{"id":4819,"date":"2021-07-19T11:07:32","date_gmt":"2021-07-19T11:07:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4819"},"modified":"2021-08-03T20:26:50","modified_gmt":"2021-08-03T20:26:50","slug":"quando-sol-e-praia-nao-chegam-para-salvar-a-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/07\/19\/quando-sol-e-praia-nao-chegam-para-salvar-a-economia\/","title":{"rendered":"Quando sol e praia n\u00e3o chegam para salvar a economia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A pandemia teve um forte impacto num dos principais setores econ\u00f3micos de Portugal. A atividade tur\u00edstica retrocedeu de forma brutal e fez ressentir um pa\u00eds muito dependente da visita de estrangeiros. Apesar dos efeitos desta retra\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as pol\u00edticas que se revezaram \u00e0 frente dos sucessivos governos optam por n\u00e3o debater um modelo econ\u00f3mico sustentado num aparelho produtivo menos vol\u00e1til e mais qualificado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O peso do turismo no PIB portugu\u00eas \u00e9 um dos mais elevados do mundo. Entre os 36 pa\u00edses membros da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f3mico (OCDE), Portugal apresentava, em 2016, uma maior percentagem do PIB resultante do setor do turismo, mais concretamente 12,5%, de acordo com dados da pr\u00f3pria OCDE. Nesse ano, Portugal estava \u00e0 frente de pa\u00edses como Espanha, M\u00e9xico, Fran\u00e7a, Su\u00e9cia, \u00c1ustria, Indon\u00e9sia, Alemanha, \u00c1frica do Sul, Estados Unidos da Am\u00e9rica, Canad\u00e1, Dinamarca e Jap\u00e3o. Em 2018, Portugal era j\u00e1 o quinto pa\u00eds em que a contribui\u00e7\u00e3o do setor para o PIB era maior. Nesse ano, 19,1% da riqueza produzida decorria do turismo, ficando apenas atr\u00e1s da Gr\u00e9cia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 qualquer problema com o turismo. O problema \u00e9 o peso relativo que esta atividade tem na nossa economia e o peso que tem deve-se \u00e0 fraca din\u00e2mica da nossa produ\u00e7\u00e3o nacional. N\u00e3o \u00e9 o peso do turismo que \u00e9 elevado, \u00e9 o peso da ind\u00fastria que \u00e9 reduzido, \u00e9 o peso dos produtos agr\u00edcolas e da pesca que \u00e9 reduzido\u201d, explica o economista Tiago Cunha, do Grupo de Estudos da CGTP-IN.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sentido contr\u00e1rio, desde a entrada de Portugal na CEE, houve um processo de reconfigura\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que deu primazia ao com\u00e9rcio e servi\u00e7os em detrimento da ind\u00fastria. O nosso pa\u00eds passou por um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o acentuada nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com uma queda do peso do valor acrescentado industrial no PIB de 16%, em 1995, para 11% em 2009, segundo dados do Banco Mundial, e um decl\u00ednio do peso do emprego industrial de 22%, em 2000, para 16%, em 2009, de acordo com a ILOSTAT, da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Tiago Cunha, \u201ch\u00e1 uma divis\u00e3o europeia do trabalho que empurra para isto e at\u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o de produtos semi-acabados que depois s\u00e3o acabados na Alemanha e outros pa\u00edses, onde levam um valor acrescentado. \u00c9 uma quest\u00e3o absolutamente dram\u00e1tica do nosso modelo de desenvolvimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de economia e estudos de desenvolvimento no ISEG, Alexandre Abreu, corrobora esta an\u00e1lise e defende que h\u00e1 diferen\u00e7as \u201cclar\u00edssimas\u201d entre o centro da Europa e a periferia. \u201cO conceito de centro da Europa e periferia \u00e9 fundamentalmente a isto que se refere. Tem a ver com o padr\u00e3o de especializa\u00e7\u00e3o produtiva, mais do que um conceito geogr\u00e1fico, embora nalguns casos tamb\u00e9m coincida com isso. Estamos a falar de ind\u00fastria, setores com mais capacidade de capturar valor, mais assente em tecnologia, conhecimento e mais poder monopolista.