{"id":4814,"date":"2021-07-19T11:01:37","date_gmt":"2021-07-19T11:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4814"},"modified":"2021-08-03T14:36:17","modified_gmt":"2021-08-03T14:36:17","slug":"acantonamento-construir-a-autonomia-fora-de-portas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/07\/19\/acantonamento-construir-a-autonomia-fora-de-portas\/","title":{"rendered":"Acantonamento: construir a autonomia fora de portas"},"content":{"rendered":"\n<p>Um acantonamento ou acampamento tem sempre um significado muito especial para todos n\u00f3s, adultos e crian\u00e7as, mas este ano a import\u00e2ncia cresceu imenso. Cresceu na mesma medida em que cresceu a nossa vontade de sair, de respirar, de correr, de saltar, de inspirar profundamente, de nos sentirmos livres. As crian\u00e7as t\u00eam pressa, s\u00e3o crian\u00e7as durante pouco tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ano damos a este momento um espa\u00e7o ainda mais especial, cuidamos dos seus preparativos como se cuid\u00e1ssemos de algo fr\u00e1gil e que se refugia nas nossas m\u00e3os, mas que a qualquer momento nos poder\u00e1 fugir por entre os dedos, sem que possamos fazer mais do que olhar para o horizonte com o olhos brilhantes e o cora\u00e7\u00e3o apertado. Este ano somos construtores de uma casa que pode nunca ser habitada mas que constru\u00edmos todos os dias mais um bocadinho com um sentimento de esperan\u00e7a que nos faz continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 isto a constru\u00e7\u00e3o de um acantonamento! Este ano em particular, acantonamento \u00e9 o sentido da vida apenas em 13 letras.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Onde come\u00e7amos a nossa constru\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos com uma vontade que cresce em cada um de n\u00f3s, come\u00e7amos por perceber o que queremos para finalizar o nosso ano letivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E quando temos tantas vozes a dizer coisas como: \u201cacantonar faz-nos crescer\u201d; \u201cacantonar \u00e9 saber viver com os outros, mesmo a s\u00e9rio!\u201d; \u201c vamos combinar o que fazemos durantes estes dias, sem nos esquecermos que temos de deixar tempo para cada um aproveitar bem o espa\u00e7o\u201d; \u201cj\u00e1 sei o que temos de levar nas malas,sem exageros!\u201d; \u201c viver dias inteiros sem ir a casa \u00e9 tamb\u00e9m aprendermos a cuidar de n\u00f3s pr\u00f3prios.\u201d; \u201ce se algu\u00e9m tem medo do escuro? O melhor \u00e9 levar uma luz e presen\u00e7a&#8230;daquelas que se p\u00f5e no corredor, sabes?\u201d. E tantas outras frases que nos fazem pensar que talvez estejamos a fazer a escolha certa ao promover estes dias de aprendizagem fora de portas, fora de quatro paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder pedag\u00f3gico desta atividade \u00e9 enorme, \u00e9 algo que transcende o modo de pensar, \u00e9 algo que d\u00e1 mais valor ao que queremos fazer dentro das nossas salas de aula. Roubando umas palavras ao Makarenko \u201c\u00e9 um poema pedag\u00f3gico\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Autonomia \u00e9 palavra de ordem&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Autonomia, consci\u00eancia das aprendizagens, saber escolher o seu pr\u00f3prio caminho, cooperativismo, interven\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o as palavras de ordem dentro e fora da sala. E se, dentro da sala, fazemos por organizar e gerir, de forma cooperada, a sala de aula e a vida da turma no conselho de coopera\u00e7\u00e3o educativa, quando viajamos para fora da sala de aula, organizamos e gerimos de forma cooperada o&nbsp;novo contexto, que pode ser uma quinta, uma cidade, um campo de f\u00e9rias. Cada um tem uma palavra a dizer sobre as decis\u00f5es a tomar. E se h\u00e1 j\u00e1 coisas predefinidas, h\u00e1 que as perceber, entender, discutir e, se poss\u00edvel e necess\u00e1rio, propor uma mudan\u00e7a. Continuamos a construir em coletivo esta eterna viagem chamada autonomia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para se partir da escola para outro espa\u00e7o que \u00e9 tamb\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o e aprendizagem, h\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para o fazermos atrav\u00e9s de aprendizagens promovidas atrav\u00e9s de projetos, gui\u00f5es e outros trabalhos explorat\u00f3rios-previos. H\u00e1 que estudar para onde vamos, as potencialidades, a envolv\u00eancia natural-cultural de cada um dos espa\u00e7os escolhidos, de modo a que haja algo de interventivo, sentido em cada um dos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos n\u00f3s fomos privados, durantes estes dois anos, de muitos dos nossos habituais circuitos de comunica\u00e7\u00e3o, mas agora imp\u00f5e-se que estejamos, ainda mais atentos a eles, de modo a que consigamos partilhar