{"id":4917,"date":"2021-08-05T09:12:34","date_gmt":"2021-08-05T09:12:34","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4917"},"modified":"2021-09-07T14:07:57","modified_gmt":"2021-09-07T14:07:57","slug":"paisagem-e-povoamento-100-anos-de-carlos-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/05\/paisagem-e-povoamento-100-anos-de-carlos-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Paisagem e Povoamento, 100 anos de Carlos de Oliveira"},"content":{"rendered":"\n<p>Cresceu na G\u00e2ndara, desde os dois anos, e aos onze foi estudar para Coimbra. \u00c9 ainda nessa d\u00e9cada de 1930 que vai encontrar os amigos e o seu Mestre, Afonso Duarte, que o acompanhar\u00e3o numa longa jornada de literatura, e descobrir as trag\u00e9dias que abalam o mundo (e a sua aldeia de Corgos). <\/p>\n\n\n\n<p>A obra liter\u00e1ria de Carlos de Oliveira n\u00e3o \u00e9 extensa. M\u00e1rio Dion\u00edsio dizia, com gra\u00e7a, que ocupava \u201cpouco mais de um palmo de estante\u201d. Entre romance e poesia, essa curta obra \u00e9 suficiente para descobrir o que nos quis deixar em cada palavra escolhida, em cada peda\u00e7o interior. Dentro de cada livro h\u00e1 um trabalho quase obsessivo, um depuramento permanente de frases e versos (um of\u00edcio de escrita). Todo o excesso de palavras, o ru\u00eddo que distrai, desaparece, restando apenas uma simplicidade rara que, num instante, nos mostra uma paisagem inescap\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo este universo do of\u00edcio da escrita foi muito bem explorado por Osvaldo Silvestre, numa exposi\u00e7\u00e3o no Museu do Neo-Realismo, em 2017, \u00e0 qual o curador chamou<em>&nbsp;\u201ca parte submersa do iceberg\u201d<\/em>. A express\u00e3o, retirada do texto \u201cO Iceberg\u2019<em>\u2019,<\/em>&nbsp;foi usada pelo pr\u00f3prio Carlos de Oliveira para se descrever como um escritor sem biografia, tal como o foi \u201ctodo o escritor portugu\u00eas marginalizado\u201d. Com o objetivo de revelar essa biografia quase clandestina, reprimida, marginalizada de Carlos de Oliveira,&nbsp;<em>\u201ca parte submersa do iceberg\u201d&nbsp;<\/em>teve o m\u00e9rito de trazer \u00e0 tona detalhes que iluminam a nossa compreens\u00e3o de uma obra delicada. Osvaldo Silvestre conduziu-nos nos interst\u00edcios da vida e obra daquele que \u00e9 um dos grandes escritores do s\u00e9c. XX. Desde as suas pr\u00f3prias obsess\u00f5es liter\u00e1rias, semeadas por toda a obra, mas com particular destaque em&nbsp;<em>O Aprendiz de Feiticeiro<\/em>&nbsp;(a b\u00fassola para o mapa do autor), ao desvelar da intimidade das palavras escolhidas, aquela exposi\u00e7\u00e3o mostrou-nos a biografia poss\u00edvel, tang\u00edvel e intang\u00edvel. Toda essa beleza parte, em primeiro lugar, de uma imensa ternura.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Carlos de Oliveira a ternura \u00e9 sentida na delicadeza das descri\u00e7\u00f5es, na aus\u00eancia de paternalismo, num otimismo latente, t\u00e3o acompanhado pelo majestoso&nbsp;<em>Sim!&nbsp;<\/em>de Fernando Namora. \u00c9 uma ternura que viaja por toda a obra, deixando-nos uma pista biogr\u00e1fica sobre a conce\u00e7\u00e3o que o autor tem das v\u00e1rias din\u00e2micas da vida. Tome-se como exemplo a recusa em atribuir \u00e0 mulher um papel subalterno. Em Carlos de Oliveira, a mulher assume um papel emancipado e emancipador. Se em&nbsp;<em>Uma Abelha na Chuva<\/em>esse papel \u00e9 confrontado com as circunst\u00e2ncias da \u00e9poca, em&nbsp;<em>Finisterra<\/em>&nbsp;ele respira outra paisagem, tornando-se mais expl\u00edcito. Mesmo em&nbsp;<em>O<\/em>&nbsp;<em>Aprendiz de Feiticeiro<\/em>&nbsp;(regressamos \u00e0 b\u00fassola), a sua mulher, \u00c2ngela, n\u00e3o nos aparece como um adere\u00e7o. Oliveira revela-nos isso com naturalidade, como na pergunta que ela lhe dirige numa viagem acelerada de carro: \u201cSabes, um suic\u00eddio a dois s\u00f3 com o acordo de ambos e tu n\u00e3o me perguntaste nada, pois n\u00e3o?\u201d N\u00e3o \u00e9 uma pergunta v\u00e3, \u00e9 ret\u00f3rica assertiva sobre rela\u00e7\u00f5es de poder, que ele reconhece como princ\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixemos, por isso, que a nuvem est\u00e9tica de Carlos de Oliveira nos impe\u00e7a de ver os objetivos do seu pensamento, esse permanente caminho onde semeia a ternura, de onde nasce a esperan\u00e7a e a vontade da transforma\u00e7\u00e3o. Sem nunca esquecer o materialismo, ele vai descrever-nos uma realidade de explora\u00e7\u00e3o que se afirma na bo\u00e7alidade de personagens rancorosas. Mas em momento algum nos deixa entregues \u00e0 inevitabilidade. Em Carlos de Oliveira nada \u00e9 fatalismo, tudo \u00e9 horizonte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil encontrar um escritor que tenha trabalhado tanto no seu of\u00edcio, n\u00e3o por vaidade da frase, mas por simplicidade. E talvez seja tudo isto que faz de Carlos de Oliveira (que seja, arrisco!) o mais brilhante escritor do s\u00e9culo XX.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos de Oliveira nasceu h\u00e1 100 anos, a 10 de Agosto de 1921, em Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":4938,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[92],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4917"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4917"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4917\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5003,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4917\/revisions\/5003"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4917"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}