{"id":4809,"date":"2021-07-15T23:41:17","date_gmt":"2021-07-15T23:41:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4809"},"modified":"2021-07-15T23:41:19","modified_gmt":"2021-07-15T23:41:19","slug":"gneco-um-correspondente-de-engels-nos-primordios-de-a-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/07\/15\/gneco-um-correspondente-de-engels-nos-primordios-de-a-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"Gneco, um correspondente de Engels nos prim\u00f3rdios de A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>\u00a0est\u00e1 especialmente ligada \u00e0 difus\u00e3o do marxismo em Portugal, desde o s\u00e9culo XIX. Logo na sua primeira d\u00e9cada de exist\u00eancia, publicou uma parte de\u00a0<em>Mis\u00e9ria da Filosofia\u00a0<\/em>de Marx (com tradu\u00e7\u00e3o de Heliodoro Salgado) e o\u00a0<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>\u00a0de Marx e Engels (traduzido por Jos\u00e9 Nobre Fran\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p>Passaram agora, no dia 29 de Junho, 110 anos que faleceu um dos raros correspondentes de Engels em Portugal. Seu nome era Eud\u00f3xio C\u00e9sar Azedo Gneco.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois ele n\u00e3o s\u00f3 colaborou ocasionalmente neste jornal, nos anos 1880 e 1890, como esteve entre os s\u00f3cios fundadores da sociedade\u00a0<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>. Participou ali\u00e1s no debate de ideias que definiu os seus primeiros estatutos, bem como na assembleia geral que elegeu os primeiros corpos sociais, em 1883. Ele pr\u00f3prio foi nessa altura eleito para uma comiss\u00e3o de propaganda de A Voz do Oper\u00e1rio, por proposta de Cust\u00f3dio Braz Pacheco [<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, 11\/03\/1883, p.3].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sindicalismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Azedo Gneco nasceu em 1849, em Samora Correia. Segundo o seu bi\u00f3grafo C\u00e9sar Nogueira, ele era um jovem membro da Ma\u00e7onaria quando, sob o impacto da Comuna de Paris, se envolveu nas lutas oper\u00e1rias. Filiou-se na Primeira Internacional e salientou-se no primeiro embri\u00e3o de central sindical em Portugal, a \u201cAssocia\u00e7\u00e3o de Resist\u00eancia Fraternidade Oper\u00e1ria\u201d, fundada em 1872. Foi depois um dinamizador de novas estruturas confederativas sindicais, como a \u201cAssocia\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Regi\u00e3o Portuguesa\u201d, criada em 1873, e a \u201cConfedera\u00e7\u00e3o Nacional das Associa\u00e7\u00f5es de Classe\u201d, em 1894 [C\u00e9sar Nogueira (1934),&nbsp;<em>Esbo\u00e7o biogr\u00e1fico de Azedo Gnecco<\/em>, pp. 8\/10].<\/p>\n\n\n\n<p>Gneco \u00e9 usualmente mais referido como \u201cl\u00edder hist\u00f3rico\u201d do antigo Partido Socialista Portugu\u00eas, do qual foi um dos principais fundadores, em 1875. Mas aqui mesmo, na\u00a0<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, ele expressou de forma clara que a sua prioridade seria o trabalho sindical. Afirmou ele que\u00a0<em>\u201ctodos os esfor\u00e7os para a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora s\u00e3o louv\u00e1veis e merit\u00f3rios; mas, quanto a n\u00f3s, os mais subidos ser\u00e3o aqueles que juntarem os oper\u00e1rios em associa\u00e7\u00f5es de classe, federadas nacionalmente, e confederadas umas com as outras\u201d<\/em>\u00a0[<em>V.O.<\/em>, 15\/04\/1883, p.3].<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAssocia\u00e7\u00e3o de classe\u201d era a express\u00e3o que na altura se usava em Portugal para designar sindicato, e que ficaria consagrada na primeira lei sindical, em 1891.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo artigo, Gneco sublinhou a import\u00e2ncia da fraternidade que deve existir entre trabalhadores de diferentes sectores, apelando \u00e0&nbsp;<em>\u201ccompreens\u00e3o de que de que ser\u00e1 da liga dos esfor\u00e7os de todas as classes oper\u00e1rias que sair\u00e1 a for\u00e7a de cada uma\u201d<\/em>[<em>ibidem<\/em>].