{"id":4701,"date":"2021-06-28T14:44:17","date_gmt":"2021-06-28T14:44:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4701"},"modified":"2021-07-19T11:01:36","modified_gmt":"2021-07-19T11:01:36","slug":"sobre-o-nome-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/06\/28\/sobre-o-nome-maria\/","title":{"rendered":"Sobre o nome Maria"},"content":{"rendered":"\n<p>Depois de tr\u00eas dias nas prateleiras, o conte\u00fado \u201cinsanavelmente pornogr\u00e1fico e  atentat\u00f3rio da moral p\u00fablica\u201d, corajosamente editado  pela Maria-Nat\u00e1lia, \u00e9 recolhido e destru\u00eddo. As autoras  s\u00e3o levadas a tribunal. Enquanto isso, tr\u00eas exemplares  chegam clandestinamente a Paris, \u00e0s m\u00e3os de Maria- -Simone, Maria-Marguerite e Maria-Christiane, dando  origem a uma onda de protestos que percorre a Europa  e os Estados Unidos. \u00c9 a primeira causa feminista com  express\u00e3o internacional. Poucos dias depois do derrube da ditadura, as tr\u00eas Marias s\u00e3o finalmente absolvidas \u2013 Era \u201co fim do esc\u00e2ndalo\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria dessa aud\u00e1cia \u00e9 contada no percurso constru\u00eddo pela Maria-Rita e pela Maria-Joana na exposi\u00e7\u00e3o,  \u201cMulheres e Resist\u00eancia \u2013 Novas Cartas Portuguesas e  Sobre o nome Maria Outras Lutas\u201d, patente no Museu do Aljube Resist\u00eancia e  Liberdade. Abrimos o livro para encontrar a carta de Maria \u00e0 sua patroa, desculpando-se do cansa\u00e7o e da fraca  sa\u00fade, resultado das agress\u00f5es de um marido diferente  regressado da guerra, do trabalho sem folgas ou tempo  para lam\u00farias. A de Ant\u00f3nio para a menina Maria, a servir em Lisboa, rogando-lhe que fosse sua madrinha de  guerra e lhe aliviasse a solid\u00e3o. Ou a de Maria-sem-nome, abandonada no ch\u00e3o, inchando e sangrando, apesar  de lhe cozer as batatas, lhe tratar da roupa, lhe parir os  seis filhos que ele lhe fez. S\u00e3o hist\u00f3rias de pobreza, de  sujei\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A exposi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria Mulheres e Resist\u00eancia \u2013 Novas  Cartas Portuguesas e outras lutas, com curadoria de Rita  Rato e Joana Alves, pode ser visitada no Museu do Aljube  Resist\u00eancia e Liberdade at\u00e9 31 de Dezembro de 2021  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O momento da absolvi\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhes devolveu a justi\u00e7a. Uma curiosa entrevista, gravada apenas dias ap\u00f3s  o veredicto, mostra-nos um entrevistador a aventurar  duas ou tr\u00eas novas acusa\u00e7\u00f5es. A de que o livro n\u00e3o teria propriamente \u201ca linguagem das coisas simples, que  chega \u00e0s pessoas\u201d. A de que o livro seria at\u00e9 \u201cum bocado  chato\u201d. Maria-Velho responde-lhe com o desinteresse  em tornar as coisas simples e a vontade de tornar-nos  capazes. J\u00e1 Maria-Isabel aponta a estrutura social vigente como a principal culpada pela suposta inacessibilidade do texto. Maria-Teresa \u00e9 mais directa: \u201c\u00c9s o quarto  homem que me diz que o livro \u00e9 chato e n\u00e3o o conseguiu  ler at\u00e9 ao fim (\u2026) nenhuma mulher diz isso, antes pelo  contr\u00e1rio. Todas as mulheres o t\u00eam entendido e t\u00eam lido  at\u00e9, digamos, avidamente\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Foi essa inquieta\u00e7\u00e3o, e a de muitas outras mulheres  que nunca baixaram os bra\u00e7os desde o cair da longa  noite do fascismo, que seguiu levantando das sombras  as hist\u00f3rias das Marias das cartas, lhes deu identidade  e corpo e lhes somou a voz de outras vozes com elas.  A exposi\u00e7\u00e3o revela estas batalhas, lembrando que por  elas prossegue o caminho da resist\u00eancia, pela afirma\u00e7\u00e3o da igualdade, da justi\u00e7a e da liberdade, na casa, na  fam\u00edlia, no trabalho, na comunidade, na pol\u00edtica. At\u00e9  que todas as vozes possam ser ouvidas, com a clareza a  que t\u00eam direito.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas Marias, tr\u00eas mulheres, tr\u00eas escritoras, juntaram- -se em Maio de 71 e resolveram escrever um livro que  desse voz \u00e0s mulheres deste pa\u00eds, libertando-as da  condi\u00e7\u00e3o subserviente e de sil\u00eancio a que a dec\u00eancia  e costumes condenavam.<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":4702,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[113],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4701"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/33"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4701"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4816,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4701\/revisions\/4816"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4701"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}