{"id":4909,"date":"2021-08-05T09:02:43","date_gmt":"2021-08-05T09:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4909"},"modified":"2021-08-05T09:02:45","modified_gmt":"2021-08-05T09:02:45","slug":"ultimo-caderno-de-lanzarote-de-jose-saramago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/05\/ultimo-caderno-de-lanzarote-de-jose-saramago\/","title":{"rendered":"\u00daltimo Caderno de Lanzarote, de Jos\u00e9 Saramago"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cN\u00e3o nasci para isto, mas isto foi-me dado.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em tempo de f\u00e9rias, proponho-vos a estimulante (re)leitura do derradeiro caderno de mem\u00f3rias de Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo volume, o 6\u00ba., dos di\u00e1rios de Jos\u00e9 Saramago, encontrado ao acaso num disco r\u00edgido de um dos seus computadores, nessa busca que Pilar del Rio tem vindo a fazer pelas p\u00e9rolas das palavras do maior escritor portugu\u00eas contempor\u00e2neo, tem um amplo significado hist\u00f3rico e cultural dado que todo o&nbsp;<em>caderno&nbsp;<\/em>percorre o ano m\u00e1gico de Saramago e, por substantivo acr\u00e9scimo, o da Literatura escrita e imaginada em portugu\u00eas: a atribui\u00e7\u00e3o do Nobel, em 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste volume vamos encontrar, uma vez mais, e desta feita com um rigor anal\u00edtico acutilante, as preocupa\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e culturais do autor de&nbsp;<em>Levantado do Ch\u00e3o,<\/em>&nbsp;a que se juntam discursos demolidores sobre o capitalismo e a forma como esse sistema vem tratando os direitos humanos, os povos e os trabalhadores deste nosso planeta. Textos que, na conjuntura que vivemos, permanecem como esteios de uma verdade incontorn\u00e1vel, de uma actualidade que d\u00f3i de t\u00e3o inalter\u00e1vel ao longo de 20 anos; textos que nos convocam para a urg\u00eancia de uma luta mais s\u00e9ria e empenhada que, tamb\u00e9m neste dom\u00ednio, \u00e9 preciso prosseguir. Nestes textos\/den\u00fancia cabem os genoc\u00eddios de Chiapas, a matan\u00e7a de Acteal, essa vergonha humana em que os \u00ab\u00edndios s\u00e3o tratados como animais inc\u00f3modos. E a multinacional Nestl\u00e9 aguarda com impaci\u00eancia que o assunto se resolva: o caf\u00e9 e o cacau est\u00e3o \u00e0 espera&#8230;\u00bb(p.74). Cabem igualmente, nestas disserta\u00e7\u00f5es de Saramago, os \u00edndios do Brasil, da Guatemala, da Col\u00f4mbia, do Peru e o sistem\u00e1tico genoc\u00eddio de que s\u00e3o v\u00edtimas, porque o neoliberalismo inventou \u00abo que n\u00e3o existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo.\u00bb Tamb\u00e9m sobre Portugal e essa jangada que se juntou, \u00e0 deriva, n\u00e3o rumo ao sul, como a&nbsp;<em>Pedra<\/em>de Saramago metaforicamente imaginara, mas a uma Europa dos ricos onde \u00abUm pa\u00eds inferior economicamente e politicamente subalterno [&#8230;], sempre haver\u00e1 de correr maiores e mais graves riscos que outros seus \u201cparceiros\u201d bafejados pela Hist\u00f3ria, pela Geografia e pela Fortuna\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3rias e viv\u00eancias de um escritor maior, que afirmava:&nbsp;<em>Bem vistas as coisas, sou s\u00f3 a mem\u00f3ria que tenho, e essa \u00e9 a \u00fanica hist\u00f3ria que quero contar.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00daltimo caderno de Lanzarote. O di\u00e1rio do ano do Nobel \u2013 Porto Editora\/2018<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o nasci para isto, mas isto foi-me dado.\u201d Em tempo de f\u00e9rias, proponho-vos a estimulante (re)leitura do derradeiro caderno de mem\u00f3rias de Jos\u00e9 Saramago. 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