&nbsp;As economias perif\u00e9ricas no contexto europeu t\u00eam padr\u00f5es de especializa\u00e7\u00f5es menos sofisticados, menos capacidade de capturar valor, incluindo uma grande parte da sua estrutura produtiva em setores muito desqualificados como o turismo. \u00c9 uma \u00e1rea que n\u00e3o tem praticamente margem para ganhos de produtividade, para funcionar como motor de qualifica\u00e7\u00e3o da economia, para puxar por outros sectores\u201d, refere.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses do norte da Europa, concentrou-se boa parte do aparelho produtivo. A Portugal, Espanha e Gr\u00e9cia, entre outros, sobrou-lhes o turismo, um setor vol\u00e1til e vulner\u00e1vel. Durante v\u00e1rios anos, n\u00e3o foram poucos os especialistas que alertaram para fatores que podiam perturbar o desempenho do turismo. Terrorismo, cat\u00e1strofes naturais e pandemias foram alguns dos perigos apontados. Nesse caso, a aus\u00eancia de uma economia s\u00f3lida, sustentada num aparelho produtivo est\u00e1vel, podia afundar a economia portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tiago Cunha, as duas \u00faltimas d\u00e9cadas \u201cmostram que temos um modelo esgotado, que temos tido ritmos de crescimento an\u00e9micos, um pouco menos a partir de 2015\u201d. Ou seja, uma economia \u201ccrescentemente dependente do exterior\u201d e com um impacto como o das restri\u00e7\u00f5es da pandemia \u201cvem ao de cima a depend\u00eancia da economia face ao exterior e a falta de instrumentos que o Estado portugu\u00eas tem para implementar uma outra pol\u00edtica\u201d. Como o economista do Grupo de Estudos da CGTP-IN, tamb\u00e9m Alexandre Abreu acha que h\u00e1 um conjunto de mecanismos da UE que restringem as escolhas do pa\u00eds. De acordo com o professor do ISEG, este fen\u00f3meno \u201cacentua-se com a ades\u00e3o \u00e0 moeda \u00fanica e \u00e0 Uni\u00e3o Econ\u00f3mica e Monet\u00e1ria (UEM) onde a falta de dinamismo se revela neste padr\u00e3o de falta de especializa\u00e7\u00e3o produtiva. A UEM retira os instrumentos que podiam ajudar Portugal a ultrapassar essas dificuldades. Mas isto j\u00e1 vem de bem antes do boom tur\u00edstico\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O impacto da pandemia&nbsp;e a oportunidade falhada<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo dados do Economic Impact Reporter divulgados em abril pelo World Travel &amp; Tourism Council (WTTC), a contribui\u00e7\u00e3o do setor das viagens e turismo caiu 21 mil milh\u00f5es de euros em 2020. Ou seja, o equivalente a uma quebra de 56,4%. Segundo o estudo anual do WTTC, \u201co colapso dram\u00e1tico do setor de viagens e turismo de Portugal varreu 21 mil milh\u00f5es da economia do pa\u00eds\u201d, o que \u201cindica que a contribui\u00e7\u00e3o do setor para o PIB caiu 56,4% em 2020\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o WTTC lembrava que, nos \u00faltimos 10 anos, \u201co crescimento do setor das viagens e turismo ultrapassou o da economia em geral\u201d e, em 2019, chegou aos 37 mil milh\u00f5es de euros, representando 17,1% do PIB, mas tudo mudou no espa\u00e7o de 12 meses e devido \u00e0 pandemia, tendo sido de apenas 16 mil milh\u00f5es de euros em 2020, o que representou 8,1%.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tiago Cunha, o impacto da pandemia no turismo e na economia do pa\u00eds teria sido \u201cuma oportunidade \u00fanica para romper com estas d\u00e9cadas de estagna\u00e7\u00e3o\u201d debatendo uma alternativa e apostando noutro modelo. \u201cGrande parte dos meios financeiros que temos ao nosso dispor e as estrat\u00e9gias e as prioridades s\u00e3o as dos \u00faltimos 20 anos. O Programa de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR) n\u00e3o pode ser utilizado conforme uma decis\u00e3o soberana do nosso governo, tem de ser utilizado segundo os princ\u00edpios e objetivos da UE\u201d, critica. \u201cEste seria o momento de repensar o futuro que n\u00f3s queremos mas estamos amarrados a estes condicionalismos. Est\u00e1 a utilizar-se este momento de crise para acentuar algumas din\u00e2micas que j\u00e1 vinham de tr\u00e1s, que s\u00e3o causa dos problemas que j\u00e1 temos e que se pretende que venham a ser agravados no futuro: maior transfer\u00eancia de soberania, maior depend\u00eancia face \u00e0 UE, acentuar de derivas federalistas e neoliberais, etc\u201d, entende o economista da CGTP-IN.