{"id":4869,"date":"2021-08-03T20:16:57","date_gmt":"2021-08-03T20:16:57","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4869"},"modified":"2021-08-03T20:16:59","modified_gmt":"2021-08-03T20:16:59","slug":"prof-ferreira-de-macedo-fundador-da-universidade-popular-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/03\/prof-ferreira-de-macedo-fundador-da-universidade-popular-portuguesa\/","title":{"rendered":"Prof. Ferreira de Macedo, fundador da Universidade Popular Portuguesa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 14 de Junho de 1947, um conjunto de 21 professores universit\u00e1rios foram demitidos dos seus postos de trabalho pelo governo de Salazar, acusados de apoiarem a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles foi Ant\u00f3nio Ferreira de Macedo, professor catedr\u00e1tico no Instituto Superior T\u00e9cnico de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Filho de um casal de comerciantes da vila de Mes\u00e3o Frio, em Tr\u00e1s-os-Montes, estava com 60 anos de idade, numa vida dedicada \u00e0 causa da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou cedo. Ainda no seu tempo de estudante, o jovem Ferreira de Macedo esteve ligado \u00e0 Liga de Educa\u00e7\u00e3o Nacional. Veio depois a ser secret\u00e1rio-geral da Sociedade de Estudos Pedag\u00f3gicos e presidente da Sociedade Portuguesa de Matem\u00e1tica. Tr\u00eas diferentes movimentos colectivos com uma preocupa\u00e7\u00e3o comum: difundir e melhorar o ensino entre a popula\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferreira de Macedo tinha tamb\u00e9m um percurso mais pol\u00edtico. Foi um jovem republicano ainda no tempo da monarquia. Segundo contava, participou na grande greve estudantil de 1907 e na funda\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o de estudantes da Escola Polit\u00e9cnica (que funcionava onde hoje est\u00e1 instalado o Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural e da Ci\u00eancia).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1921, Macedo foi um dos fundadores da revista Seara Nova. E, em 1945, participou na funda\u00e7\u00e3o do MUD (Movimento de Unidade Democr\u00e1tica), no qual assumiu responsabilidades a n\u00edvel nacional, como secret\u00e1rio da \u201cjunta consultiva\u201d, ao lado de Norton de Matos (presidente), e de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio (vice-presidente).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O contributo mais marcante de Ferreira de Macedo est\u00e1 ligado \u00e0 hist\u00f3ria do movimento sindical: a Universidade Popular Portuguesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um projecto de forma\u00e7\u00e3o cultural especialmente direccionado para a classe oper\u00e1ria. Para al\u00e9m de criar uma biblioteca, ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas organizou in\u00fameras confer\u00eancias, bem como sess\u00f5es comentadas de cinema e m\u00fasica. Tudo isto com a participa\u00e7\u00e3o de muitos dos mais prestigiados intelectuais portugueses da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou por ser, em 1919, um projecto \u00e0 escala do bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. Foi a\u00ed que a Universidade Popular Portuguesa nasceu e teve a sua sede, na Cooperativa A Padaria do Povo. Desenvolveu-se depois para outras zonas da cidade, ao criar sec\u00e7\u00f5es instaladas nas sedes de diferentes sindicatos: dos caixeiros, dos arsenalistas do ex\u00e9rcito, dos metal\u00fargicos e dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil. E chegou a Set\u00fabal, onde funcionou na sede do sindicato dos trabalhadores do mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1930, o secret\u00e1rio-geral da Universidade Popular Portuguesa era o anarco-sindicalista Jos\u00e9 Carlos de Sousa. Ele contou ent\u00e3o que esta obra era&nbsp;<em>\u201cdevida a um feliz momento de inspira\u00e7\u00e3o de um nosso dedicado cons\u00f3cio que, nessa iniciativa se viu acompanhado por muitas pessoas que incondicionalmente lhe prestaram a sua coadjuva\u00e7\u00e3o. Esse cons\u00f3cio \u00e9 o Dr. Ferreira de Macedo, cuja energia e f\u00e9 nunca \u00e9 demais encarecer. \u00c0 sua firmeza e saber se deve a conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do nosso instituto, visto que n\u00e3o se limitou apenas a ter a ideia e a efectiv\u00e1-la, mas antes a amparou com a sua prodigiosa actividade, atrav\u00e9s de mil dificuldades em que outros so\u00e7obrariam, cheio de confian\u00e7a no futuro da obra que tanto o empolgava. E, com efeito, a Universidade a\u00ed est\u00e1 honrando como sabe e pode o nome do seu fundador\u201d<\/em>&nbsp;[<em>O Rebate<\/em>, 08\/07\/1930, p.2].