{"id":4838,"date":"2021-08-03T14:43:37","date_gmt":"2021-08-03T14:43:37","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4838"},"modified":"2021-08-10T10:53:50","modified_gmt":"2021-08-10T10:53:50","slug":"para-um-novo-ano-lectivo-pouco-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/08\/03\/para-um-novo-ano-lectivo-pouco-normal\/","title":{"rendered":"Para um novo ano lectivo (pouco) normal"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta fase da vida, marcada por uma maior necessidade de contacto social com pares, associa-se a um processo de forma\u00e7\u00e3o de identidade, pelo que o isolamento imposto pelo confinamento e fecho das escolas se traduziu num sentimento de vida suspensa. As institui\u00e7\u00f5es de ensino, espa\u00e7os de promo\u00e7\u00e3o de aprendizagem, desenvolvimento, rela\u00e7\u00e3o e cidadania, viram o seu papel coarctado em muitas dimens\u00f5es e tiveram de instituir mudan\u00e7as s\u00fabitas com amplos efeitos em todos os elementos da comunidade educativa (pais, alunos, professores e funcion\u00e1rios). Naturalmente, os efeitos de ano e meio de pandemia s\u00e3o vastos e n\u00e3o se limitam a quest\u00f5es desenvolvimentais, relacionais, de aprendizagem e desempenho. Incluem sentimentos de medo, solid\u00e3o e ang\u00fastia que podem evoluir para estados mais graves de sofrimento psicol\u00f3gico, ansiedade, depress\u00e3o, sono e outros problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica que sobreviver\u00e3o \u00e0 COVID-19. Em particular, a transi\u00e7\u00e3o para o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia gerou stress e cansa\u00e7o, para al\u00e9m de um aumento muito significativo do tempo online. Todos estes problemas t\u00eam efeitos na motiva\u00e7\u00e3o e desempenho, podendo compro- meter o percurso acad\u00e9mico ou levar ao abandono.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudantes do ensino superior parecem ter sido particularmente afectados. A transi\u00e7\u00e3o para o ensino superior \u00e9 sempre dif\u00edcil, pautada por grandes exig\u00eancias e tarefas desenvolvimentais espec\u00edficas (a sa\u00edda de casa dos pais, a mudan\u00e7a de cidade, a forma\u00e7\u00e3o de novos v\u00ednculos, etc.) associadas a n\u00edveis elevados de incerteza face ao percurso acad\u00e9mico, vida social e futuro. Nos \u00faltimos anos, a preval\u00eancia de problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica em estudantes universit\u00e1rios portugueses tem vindo a crescer. Cerca de 17% apresenta sintomatologia depressiva e problemas relacionados com baixa auto-estima, altera\u00e7\u00f5es de humor, quest\u00f5es relacionais e dificuldades acad\u00e9micas (m\u00e9todos de estudo, ansiedade aos exames, etc.). A estes, a pandemia imp\u00f4s desafios acrescidos, do ponto de vista social (distanciamento das redes de suporte, diminui\u00e7\u00e3o da possibilidade de socializa\u00e7\u00e3o) e acad\u00e9mico (adapta\u00e7\u00e3o a novos meios e metodologias). <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um inqu\u00e9rito realizado pelas Associa\u00e7\u00f5es e Federa\u00e7\u00f5es Acad\u00e9micas mostrou que cerca de 55% dos estudantes do ensino superior enfrentou ou enfrenta problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica relacionados com a pandemia <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Este quadro transformou, por completo, a experi\u00eancia acad\u00e9mica. Um inqu\u00e9rito realizado pelas Associa\u00e7\u00f5es e Federa\u00e7\u00f5es Acad\u00e9micas mostrou que cerca de 55% dos estudantes do ensino superior enfrentou ou enfrenta problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica relacionados com a pandemia, com consequ\u00eancias negativas no desempenho (38%) e necessidade de medica\u00e7\u00e3o (28%). Um dado preocupante prende-se com a baixa percentagem (apenas 17%) que procurou apoio psicol\u00f3gico, sendo que a maioria n\u00e3o conhece as solu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis ou n\u00e3o tem recursos econ\u00f3micos para lhes aceder. Este