se descobriram cem refugiados contaminados num hostel em Arroios, Manuel Grilo afirmou num comunicado que o seu pelouro \u201cn\u00e3o tinha conhecimento\u201d, apontando o dedo \u00e0 Autoridade de Seguran\u00e7a Alimentar e Econ\u00f3mica (ASAE), ao Minist\u00e9rio da Administra\u00e7\u00e3o Interna e ao SEF. O Conselho Portugu\u00eas para os Refugiados (CPR) afirma que esta situa\u00e7\u00e3o \u201cera do conhecimento das v\u00e1rias entidades envolvidas no procedimento de asilo\u201d e a presidente da Junta de Freguesia de Arroios recordou a den\u00fancia do deputado municipal eleito pela lista independente Cidad\u00e3os por Lisboa, Miguel Gra\u00e7a, que, em 28 de abril, numa sess\u00e3o da Assembleia Municipal, lembrou que entre as compet\u00eancias do pelouro est\u00e1 \u201co acolhimento e integra\u00e7\u00e3o de migrantes e refugiados\u201d. De acordo com v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es, esta situa\u00e7\u00e3o era j\u00e1 do conhecimento da autarquia em dezembro de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo deputado garantiu que o anterior executivo municipal tinha apresentado, em 2017, uma candidatura a um financiamento europeu para ampliar o Centro de Acolhimento Tempor\u00e1rio de Refugiados no Lumiar e que este teria sido aprovado com acesso a uma verba de um milh\u00e3o de euros. Miguel Gra\u00e7a sustentou que \u201cnada foi feito\u201d e que o dinheiro teria de ser devolvido, \u201cuma vez que o centro n\u00e3o foi ampliado e as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o melhoraram\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra das cr\u00edticas apontadas, neste caso pela CDU, foi a entrega a privados da gest\u00e3o dos refeit\u00f3rios das escolas em 2020, uma proposta aprovada, que teve a absten\u00e7\u00e3o dos vereadores da CDU. Para Jo\u00e3o Ferreira e Ana Jara, a solu\u00e7\u00e3o passava por defender a gest\u00e3o p\u00fablica e a confe\u00e7\u00e3o local das refei\u00e7\u00f5es.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cultura<\/h2>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito da pol\u00edtica cultural, outra das decis\u00f5es que gerou pol\u00e9mica foi a entrega \u00e0 gest\u00e3o privada do Teatro Maria Matos, onde se fez um investimento p\u00fablico continuado na d\u00e9cada anterior e onde se realizaram obras de requalifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Sindicato e associa\u00e7\u00f5es mobilizaram-se contra a decis\u00e3o da autarquia, exigindo maior debate p\u00fablico e maior investimento p\u00fablico na cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por lisboetas entenda-se, como documentou S\u00e9rgio Tr\u00e9faut, todos aqueles que vivem e trabalham em Lisboa, independentemente da sua origem, sexo, pron\u00fancia ou tom de pele. 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