{"id":4984,"date":"2021-09-07T13:45:45","date_gmt":"2021-09-07T13:45:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4984"},"modified":"2021-10-10T22:22:06","modified_gmt":"2021-10-10T22:22:06","slug":"comercio-local-pode-estar-de-regresso-a-lisboa-de-montras-vazias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/comercio-local-pode-estar-de-regresso-a-lisboa-de-montras-vazias\/","title":{"rendered":"Com\u00e9rcio local. Pode estar de regresso a Lisboa de montras vazias"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em Lisboa, s\u00e3o muitos os bairros que foram v\u00edtimas da turistifica\u00e7\u00e3o da cidade, da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, da prolifera\u00e7\u00e3o de supermercados de proximidade e da pandemia. As consequ\u00eancias da reconfigura\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica ficaram ainda mais \u00e0 vista durante a crise sanit\u00e1ria que o mundo vive h\u00e1 mais de ano e meio. Para o com\u00e9rcio local, \u00e9 mais um desafio a enfrentar.<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Cavalheiro vive no bairro desde sempre. \u201cUm bairro de gente pacata\u201d, sublinha. Com uma mercearia na esquina da Rua Rui Barbosa com a Rua Washington, na zona de Santa Engr\u00e1cia, h\u00e1 mais de 60 anos, recorda os tempos em que havia gente por todo o lado. \u201cAs casas estavam todas alugadas, toda a gente tinha h\u00f3spedes e esta rua estava cheia de rapaziada\u201d, lembra \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio. Depois, foi o \u00eaxodo para a periferia de Lisboa. O neg\u00f3cio perdeu assim muitos clientes, mas aponta tamb\u00e9m o dedo \u00e0s grandes superf\u00edcies comerciais e aos supermercados de proximidade. \u201cH\u00e1 aqui perto um Meu Super, o que acaba sempre por complicar as coisas. N\u00e3o s\u00e3o os indianos, n\u00e3o s\u00e3o os outros minimercados, \u00e9 mais os Pingo Doce, esses \u00e9 que roubam clientes\u201d, defende o comerciante.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pandemia, ao contr\u00e1rio do que esperava, o neg\u00f3cio at\u00e9 come\u00e7ou bem. Logo no primeiro ano, com as medidas de restri\u00e7\u00e3o no acesso aos supermercados, houve uma corrida aos minimercados. \u201cForam uns meses bons\u201d, considera. Mas foi sol de pouca dura. Agora, tem uma quebra de cerca de 30% nas vendas. Atr\u00e1s de Francisco Cavalheiro, est\u00e3o v\u00e1rias prateleiras de diversos produtos bem arrumados. Com 76 anos, n\u00e3o perdeu o jeito para manter a mercearia arrumada \u2018\u00e0 antiga\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Confessa que n\u00e3o sabe muito sobre os apoios do Estado e da autarquia aos micro e pequenos empres\u00e1rios. N\u00e3o faz ideia se s\u00e3o ou n\u00e3o a fundo perdido. N\u00e3o concorreu. \u201cA gente c\u00e1 se vai governando\u201d, lan\u00e7a, como se a resist\u00eancia de seis d\u00e9cadas garantisse por si s\u00f3 que tudo ser\u00e1 como dantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se queixa da queda do turismo. Dantes, \u201chavia muito estrangeiro\u201d. Diz que se vendia \u201cmuita garrafa de vinho e queijo\u201d. Agora, nem por isso. E recorda que as mercearias s\u00e3o muito importantes nos bairros. \u201cH\u00e1 muitos velhotes que s\u00f3 se sentem bem quando estamos abertos. Cumprimos uma fun\u00e7\u00e3o. Se deixamos de ver uma pessoa v\u00e1rios dias, tentamos contactar a ver se est\u00e1 tudo bem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais abaixo, na Rua do Vale de Santo Ant\u00f3nio, Manuel Ant\u00f3nio Cipriano conversa com uma jovem cliente \u00e0 porta do mini-mercado Pomar do Vale. S\u00e3o j\u00e1 quatro d\u00e9cadas \u00e0 frente deste neg\u00f3cio. Como Francisco Cavalheiro, queixa-se tamb\u00e9m da debandada geral. Os mais velhos est\u00e3o a morrer e o bairro fica vazio. Muitas casas est\u00e3o destinadas ao alojamento local. Tamb\u00e9m sentiu uma forte subida nas vendas durante a pandemia e at\u00e9 chegou a fazer entregas de produtos. \u201cTemos uma rela\u00e7\u00e3o muito boa com os idosos\u201d, garante. Mas com o regresso \u00e0 quase normalidade, o neg\u00f3cio caiu na ordem de entre 20% a 30%. A abertura de supermercados de proximidade pertencentes \u00e0s grandes cadeias de retalho \u00e9 algo que o preocupa. \u201cDevia haver regulamenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podem estar t\u00e3o perto uns dos outros. A 400 ou 500 metros est\u00e1 o Meu Super e depois est\u00e1 o Minipre\u00e7o. S\u00e3o lojas umas em cima das outras e isso tudo tem muita influ\u00eancia\u201d, protesta.