{"id":4974,"date":"2021-09-07T13:35:23","date_gmt":"2021-09-07T13:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4974"},"modified":"2021-09-07T13:35:24","modified_gmt":"2021-09-07T13:35:24","slug":"lacos-da-seara-nova-e-a-voz-do-operario-o-contributo-de-cesar-nogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/09\/07\/lacos-da-seara-nova-e-a-voz-do-operario-o-contributo-de-cesar-nogueira\/","title":{"rendered":"La\u00e7os da Seara Nova e A Voz do Oper\u00e1rio: o contributo de C\u00e9sar Nogueira"},"content":{"rendered":"\n<p>C\u00e9sar Nogueira j\u00e1 est\u00e1 com 85 anos de idade. Deve ser o \u00faltimo antigo dirigente socialista vivo, do tempo de Azedo Gneco (falecido em 1911).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda \u00e9 ele que vem a terreiro, na Seara Nova, para responder a uma \u2018cacetada\u2019 salazarista \u00e0 hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um jornalista do&nbsp;<em>Di\u00e1rio da Manh\u00e3<\/em>, o \u00f3rg\u00e3o oficioso da \u201cUni\u00e3o Nacional\u201d, acabou de publicar um livro que destrata essa hist\u00f3ria como uma sucess\u00e3o de desordens, viol\u00eancias e quez\u00edlias internas, instigadas por ideias e agentes estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, afirma o dito livro, que a \u201crevolu\u00e7\u00e3o nacional de 28 de Maio\u201d, conduzida \u201cpelas baionetas gloriosas de Gomes da Costa\u201d, \u00e9 que veio satisfazer as antigas reivindica\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, al\u00e9m de reatar a \u201ctradi\u00e7\u00e3o nacional\u201d [Costa Junior (1964),&nbsp;<em>Hist\u00f3ria breve do movimento oper\u00e1rio portugu\u00eas<\/em>].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">I<strong>\ufeff<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>C\u00e9sar Nogueira alude ao conhecimento superficial que o livro revela e refuta alguns exemplos concretos dos muitos equ\u00edvocos que veicula. Acusa-o de fazer \u201cafirma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o a express\u00e3o verdadeira dos factos\u201d. Mas \u00e9 uma luta desigual. O outro lado est\u00e1 protegido pela censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa. E C\u00e9sar Nogueira conhece-a bem: nesses meados dos anos sessenta, \u00e9 porventura o autor mais alvejado pelos cortes da censura na Voz do Oper\u00e1rio \u2013 onde colabora desde 1908.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros t\u00edtulos de imprensa onde colaborou foram h\u00e1 muito encerrados pela ditadura: como o di\u00e1rio sindicalista&nbsp;<em>A Batalha<\/em>&nbsp;(em 1927) ou a revista socialista&nbsp;<em>Pensamento<\/em>, do Porto (no final de 1940, na mesma altura que o seman\u00e1rio&nbsp;<em>O Diabo<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos momentos em que o regime encena umas elei\u00e7\u00f5es falsificadas e abranda um pouco a censura, l\u00e1 est\u00e1 C\u00e9sar Nogueira a expressar a sua posi\u00e7\u00e3o antifascista no di\u00e1rio&nbsp;<em>Rep\u00fablica<\/em>, onde tamb\u00e9m colabora h\u00e1 longos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1947 que escreve para a&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>, sempre com textos relativos \u00e0 hist\u00f3ria do antigo movimento oper\u00e1rio. Publicou, ali\u00e1s, nesse tema, dois livros prefaciados por Lu\u00eds da C\u00e2mara Reis, director da&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II<strong>\ufeff<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 um trabalho valorizado por antigos militantes de outras correntes ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 75 anos de idade, o anarco-sindicalista Alexandre Vieira, considera que C\u00e9sar Nogueira \u201c\u00e9 dos homens da vanguarda que maior divulga\u00e7\u00e3o t\u00eam feito, em Portugal, dos princ\u00edpios socialistas\u201d, o que aliado \u201ca uma mod\u00e9stia inultrapass\u00e1vel e a um desinteresse monet\u00e1rio proverbial\u201d, o torna \u201cuma das prestimosas figuras das fileiras avan\u00e7adas\u201d [Alexandre Vieira (1959),&nbsp;<em>Figuras gradas do movimento social portugu\u00eas<\/em>, p. 115].<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o velho comunista portuense Jos\u00e9 da Silva, com 73 anos escreve a C\u00e9sar Nogueira: \u201cLeio sempre as suas interven\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, principalmente as que faz no di\u00e1rio&nbsp;<em>Rep\u00fablica<\/em>&nbsp;[&#8230;] tenho os dois volumes que publicou sobre a hist\u00f3ria do Partido Socialista Portugu\u00eas, que s\u00e3o dois documentos de muito valor para a hist\u00f3ria do movimento associativo dos trabalhadores\u201d [Jos\u00e9 da Silva, \u201cCarta a C\u00e9sar Nogueira\u201d, manuscrito, 12\/06\/1967, p.1].