{"id":4921,"date":"2021-08-05T09:20:30","date_gmt":"2021-08-05T09:20:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4921"},"modified":"2021-08-05T09:20:31","modified_gmt":"2021-08-05T09:20:31","slug":"apostar-na-ferrovia-nao-pode-ser-uma-moda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/05\/apostar-na-ferrovia-nao-pode-ser-uma-moda\/","title":{"rendered":"Apostar na ferrovia n\u00e3o pode ser uma moda"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os partidos da pol\u00edtica de direita (para quem anda mais distra\u00eddo, s\u00e3o o PS, o PSD e o CDS) desenvolvem no governo uma pol\u00edtica no essencial continua desde 1976, e marcada pelo processo de reconstru\u00e7\u00e3o do capitalismo monopolista em Portugal e submiss\u00e3o aos ditames da Uni\u00e3o Europeia. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das v\u00edtimas desse processo foi a ferrovia nacional, apesar da extraordin\u00e1ria capacidade de resist\u00eancia dos trabalhadores e dos utentes. Mas, dir-me-\u00e3o, agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim, e a ferrovia \u00e9 a grande aposta deste governo. Sim, quem ouve falar o Governo nos \u00faltimos 6 anos pensa seguramente que vivemos num gigantesco estaleiro nacional, onde se multiplicam os investimentos na ferrovia e as f\u00e1bricas de comboios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os planos sucedem-se, o Portugal 2020, o PNI 2030, o Plano Costa e Silva, o PRR, o Plano Nacional Ferrovi\u00e1rio (nestes 6 anos, nos anos imediatamente anteriores t\u00ednhamos tido o PET, o PETI, o PETI 3+), cada um anunciado com pompa e circunst\u00e2ncia, com consultas p\u00fablicas, an\u00fancios de centenas de milh\u00f5es, m\u00faltiplas confer\u00eancias de imprensa e sauda\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria dos autarcas, munic\u00edpios e regi\u00f5es abrangidos pela satisfa\u00e7\u00e3o de alguma antiga reivindica\u00e7\u00e3o. Planos que se sucedem uns aos outros com miser\u00e1veis taxas de execu\u00e7\u00e3o, criando excedentes or\u00e7amentais para ajudar a reduzir o d\u00e9fice, e uma pilha de problemas e de atrasos que se v\u00e3o empurrando com a barriga e com mais promessas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo aqui \u00e0s portas de Lisboa \u00e9 a Linha do Oeste. Fa\u00e7am uma breve consulta na net e ver\u00e3o a quantidade de not\u00edcias geradas ao longo dos \u00faltimos anos. De cada vez que integrava um plano, de cada vez que avan\u00e7ava uma das v\u00e1rias fases do processo (decis\u00e3o, lan\u00e7amento do concurso, adjudica\u00e7\u00e3o, in\u00edcio e conclus\u00e3o da obra)&#8230; do tro\u00e7o 1, reiniciando-se a dan\u00e7a para o tro\u00e7o 2 ficando a faltar os tro\u00e7os 3 e 4. Tenho a certeza que muitos leitores estar\u00e3o convencidos que a electrifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou \u00e0 Figueira, ou est\u00e1 l\u00e1 perto, quando na realidade chegou apenas&#8230; a Mele\u00e7as. Em resultado disto, a linha continua sem comboios, sem hor\u00e1rios dignos, sem electrifica\u00e7\u00e3o, e claro, quase sem passageiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo \u00e9 a Linha de Cascais. De cada vez que h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es surgem as promessas. Depois destas, o cancelamento das promessas. Faz j\u00e1 11 anos que foi cancelado o concurso para a moderniza\u00e7\u00e3o da Linha de Cascais, e nessa altura j\u00e1 os comboios estavam velhos. O inenarr\u00e1vel Carreiras at\u00e9 j\u00e1 defendeu que a Linha fosse arrancada para a substituir por um el\u00e9ctrico dito r\u00e1pido (mas mais lento e menor que o comboio). O Governo anunciou agora a compra de 34 comboios para Cascais, usando palavras que s\u00f3 podem ter soado conhecidas aos ouvidos de quem acompanha as quest\u00f5es da ferrovia: \u00abo maior investimento de sempre da CP em material circulante\u00bb. E por uma raz\u00e3o, foi assim que foi apresentado por Ana Paula Vitorino o pacote de 2009, que tamb\u00e9m inclu\u00eda a aquisi\u00e7\u00e3o de comboios para Cascais&#8230; e foi cancelado depois das elei\u00e7\u00f5es legislativas desse ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, outra vertente onde a dist\u00e2ncia \u00e9 quilom\u00e9trica