<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00fameros documentos e outros testemunhos confirmam este papel de Ferreira de Macedo como principal obreiro da Universidade Popular Portuguesa. Neste ano do centen\u00e1rio da revista&nbsp;<em>Seara Nova<\/em>, vale a pena ler, por exemplo, o que a\u00ed escreveram Alexandre Vieira e Lu\u00eds C\u00e2mara Reis, aquando da morte de Ferreira de Macedo [<em>Seara Nova<\/em>, Outubro 1959, pp. 316 e 325).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o seu contributo individual concretizou-se e foi potenciado no seio de um trabalho colectivo, em que avultaram tamb\u00e9m os contributos de Jos\u00e9 Carlos de Sousa e de Bento Jesus Cara\u00e7a. E tudo isto assentou na organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora: uma cooperativa e pelo menos cinco sindicatos (do antigo movimento sindical livre que foi dissolvido pela ditadura, em 1933).<\/p>\n\n\n\n<p>Assentou&#8230; e assenta ainda: esse trabalho colectivo \u00e9 hoje continuado pela sociedade&nbsp;<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>, que herdou e mant\u00e9m a antiga biblioteca da Universidade Popular Portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O professor Ferreira de Macedo era s\u00f3cio da&nbsp;<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>. E teve aqui tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es que n\u00e3o devem ser esquecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Janeiro de 1934, ele proferiu na&nbsp;<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>&nbsp;uma confer\u00eancia de cariz pedag\u00f3gico, intitulada \u201cAs tarefas actuais de todos os professores-educadores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolta oper\u00e1ria do 18 de Janeiro tinha sido esmagada h\u00e1 poucos dias. E na Alemanha, os nazis j\u00e1 estavam no poder fazia um ano. Ferreira de Macedo apontou ent\u00e3o:&nbsp;<em>\u201catravessamos um dos momentos mais graves, se n\u00e3o o mais grave, da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Estamos nas v\u00e9speras duma nova grande guerra entre na\u00e7\u00f5es [&#8230;]; e vivemos ao mesmo tempo uma \u00e9poca de cru\u00e9is lutas sociais, dentro de cada na\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Perante este quadro, afirmou uma mensagem de esperan\u00e7a, com a sua&nbsp;<em>\u201cf\u00e9 sincera e entusi\u00e1stica no valor da vida e no poder da educa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. (<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>, Junho 1934, p.3]<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 depois da derrota do fascismo na 2\u00aa Guerra Mundial, em Novembro de 1945, Ferreira de Macedo vinha de novo proferir uma confer\u00eancia na&nbsp;<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>, dessa vez sobre \u201cCultura popular\u201d. Mas j\u00e1 no pr\u00f3prio dia, esta confer\u00eancia foi proibida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Janeiro de 1949, Ferreira de Macedo subiu ao palco do sal\u00e3o da&nbsp;<strong><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em><\/strong>&nbsp;para dar a cara pela oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura: aqui presidiu a um com\u00edcio da campanha de Norton de Matos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I No dia 14 de Junho de 1947, um conjunto de 21 professores universit\u00e1rios foram demitidos dos seus postos de trabalho pelo governo de Salazar, acusados de apoiarem a oposi\u00e7\u00e3o. Um deles foi Ant\u00f3nio Ferreira de Macedo, professor catedr\u00e1tico no Instituto Superior T\u00e9cnico de Lisboa. Filho de um casal de comerciantes da vila de Mes\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/03\/prof-ferreira-de-macedo-fundador-da-universidade-popular-portuguesa\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Prof. Ferreira de Macedo, fundador da Universidade Popular Portuguesa<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":4870,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4869"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4869"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4869\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4872,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4869\/revisions\/4872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4869"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}