{"id":4913,"date":"2021-08-05T09:05:04","date_gmt":"2021-08-05T09:05:04","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4913"},"modified":"2021-09-07T13:31:57","modified_gmt":"2021-09-07T13:31:57","slug":"cuba-campanha-mediatica-acorda-o-fantasma-da-crise-social%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/05\/cuba-campanha-mediatica-acorda-o-fantasma-da-crise-social%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Cuba: campanha medi\u00e1tica acorda o fantasma da crise social\ufeff"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os protestos de Julho em Cuba foram in\u00e9ditos, alimentados por uma campanha medi\u00e1tica internacional que aproveitou o descontentamento com a pandemia e a escassez, fruto de 60 anos de bloqueio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios meses que se vinham juntando em Cuba os elementos que culminaram na \u201ctempestade perfeita\u201d dos protestos de 11 de Julho (11J), em que centenas de cubanos sa\u00edram \u00e0 rua em v\u00e1rias cidades do pa\u00eds. A economia, estrangulada pelo bloqueio dos EUA h\u00e1 60 anos e dependente do turismo, assistiu a uma contra\u00e7\u00e3o do PIB em 11% em 2020, com a paralisa\u00e7\u00e3o das viagens devido \u00e0 Covid-19. Cuba vive tamb\u00e9m a pior conjuntura de san\u00e7\u00f5es desde os anos 90, impostas por Donald Trump, com a suspens\u00e3o de voos dos EUA e o bloqueio de envios de remessas de familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Janeiro, o governo de Diaz-Canel deu in\u00edcio a um novo plano econ\u00f3mico que p\u00f4s fim \u00e0s duas moedas e o aumento dos sal\u00e1rios. Mas a falta de entrada de capital, bloqueada pelo embargo e a conjuntura pand\u00e9mica, aliada \u00e0 impossibilidade de adquirir mat\u00e9rias-primas, medicamentos e comida, levou a um desabastecimento significativo. Imagens de cubanos em grandes filas, prateleiras vazias, escassez de produtos b\u00e1sicos, apag\u00f5es el\u00e9ctricos e transportes afetados por falta de gasolina (devido \u00e0s san\u00e7\u00f5es \u00e0 Venezuela) acordaram o velho fantasma do Per\u00edodo Especial, a pior crise de que a ilha tem mem\u00f3ria desde o fim da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba parecia ter a situa\u00e7\u00e3o pand\u00e9mica controlada: baixa incid\u00eancia e poucas mortes, comparando com vizinhos latino-americanos. O pa\u00eds, que tem uma ind\u00fastria farmac\u00eautica substancial, desenvolveu ainda, apesar da escassez de mat\u00e9rias-primas, cinco projectos de vacinas contra a Covid-19, duas delas j\u00e1 aprovadas com sucesso. Mas o processo de vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sido c\u00e9lere por falta de seringas (tamb\u00e9m devido ao bloqueio). E deu-se um agravamento da pandemia com a variante Delta, sobretudo na regi\u00e3o de Matanzas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes elementos s\u00e3o comuns a pa\u00edses com economias dependentes de fluxos tur\u00edsticos e assolados por ano e meio de pandemia, e que t\u00eam assistido a protestos, mais ou menos violentos. Mas, ou n\u00e3o estiv\u00e9ssemos a falar de Cuba, aqui \u00e0s \u201ctempestades\u201d caracter\u00edsticas do Caribe, h\u00e1 que se juntar mais duas: o bloqueio dos EUA e a nova campanha internacional.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Campanha medi\u00e1tica<\/h2>\n\n\n\n<p>O 11J foi, segundo analistas, um \u201calarido\u201d, um \u201cprotesto\u201d, um \u201cgolpe brando\u201d, uma \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea\u201d. Cuba n\u00e3o via t\u00e3o grande como\u00e7\u00e3o social desde o Maleconazo, em plena crise de 1994, que levou centenas \u00e0s ruas de Havana, e que deu in\u00edcio a uma onda migrat\u00f3ria balsera para os EUA. Na altura, Fidel Castro foi \u00e0 rua falar com a popula\u00e7\u00e3o e acalmar os \u00e2nimos. Precisamente como fez Diaz-Canel, em San Antonio de los Ba\u00f1os, onde se deram os primeiros protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas uma \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea\u201d&nbsp;n\u00e3o acontece