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III<strong>\ufeff<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m destes elementos da \u201cvelha guarda\u201d, C\u00e9sar Nogueira tem liga\u00e7\u00f5es com intelectuais comunistas duma gera\u00e7\u00e3o mais jovem como Alexandre Cabral e Victor de S\u00e1. O primeiro considera-o como um \u201cnot\u00e1vel paladino dos ideais socialistas\u201d [Alexandre Cabral, \u201cdedicat\u00f3ria a C\u00e9sar Nogueira\u201d, manuscrito, 11\/05\/1961].<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Victor de S\u00e1 prefacia nesse mesmo ano de 1964 um novo livro de C\u00e9sar Nogueira [<em>Notas para a hist\u00f3ria do socialismo em Portugal (1871-1910)<\/em>].&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Numa alus\u00e3o ao contexto ditatorial de censura e repress\u00e3o, que nessa altura j\u00e1 se prolonga h\u00e1 quase 40 anos, Victor de S\u00e1 real\u00e7a o \u201cacesso directo a fontes documentais que, pelo condicionalismo de circunst\u00e2ncias pol\u00edticas, se t\u00eam mantido recolhidas nas catacumbas dos segredos familiares, tantas vezes sujeitas \u00e0 dispers\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o pura e simples, mas que C\u00e9sar Nogueira, pelas suas rela\u00e7\u00f5es e pelo prest\u00edgio de que goza, p\u00f4de como ningu\u00e9m consultar. Assim, reproduzindo inclusivamente muitos dos mais importantes documentos de que se valeu, torna-os n\u00e3o s\u00f3 acess\u00edveis ao p\u00fablico, como at\u00e9 os salva do aniquilamento prov\u00e1vel\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV<strong>\ufeff<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Victor de S\u00e1 n\u00e3o deixa de apontar algumas limita\u00e7\u00f5es: \u201cpoder\u00e1 objectar-se que C\u00e9sar Nogueira n\u00e3o \u00e9 propriamente um historiador. Sim, pode ser que nem sempre se verifique no seu trabalho uma observ\u00e2ncia estrita da t\u00e9cnica metodol\u00f3gica. Mas, sem pretens\u00f5es de historiador, C\u00e9sar Nogueira tem as virtudes essenciais dum histori\u00f3grafo: a probidade mental que presidiu \u00e0 recolha dos elementos e o respeito pelas fontes documentais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>, assim como&nbsp;<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, foi um espa\u00e7o onde C\u00e9sar Nogueira p\u00f4de divulgar esse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do 25 de abril, a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores do Com\u00e9rcio e a CGTP reeditaram um livro de C\u00e9sar Nogueira sobre as \u201cOrigens do 1\u00ba de Maio\u201d \u2013 respectivamente em 1976 e 1986.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Centen\u00e1rio da Seara Nova<\/h2>\n\n\n\n<p>No pr\u00f3ximo dia 15 de Outubro, cumpre-se o centen\u00e1rio da&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>, uma das mais importantes revistas de pensamento cr\u00edtico e antifascista em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Entres os m\u00faltiplos aspectos da sua hist\u00f3ria constam os seus la\u00e7os com&nbsp;<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, os colaboradores comuns que ambas t\u00eam partilhado ao longo do tempo. Um exemplo maior ser\u00e1 Em\u00edlio Costa, professor anarquista que foi dirigente da&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>&nbsp;e director escolar de&nbsp;<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>. Mas h\u00e1 mais, desde Alexandre Vieira a Agostinho da Silva, passando por homens mais jovens como S\u00e9rgio Ribeiro e Modesto Navarro. E por mulheres, como Francine Benoit e Helena Neves.<\/p>\n\n\n\n<p>O contributo de C\u00e9sar Nogueira \u00e9 mais um exemplo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9sar Nogueira j\u00e1 est\u00e1 com 85 anos de idade. Deve ser o \u00faltimo antigo dirigente socialista vivo, do tempo de Azedo Gneco (falecido em 1911). Mas ainda \u00e9 ele que vem a terreiro, na Seara Nova, para responder a uma \u2018cacetada\u2019 salazarista \u00e0 hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio em Portugal. 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