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Alexandre Abreu, \u00e9 um setor que \u201ctem sido bom\u201d sobretudo no contexto da crise para gerar muito emprego mas \u00e9 um emprego \u201ctendencialmente de baixos sal\u00e1rios, baixa produtividade, com pouca margem de progress\u00e3o\u201d. Considera que \u00e9 \u201cmelhor do que estar afundado na recess\u00e3o\u201d mas \u00e9 \u201caltamente vol\u00e1til\u201d a partir do momento que haja algo que o afete, \u201cseja uma pandemia, seja um problema de terrorismo\u201d. \u00c9 um setor \u201cbastante sens\u00edvel e ressente-se mais do que os outros\u201d.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Precariedade e baixas&nbsp;qualifica\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas para al\u00e9m da forte quebra do peso do turismo no PIB, tamb\u00e9m se fez sentir o forte impacto das medidas restritivas no emprego. O mesmo relat\u00f3rio aponta para a perda de 160 mil empregos em viagens e turismo em todo o pa\u00eds. \u201cAs perdas de empregos foram sentidas em todo o ecossistema das viagens e turismo do pa\u00eds, com as PMEs, que representam oito em cada 10 de todas as empresas do setor, particularmente afetadas\u201d, refere o WTTC, destacando ainda que o impacto desta crise sobre as mulheres, jovens e minorias \u201cfoi significativo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio indica que, no total, o n\u00famero de pessoas empregadas no setor das viagens e turismo em Portugal caiu de pouco mais de um milh\u00e3o, em 2019, para 843 mil, em 2020, o que traduz \u201cuma queda de 16%\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois economistas coincidem no retrato do tipo de emprego no setor do turismo. Mesmo que n\u00e3o houvesse o problema de volatilidade, Alexandre Abreu entende que h\u00e1 um problema estrutural de longo prazo: \u201cn\u00e3o tem grande margem de progress\u00e3o em termos de ganhos de produtividade, em termos de dinamismo econ\u00f3mico, em termos de qualifica\u00e7\u00e3o, no fundo condena um bocado \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o. Consolida esta posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica de Portugal no contexto europeu que n\u00e3o se manifesta s\u00f3 no turismo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tiago Cunha recorda que no ano passado ainda se tentou puxar pelo turismo com o mercado interno. \u201cO problema \u00e9 que n\u00f3s somos um pa\u00eds de baixos sal\u00e1rios e fracos rendimentos que n\u00e3o d\u00e3o a din\u00e2mica que um setor destes, com a infraestrutura que tinha montada, necessitava\u201d, explica. Carateriza o emprego no turismo como sendo marcado por \u201cbaixos sal\u00e1rios, precariedade, sazonalidade e alta rotatividade, acompanhado por lucros colossais\u201d e vai mais longe na an\u00e1lise \u00e0s consequ\u00eancias do atual modelo de turismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas cidades do pa\u00eds, sobretudo Lisboa e Porto, vivem hoje uma grande press\u00e3o. Tiago Cunha lembra a lei do arrendamento, de Assun\u00e7\u00e3o Cristas, aprovada pelo PSD e CDS-PP, durante a troika, que liberalizou o mercado da habita\u00e7\u00e3o. Esta legisla\u00e7\u00e3o \u201cajudou a expulsar a popula\u00e7\u00e3o dos bairros e das cidades\u201d e favoreceu um determinado modelo de turismo s\u00f3 que, para o economista, as pessoas \u201cv\u00eam \u00e0 procura do genu\u00edno\u201d e acabam por encontrar tudo igual. Houve um \u201cgrande impacto social sobre quem vive nos bairros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Alexandre Abreu, este modelo j\u00e1 vem de tr\u00e1s. Com a entrada na Uni\u00e3o Econ\u00f3mica e Monet\u00e1ria, \u201ca ideia era fazer&nbsp;de Portugal a Fl\u00f3rida da Europa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia teve um forte impacto num dos principais setores econ\u00f3micos de Portugal. A atividade tur\u00edstica retrocedeu de forma brutal e fez ressentir um pa\u00eds muito dependente da visita de estrangeiros. 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