em simult\u00e2neo em v\u00e1rias prov\u00edncias do pa\u00eds \u00e0 mesma hora. Dias antes, as etiquetas #SOSMatanzas e #SOSCuba come\u00e7aram a circular nas redes (Twitter e Facebook), com v\u00eddeos mostrando o suposto caos no hospital de Matanzas. Peti\u00e7\u00f5es contra o governo e pela urg\u00eancia de se abrir um \u201ccorredor humanit\u00e1rio\u201d para a ilha foram partilhadas por influencers, m\u00fasicos e artistas cubano-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo cubano e analistas de dados do Twitter desmontaram o ardil, explicando, \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontecera com o golpe na Bol\u00edvia que destituiu Evo Morales (2019), como a etiqueta #SOSCuba viralizou nas redes na madrugada de dia 10 com milhares de contas falsas criadas horas antes, que apenas repartilhavam o mesmo tweet provocando o movimento artificial do algoritmo.<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00fameras reflex\u00f5es se t\u00eam escrito nas \u00faltimas semanas em Cuba. Revistas, editoriais, murais de facebook, fios no twitter. Umas pr\u00f3ximas de agendas reacion\u00e1rias da Florida, outras comprometidas com a revolu\u00e7\u00e3o; de an\u00f3nimos com vontade de se expressar, ou de intelectuais e artistas famosos. Para um pa\u00eds de que normalmente se diz que n\u00e3o h\u00e1 liberdade de express\u00e3o, nem debate ou participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ativa, estas an\u00e1lises s\u00f3 t\u00eam servido para o desmentir.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor da Revista Temas, Rafael Hern\u00e1ndez, explica que \u201cn\u00e3o houve antes um momento como este em termos de liberdade para criticar o governo, nas redes sociais, mas tamb\u00e9m nos meios p\u00fablicos, nem para aceder a informa\u00e7\u00e3o de fontes muito diversas, incluindo as da oposi\u00e7\u00e3o\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Projeto de futuro<\/h2>\n\n\n\n<p>Na Alma Mater, revista da Universidade de Havana, jovens universit\u00e1rios publicaram uma das mais complexas leituras do 11J: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de casual nem na campanha medi\u00e1tica que antecedeu, nem na simultaneidade dos protestos. (&#8230;) Os operadores da rea\u00e7\u00e3o conseguiram ativar politicamente uma massa consider\u00e1vel de cidad\u00e3os de diferentes localidades. E conseguiram ativ\u00e1-los naturalmente sob a sua pr\u00f3pria agenda reacion\u00e1ria\u201d, diz Iramis Rosique.<\/p>\n\n\n\n<p>O editorial da revista digital Tizza, dirigida por jovens comunistas, explica a orquestra\u00e7\u00e3o: \u201cOs que sa\u00edram em protesto contra o Estado e o socialismo em Cuba eram povo. (&#8230;) [Mas] este sector mais marginalizado do povo foi ativado por uma agenda pol\u00edtica da contra-revolu\u00e7\u00e3o. Esta soube catalisar o seu mal-estar e projetar o seu desejo como desejo capitalista.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O 11J n\u00e3o foi \u201cum confronto entre Estado e povo, mas um confronto entre projectos distintos de futuro\u201d, diz Ernesto Teuma. \u00c9 a revolu\u00e7\u00e3o enquanto projeto de futuro que sublinha o editorial da Tizza, advertindo aqueles que veem hoje em Cuba uma esp\u00e9cie de B\u00e1ltico, Berlim ou Praga. Dois projectos se confrontaram no 11J: um que \u201cque se rendeu \u00e0 agenda dos que sempre pretenderam faz\u00ea-los render por fome e necessidade (&#8230;) e que est\u00e3o dispostos a renunciar \u00e0 soberania e ao socialismo\u201d; e outro que n\u00e3o est\u00e1 disposto a renunciar \u201cnem ao projeto revolucion\u00e1rio que construiu durante gera\u00e7\u00f5es, nem \u00e0 legalidade da Constitui\u00e7\u00e3o socialista que votaram democraticamente, nem na sociedade emancipada que imaginam no seu futuro\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os protestos de Julho em Cuba foram in\u00e9ditos, alimentados por uma campanha medi\u00e1tica internacional que aproveitou o descontentamento com a pandemia e a escassez, fruto de 60 anos de bloqueio. 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