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 70 anos, este comerciante tem um sonho. \u201cA ver se aparece um jovem que queira ficar com isto. Gostava que algu\u00e9m mantivesse este neg\u00f3cio\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O drama de milhares de micros e pequenos empres\u00e1rios<\/h2>\n\n\n\n<p>De acordo com Jorge Pisco, presidente&nbsp;da Confedera\u00e7\u00e3o das Micro, Pequenas e M\u00e9dias Empresas (CMPME), h\u00e1 1,2 milh\u00f5es de neg\u00f3cios desta dimens\u00e3o em Portugal, o que representa n\u00e3o s\u00f3 a esmagadora maioria do tecido empresarial do pa\u00eds como integra 85,8% do total de trabalhadores a n\u00edvel nacional. \u00c0 Voz do Oper\u00e1rio explica que o que mais se refletiu nos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios, sobretudo no setor dos comerciantes, foi \u201ca falta de apoios concretos\u201d e a \u201csitua\u00e7\u00e3o muito atribulada\u201d que se verificaram nesses apoios. Denuncia que \u201chavia sempre um conjunto de burocracias e de quest\u00f5es que se foram colocando, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel do governo mas da autarquia de Lisboa que acabavam por ter repercuss\u00f5es muito grandes neste tecido\u201d. E explica que os os micro empres\u00e1rios \u201cn\u00e3o t\u00eam estruturas para poderem recorrer a estes apoios\u201d. Por isso, recorreram aos contabilistas e foi atrav\u00e9s destes que avan\u00e7aram\u201d. Muitos, contudo, \u201cn\u00e3o tinham situa\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias regularizadas\u201d e n\u00e3o podiam ter acesso aos apoios. Recorda tamb\u00e9m que h\u00e1 uma verba espec\u00edfica para os gastos em equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual cuja tranche final ainda n\u00e3o chegou porque \u00e9 um apoio no \u00e2mbito do Programa 20\/20 com muitas regras para cumprir.<\/p>\n\n\n\n<p>O facto \u00e9 que ningu\u00e9m estava preparado para o impacto de uma pandemia deste tipo. Mas as empresas desta dimens\u00e3o n\u00e3o esperavam os \u201catrasos substanciais\u201d de um governo que anunciou a regulariza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o \u201cno fim do m\u00eas de maio\u201d, recorda Jorge Pisco. No apoio ao pagamento das rendas, tampouco est\u00e1 efetuado o segundo pagamento porque a autoridade tribut\u00e1ria \u201cn\u00e3o viabilizou a quest\u00e3o dos contratos\u201d. O porta-voz do desespero das micro, pequenas e m\u00e9dias empresas defende que tudo isto traz grandes dificuldades numa situa\u00e7\u00e3o de pandemia em que estes neg\u00f3cios tiveram de abrir e fechar v\u00e1rias vezes e mudar hor\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs empresas est\u00e3o descapitalizadas. No caso concreto da CMPME, logo em mar\u00e7o do ano passado, reivindicamos que um dos apoios que deveria de ter existido para as empresas era um fundo de tesouraria para que fizessem face a estas dificuldades que t\u00eam neste momento\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o que temos manifestado nas reuni\u00f5es que temos n\u00e3o s\u00f3 com o Minist\u00e9rio da Economia mas tamb\u00e9m com o Minist\u00e9rio do Trabalho \u00e9 que nesta fase da retoma v\u00ea-se alguma melhoria do ponto de vista do turismo mas \u00e9 muito prov\u00e1vel que esta situa\u00e7\u00e3o se venha a agravar em breve e que possa levar ao encerramento de muitas empresas e ao desemprego\u201d, explica.