o que esperamos de um momento t\u00e3o especial, como \u00e9 o acantonamento ou acampamento. H\u00e1 cartas a escrever, h\u00e1 partilhas a serem feitas, h\u00e1 muita da prepara\u00e7\u00e3o que pode e deve entrar e sair por estes circuitos de comunica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Somos, muitas vezes, aquilo&nbsp;que conseguimos comunicar e por isso valorizamos tanto a comunica\u00e7\u00e3o entre grupos, entre alunos, entre adultos. \u00c1s vezes nem sempre conseguimos atingir o que queremos, mas temos sempre uma perspectiva de fazer mais e melhor. Por isso, sublinhamos o caminho de dizer as aprendizagens, explicitar os conflitos. S\u00f3 assim se aprende: elaborando a informa\u00e7\u00e3o, ou os sentimentos, de forma a que se tornem intelig\u00edveis para os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>O acantonamento \u00e9 um momento em que conseguimos, e de uma forma mais genu\u00edna, mais livre e mais descomprometida, faz\u00ea-lo naturalmente e por isso aprendemos sempre tanto com isso. Achamos que todos os anos estamos um bocadinho melhor e sa\u00edmos dele cada vez mais fortalecidos e a acreditar na for\u00e7a da comunica\u00e7\u00e3o, como forma de aprender e ensinar melhor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na autonomia de cada um, fortalecemos o caminho que \u00e9 individual e espec\u00edfico em cada aluno, professor e auxiliar que faz parte desta atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 forma de termos equipas mais fortes e capazes de superar desafios, ser\u00e1 certamente envolvendo todos na constru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria autonomia. E haver\u00e1 s\u00edtio melhor do que um acantonamento, em que temos de fazer as nossas pr\u00f3prias escolhas em quase todas as \u00e1reas do desenvolvimento humano? O que vestir, o que usar ou n\u00e3o, o que ser\u00e1 mais adequado para esta atividade, o que fazer se n\u00e3o consigo dormir, ou se n\u00e3o gosto daquela comida? O que fazer se me sentir com saudades? O que fazer se se avariar o fecho dos cal\u00e7\u00f5es?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o estar\u00e1 sempre em n\u00f3s e com a beleza de ter um N\u00d3S enorme \u00e0 nossa volta, que poder\u00e1 ser t\u00e3o \u00fatil, mas a escolha ser\u00e1 nossa. E se crescemos com isto? Tanto! Tanto! Tanto! Adultos e crian\u00e7as, ficamos sempre diferentes e melhores depois de mais uns dias livres fora de portas, fora do nosso n\u00facleo, mas na mesma fam\u00edlia, a&nbsp;fam\u00edlia d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E os mais pequeninos?<\/h2>\n\n\n\n<p>Este ano, desde o pr\u00e9-escolar at\u00e9 ao 2\u00ba ciclo, todos os alunos ter\u00e3o a oportunidade de experimentar&nbsp; tudo isto.<\/p>\n\n\n\n<p>No pr\u00e9-escolar, o acantonamento e todas as visitas que fazemos t\u00eam como objetivo principal, proporcionar&nbsp;\u00e0s nossas crian\u00e7as&nbsp; experi\u00eancias enriquecedoras, que lhes&nbsp;permitam alargar os horizontes, observar, conhecer e questionar o mundo que as rodeia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A envolv\u00eancia em todo o processo de organiza\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o do acantonamento \u00e9 grande. Muitas conversas, reflex\u00f5es e decis\u00f5es tomadas em conjunto sobre o que vamos precisar e o que podemos fazer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do adeus aos pais, \u00e9 tempo de ficar v\u00e1rios dias s\u00f3 com os amigos e os adultos que nos s\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximos. Estarmos juntos, permite que se crie e aprofunde rela\u00e7\u00f5es e amizades que certamente ir\u00e3o perdurar no tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A autonomia e independ\u00eancia,&nbsp; parte essencial do desenvolvimento da crian\u00e7a, nestes dias \u00e9 potenciada a olhos vistos: o cuidar de si, cal\u00e7ar-se e descal\u00e7ar-se, vestir-se e despir-se, arrumar os seus pertences, fazer a cama e ajudar os outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o est\u00e1 assente em tudo o que fazemos. O sucesso de um \u00e9 o sucesso de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja numa aldeia ou num campo de f\u00e9rias,&nbsp; esta experi\u00eancia \u00e9 muito enriquecedora. As atividades s\u00e3o todas cuidadosamente escolhidas, de forma a que as crian\u00e7as tenham um contacto privilegiado com a natureza e fortale\u00e7a la\u00e7os de amizade com todos os pares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, fica sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que soube a pouco e come\u00e7amos a contar os dias para o pr\u00f3ximo.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1.