entre as palavras e os actos \u00e9 na quest\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de material circulante. \u00c9 verdade que nestes seis anos volt\u00e1mos a ouvir falar na constru\u00e7\u00e3o de material circulante em Portugal. Mas os \u00fanicos dois concursos lan\u00e7ados nestes seis anos, para 14 unidades triplas para o Metro (7 comboios) e 22 comboios regionais para a CP foram lan\u00e7ados sem incluir essa condi\u00e7\u00e3o, e numa forma (pequenas aquisi\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas) que dificulta qualquer possibilidade realista de alavancar a recupera\u00e7\u00e3o desta val\u00eancia do nosso aparelho produtivo. E acabaram os dois concursos por ser ganhos por uma empresa Su\u00ed\u00e7a que os vai construir em Espanha (onde a incorpora\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para se aspirar a ganhar qualquer encomenda).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que este Governo tem como principal, extraordin\u00e1ria e, muitas vezes, \u00fanica qualidade, o facto de n\u00e3o ser o anterior governo PSD\/CDS. Isso reflecte-se na ferrovia, por exemplo, no facto do anterior governo PSD\/CDS ter afirmado nos tais planos que o transporte ferrovi\u00e1rio de passageiros n\u00e3o era sequer importante, excluindo-o completamente dos investimentos, e este governo, pelo contr\u00e1rio, reconhecer a import\u00e2ncia crescente do transporte p\u00fablico ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se juntos PS\/PSD\/CDS encerraram 1200 quil\u00f3metros de ferrovia em Portugal, encerraram a Sorefame, pulverizaram a CP e liquidaram essa val\u00eancia do Aparelho Produtivo nacional, o facto de nos \u00faltimos 6 anos se ter parado com essa destrui\u00e7\u00e3o pode criar uma ideia de profundo contraste. Mas estamos longe da ruptura que se exige, da efectiva invers\u00e3o do caminho percorrido. A \u00fanica revers\u00e3o significativa \u2013 e com resultados positivos que ningu\u00e9m contesta \u2013 foi a reintegra\u00e7\u00e3o da EMEF na CP. Mas ainda esta semana vimos o MIH dizer que tamb\u00e9m defende o fim da est\u00fapida unifica\u00e7\u00e3o da REFER e das Estradas de Portugal na IP, para, na mesma entrevista, acabar a explicar porque n\u00e3o o vai fazer, apresentando uma daquelas justifica\u00e7\u00f5es que s\u00f3 enganam quem quer ser enganado, e no fundo, mantendo o caminho de destrui\u00e7\u00e3o de ambas as empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o problema \u00e9 mesmo de fundo. O Governo celebrou o Ano Europeu do Transporte Ferrovi\u00e1rio, mas essa comemora\u00e7\u00e3o destina-se a assinalar a entrada em vigor do quarto pacote ferrovi\u00e1rio europeu, celebrando a sua submiss\u00e3o ao processo que materializa o projecto neoliberal e neocolonial da UE: onde os pa\u00edses \u00abcomo Portugal\u00bb se endividam para investir em infraestruturas que depois colocam ao servi\u00e7o dos \u00abutentes\u00bb dessas infraestruturas (as multinacionais) que depois vendem servi\u00e7os aos novos \u00abclientes\u00bb (os antigos utentes do servi\u00e7o p\u00fablico).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ora pode-se anunciar um belo arroz de marisco, mas se os ingredientes s\u00e3o umas salsichas, chucrute e pretzel, n\u00e3o se pode ficar surpreendido por sair um prato t\u00edpico alem\u00e3o. \u00c9 assim que as mercadorias na ferrovia portuguesa s\u00e3o j\u00e1 asseguradas por uma multinacional Su\u00ed\u00e7a, e a empresa ferrovi\u00e1ria p\u00fablica alem\u00e3, a DB, que j\u00e1 det\u00e9m 30% da Barraqueiro, se prepara para assegurar a liga\u00e7\u00e3o em alta velocidade entre Braga e Faro substituindo a CP, e retirando-lhe o servi\u00e7o mais rent\u00e1vel, o que obrigar\u00e1 o Estado a colocar mais 65 milh\u00f5es anuais no financiamento da oferta regional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os partidos da pol\u00edtica de direita (para quem anda mais distra\u00eddo, s\u00e3o o PS, o PSD e o CDS) desenvolvem no governo uma pol\u00edtica no essencial continua desde 1976, e marcada pelo processo de reconstru\u00e7\u00e3o do capitalismo monopolista em Portugal e submiss\u00e3o aos ditames da Uni\u00e3o Europeia. 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