cen\u00e1rio, aliado \u00e0 perda de rendimentos das fam\u00edlias, pode traduzir-se no aumento dos n\u00fameros do abandono, na agudiza\u00e7\u00e3o das desigualdades de acesso ao ensino superior e no aumento da preval\u00eancia de problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica nesta popula\u00e7\u00e3o \u2013 que, consequentemente, aumentam a probabilidade de os manter ou desenvolver na vida adulta. O profundo impacto da pandemia na popula\u00e7\u00e3o estudantil volta a sublinhar a urg\u00eancia de refor\u00e7ar as respostas em cuidados de sa\u00fade psicol\u00f3gica, quer no SNS, quer nas institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>Persistindo a incerteza sobre a evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 imprescind\u00edvel preparar o pr\u00f3ximo ano lectivo dotando as institui\u00e7\u00f5es de ensino de mecanismos e estrat\u00e9gias para enfrentar os efeitos da pandemia, recuperar aprendizagens e garantir o acompanhamento e apoio psicol\u00f3gico aos estudantes, nomeadamente atrav\u00e9s do refor\u00e7o da presen\u00e7a de psic\u00f3logos nos gabinetes de apoio e servi\u00e7os de psicologia. O papel dos psic\u00f3logos \u00e9 essencial na acomoda\u00e7\u00e3o das metodologias que, expectavelmente, ser ir\u00e3o manter. Entendendo-se a necessidade de as flexibilizar para possibilitar a adapta\u00e7\u00e3o a poss\u00edveis situa\u00e7\u00f5es de crise, \u00e9 preciso considerar que as plataformas digitais n\u00e3o substituem a interac\u00e7\u00e3o estudantes-professores. Os estudos portugueses t\u00eam ainda mostrado a import\u00e2ncia do apoio de pares na promo\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o e apoio psico-emocional, e como tal, o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia deve ser conjugado com um regime presencial como garantia do sucesso das aprendizagens e do desenvolvimento individual e social saud\u00e1vel. Os modelos mistos ser\u00e3o os que permitir\u00e3o assegurar esta adaptabilidade, mas apresentam desafios que os psicol\u00f3gicos podem ajudar a enfrentar, como a necessidade de desenvolver compet\u00eancias s\u00f3cio-emocionais (flexibilidade, toler\u00e2ncia ao stress, compet\u00eancia social, au- to-efic\u00e1cia ou capacidade de regula\u00e7\u00e3o) e compet\u00eancias digitais espec\u00edficas. Estas funcionar\u00e3o como factores de protec\u00e7\u00e3o do impacto de resultados negativos e de promo\u00e7\u00e3o do bem-estar psicol\u00f3gico. As interven\u00e7\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade psicol\u00f3gica dirigidas a estudantes podem tamb\u00e9m ajustadas para professores e n\u00e3o docentes, contribuindo para o desenvolvimento saud\u00e1vel e integral e o bem-estar das comunidades educativas. Em suma, a interven\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3logos tem resultados positivos e custo-efectivos documentados e pode ser implementada a n\u00edveis diversos (promocional, preventivo ou remediativo), com vista \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de um ambiente facilitador da aprendizagem, da promo\u00e7\u00e3o de capacidades e compet\u00eancias e do desenvolvimento rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, num contexto novo e que veio para ficar. O seu contributo \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio quanto indispens\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A COVID-19 tem representado um enorme desafio para todos, sendo a comunidade estudantil globalmente identificada como um dos grupos em maior risco do ponto de vista da sa\u00fade psicol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":4841,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[113],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/33"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4838"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4939,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4838\/revisions\/4939"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4838"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}