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bento Gon\u00e7alves<\/h2>\n\n\n\n<p>Bento Gon\u00e7alves era de outra gera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nasceu no s\u00e9culo XX. Tinha 9 anos quando Gneco faleceu. E era muito cr\u00edtico do velho Partido Socialista Portugu\u00eas, a seu ver demasiado reformista. Mas, ao referir-se \u00e0 hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio em Portugal no s\u00e9culo XIX, destacou que Gneco&nbsp;<em>\u201cfoi, a partir de certa altura, a figura mais saliente, o socialista mais capacitado, o que mais se aproximava das ideias de Marx, postas em marcha atrav\u00e9s dos princ\u00edpios da Primeira Internacional\u201d<\/em>. E apontou ainda&nbsp;<em>\u201ca perseveran\u00e7a deste militante, o seu entusiasmo, a sua experi\u00eancia\u201d<\/em>&nbsp;[Bento Gon\u00e7alves (1974),&nbsp;<em>Palavras Necess\u00e1rias<\/em>, p. 14].<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201caproxima\u00e7\u00e3o\u201d de Gneco \u00e0s ideias de Marx n\u00e3o ficou apenas dentro das fronteiras de Portugal: ele foi delegado ao congresso de 1896 da Segunda Internacional, em Londres. E a\u00ed integrou a corrente marxista numa decis\u00e3o marcante: a separa\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o da corrente anarquista [<em>El Socialista<\/em>, 07\/08\/1896, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Marx morreu, em 1883, foi Gneco o orador principal na sess\u00e3o de homenagem f\u00fanebre que se realizou em Lisboa, por iniciativa da Associa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Regi\u00e3o Portuguesa [<em>V.O.<\/em>, 22\/04\/1883, p.3].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O funeral<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1911, o funeral de Azedo Gneco saiu da sede de uma uni\u00e3o de sindicatos, a Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Oper\u00e1rias de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>O cortejo f\u00fanebre reuniu mais de duas mil pessoas e foi encabe\u00e7ado pelo sindicalista Joaquim Ferreira Batista (oper\u00e1rio alfaiate) que seria mais tarde, e durante muitos anos, o 1\u00ba secret\u00e1rio da assembleia-geral da sociedade\u00a0<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um cortejo engalanado sobretudo com bandeiras de sindicatos: dos manipuladores de p\u00e3o, dos canteiros e caboqueiros, dos mec\u00e2nicos em madeira, dos oper\u00e1rios sapateiros, dos construtores de macadam, dos jardineiros, dos calceteiros, dos curtidores de solas e cabedais, dos latoeiros de folha branca, dos condutores de carro\u00e7as, dos mec\u00e2nicos de a\u00e7\u00facar, dos oper\u00e1rios das cervejas e gasosas e das oper\u00e1rias costureiras e ajuntadeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios outros sindicatos se fizeram representar. O corpo de Azedo Gneco foi levado numa carreta da Associa\u00e7\u00e3o do Registo Civil e do Livre Pensamento, \u00e0 qual foi acrescentado um d\u00edstico com a c\u00e9lebre frase final do&nbsp;<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>:&nbsp;<em>\u201cProlet\u00e1rios de todo o mundo, uni-vos!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Entre os dez oradores no funeral, esteve o ent\u00e3o redactor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Jos\u00e9 Fernandes Alves [<em>V. O.<\/em>, 09\/07\/1911, p.1].<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um poema<\/h2>\n\n\n\n<p>Na mesma edi\u00e7\u00e3o, o nosso jornal publicou um poema de homenagem, com autoria do militante socialista e sindical Avelino de Sousa, grande refer\u00eancia do fado oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui ficou Azedo Gneco recordado como um\u00a0<em>\u201caudaz continuador\u201d<\/em>\u00a0de Marx, que\u00a0<em>\u201cem quarenta anos foi o c\u00e9rebro maior das lutas sociais em todo o Portugal\u201d<\/em>\u00a0[<em>V. O.<\/em>, 09\/07\/1911, p.2].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Voz do Oper\u00e1rio\u00a0est\u00e1 especialmente ligada \u00e0 difus\u00e3o do marxismo em Portugal, desde o s\u00e9culo XIX. Logo na sua primeira d\u00e9cada de exist\u00eancia, publicou uma parte de\u00a0Mis\u00e9ria da Filosofia\u00a0de Marx (com tradu\u00e7\u00e3o de Heliodoro Salgado) e o\u00a0Manifesto do Partido Comunista\u00a0de Marx e Engels (traduzido por Jos\u00e9 Nobre Fran\u00e7a). 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