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Com\u00e9rcio tradicional em perigo<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Nas ruas, entende que come\u00e7am a ver-se muitos neg\u00f3cios encerrados definitivamente. \u201cOu seja, muitas daquelas lojas que a gente conhecia, que era o com\u00e9rcio tradicional, isso fechou e provavelmente n\u00e3o vai retomar\u201d. \u00c9 prov\u00e1vel que se volte a ver Lisboa como no tempo da troika, \u201ccom muitas lojas fechadas\u201d, e lembra que h\u00e1 muito com\u00e9rcio que vive de outras atividades. D\u00e1 o exemplo dos cabeleireiros. \u201cMuitos cabeleireiros fecharam porque o pr\u00f3prio teletrabalho tamb\u00e9m levou a que deixasse de existir na zona central da cidade um conjunto substancial de empresas a funcionar\u201d. Mas \u00e9 um problema que tamb\u00e9m afeta a restaura\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre as mercearias de bairro, confirma a quebra nas vendas e o regresso da maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes superf\u00edcies e o perigo da prolifera\u00e7\u00e3o de mais supermercados de proximidade. \u201cEm termos de mercado, t\u00eam melhores condi\u00e7\u00f5es de abastecimento e pre\u00e7os que acabam por asfixiar o pequeno comerciante. N\u00f3s temos vindo a assistir \u00e0s grandes superf\u00edcies a abrir aquelas lojas de bairro, com a mesma linha gr\u00e1fica e com pre\u00e7os semelhantes aos que t\u00eam nos hipermercados. Isso d\u00e1 cabo do com\u00e9rcio local. N\u00e3o h\u00e1 comerciante que consiga combater os pre\u00e7os que eles praticam, isso n\u00e3o h\u00e1 volta a dar\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, explica, h\u00e1 grandes dificuldades para neg\u00f3cios que n\u00e3o t\u00eam gabinetes jur\u00eddicos para enfrentar a burocracia do acesso aos apoios. E d\u00e1 o exemplo de outro setor afetado. Os donos dos quiosques das revistas \u201csuportam o custo do pagamento da distribui\u00e7\u00e3o dos jornais\u201d. Ou seja, \u00e9 mais um custo que t\u00eam. \u201cCom os custos de luz, \u00e1gua e todas as restantes despesas, as empresas est\u00e3o descapitalizadas\u201d. Em reuni\u00f5es com o governo, a CMPME tentou alertar para esta realidade e o pr\u00f3prio executivo assumiu \u201cque n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o que o tecido empresarial portugu\u00eas s\u00f3 tinha dinheiro um m\u00eas de atividade, que estas empresas vivem com a receita de um m\u00eas para pagar sal\u00e1rios e despesas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, defende que uma das formas de superar a burocracia seria a cria\u00e7\u00e3o de um gabinete de apoio aos micro e pequenos empres\u00e1rios a n\u00edvel nacional. Muitas vezes, \u201cn\u00e3o sabem usar o e-mail ou aplica\u00e7\u00f5es inform\u00e1ticas. A realidade \u00e9 outra, enquanto que uma m\u00e9dia empresa tem contabilistas, tem juristas, tem essas coisas todas, os micros n\u00e3o t\u00eam isso e muitas vezes sequer forma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente da CMPME recorda que este tipo de com\u00e9rcio local tem uma liga\u00e7\u00e3o ao bairro onde se insere. Toda a gente se conhece e \u00e9 \u201cuma diferen\u00e7a com outros tipos de superf\u00edcie\u201d. Conhecem-se \u201cporque se vai \u00e0 padaria, \u00e0 peixaria ou \u00e0 mercearia. Se a dona Maria ou o senhor Jos\u00e9 n\u00e3o aparecem, ficam preocupados\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Lisboa, s\u00e3o muitos os bairros que foram v\u00edtimas da turistifica\u00e7\u00e3o da cidade, da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, da prolifera\u00e7\u00e3o de supermercados de proximidade e da pandemia. As consequ\u00eancias da reconfigura\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica ficaram ainda mais \u00e0 vista durante a crise sanit\u00e1ria que o mundo vive h\u00e1 mais de ano e meio. Para o com\u00e9rcio local, &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/comercio-local-pode-estar-de-regresso-a-lisboa-de-montras-vazias\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Com\u00e9rcio local. 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