\u00ba ciclo em contato com a natureza<\/h2>\n\n\n\n<p>No 1\u00ba ciclo partiremos \u00e0 descoberta da zona de Tomar e Sert\u00e3, dando mais realce ao espa\u00e7o natural e \u00e0s atividades radicais, algo de que temos sentido mais falta e que mais interesse despertam nas conversas que temos em salas de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais motivos desta escolha prendem-se com: conhecer as regras de conviv\u00eancia com a natureza, em espa\u00e7os estruturados e preparados para o efeito, levar a escola para fora do nosso grande edif\u00edcio centen\u00e1rio, alargar o conhecimento para fora da \u00e1rea de&nbsp;Lisboa e Vale do Tejo e ter a possibilidade de uma pequena inicia\u00e7\u00e3o a uma s\u00e9rie de desportos que s\u00e3o mais dif\u00edceis de praticar na nossa \u00e1rea da escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Montar toda uma din\u00e2mica semelhante ao que se faz em sala de aula, onde escolhemos as responsabilidades\/tarefas adequadas ao espa\u00e7o, criarmos equipas de trabalho para tendas ou camaratas, organizamos, em alguns casos, a ementa e agenda semanal, \u00e9 tamb\u00e9m algo que pode ser necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Criamos previamente equipas que far\u00e3o as listas de material necess\u00e1rio levar e aprender a fazer uma mala de viagem adequada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, com pr\u00f3s e contras.&nbsp;A quest\u00e3o dos equipamentos eletr\u00f3nicos, n\u00e3o os diabolizando, mas mostrando o interesse que t\u00eam e a pouca utilidade que ter\u00e3o no acantonamento, \u00e9 tamb\u00e9m um tema que muito abordamos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria numa camarata ou num acampamento \u00e9 algo que tem muita import\u00e2ncia, visto que se trata de com quem vamos passar os dias, 24h sobre 24h, e ainda por cima com quem vamos partilhar o espa\u00e7o de dormida, espa\u00e7o este onde cada um mostrar\u00e1 inevitavelmente as suas fragilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo o que fazemos antes de partirmos \u00e9 j\u00e1 algo que nos faz aprender muito. O que vivemos l\u00e1 d\u00e1-nos mais crescimento e capacidade de partilha e, claro, aprendizagem, curricular e de outros tipos. E depois, h\u00e1 ainda muita coisa que fica por acomodar-se em n\u00f3s e que leva anos a tomar o seu devido lugar.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2.\u00ba ciclo explora a cidade<\/h2>\n\n\n\n<p>No 2\u00ba ciclo continuamos a crescer e a criar novas oportunidades de explorar o mundo. As cidades e o poder que t\u00eam na vida das pessoas; conhecer e viver uma cidade do nosso pa\u00eds, com tudo o que se pode ver e viver no seu dia-a-dia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com os alunos, exploramos as possibilidades, constru\u00edmos conceitos e fazemos descobertas sobre o que cada cidade pode esconder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De modo a darmos uma nova vida ao que \u00e9 acantonar, partimos \u00e0 descoberta de uma vida mais citadina. Este ano, a cidade a descobrir ser\u00e1 a bela cidade invicta do Porto.<\/p>\n\n\n\n<p>E que bom que \u00e9 quando um ex-aluno com 18 anos nos diz \u201cque saudades dos acantonamentos, estas coisas ficam mesmo para a vida!\u201c, ou um outro, de 21 anos,&nbsp;\u201csomos t\u00e3o felizes e aprendemos tanto nos acampamentos, para a vida e s\u00f3 percebemos isso quando j\u00e1 temos barba!\u201d. Seja l\u00e1 que isto for, se fica para a vida com este brilho, \u00e9 porque independentemente de ser no pr\u00e9-escolar, 1\u00ba ciclo ou 2\u00ba ciclo, \u00e9 para continuarmos a investir.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas escolas t\u00eam morrido ao longo desta dif\u00edcil caminhada: a rotina, os quadrados, os percursos, as limpezas, a repeti\u00e7\u00e3o di\u00e1ria sem emo\u00e7\u00f5es nem varia\u00e7\u00f5es. Escolas sem solu\u00e7\u00e3o que transformam crian\u00e7as em prisioneiros e onde deixou de se brincar, de partilhar e de viver. Na nossa escola nada disto acontece. Temos encontrado o nosso caminho na complexidade das rela\u00e7\u00f5es sociais de toda a comunidade educativa, em particular no di\u00e1logo com as fam\u00edlias e na procura de solu\u00e7\u00f5es coletivas, para que a escola se torne, cada vez mais, da comunidade. Para que a possamos reconhecer, amar e da qual tenhamos orgulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Parab\u00e9ns a todos n\u00f3s. N\u00f3s somos o coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Equipa pedag\u00f3gica do espa\u00e7o educativo da Gra\u00e7a<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um acantonamento ou acampamento tem sempre um significado muito especial para todos n\u00f3s, adultos e crian\u00e7as, mas este ano a import\u00e2ncia cresceu imenso. Cresceu na mesma medida em que cresceu a nossa vontade de sair, de respirar, de correr, de saltar, de inspirar profundamente, de nos sentirmos livres. 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