{"id":4693,"date":"2021-06-15T13:35:18","date_gmt":"2021-06-15T13:35:18","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4693"},"modified":"2021-08-05T09:34:36","modified_gmt":"2021-08-05T09:34:36","slug":"os-dias-em-que-a-morte-caiu-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/06\/15\/os-dias-em-que-a-morte-caiu-do-ceu\/","title":{"rendered":"Os dias em que a morte caiu do c\u00e9u"},"content":{"rendered":"\n<p>O reacender medi\u00e1tico da limpeza \u00e9tnica nos Territ\u00f3rios Ocupados e a continua\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio perpetrado por Israel, reacendeu o debate em torno da quest\u00e3o da Palestina. O drama \u00e9 que, ap\u00f3s o cessar-fogo anunciado, assim que as imagens da C\u00fapula de Ferro deixarem de atrair as aten\u00e7\u00f5es das edi\u00e7\u00f5es internacionais da imprensa ocidental, o cen\u00e1rio ser\u00e1 ainda pior do que era antes. Nem a destrui\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio onde se encontravam os escrit\u00f3rios da Associated Press e da Al-Jazeera parecem ser suficientes para agu\u00e7ar algum sentido cr\u00edtico entre alguns jornalistas. O saldo, desta vez, traduz-se em 231 mortos, 61 crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Igni\u00e7\u00e3o em Sheik Jarrah<\/h2>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia aos desalojamentos no bairro palestiniano de Sheik Jarrah, para que as resid\u00eancias possam ser ocupadas por israelitas, estiveram na origem do massacre que ocorreu durante onze dias na Faixa de Gaza, um campo de refugiados a c\u00e9u aberto, que \u00e9 alvo f\u00e1cil para um dos ex\u00e9rcitos mais desenvolvidos do Mundo. Estas opera\u00e7\u00f5es de despejo fazem parte de uma limpeza \u00e9tnica que acontece fora dos holofotes daquilo a que a imprensa ocidental gosta de chamar \u201ccomunidade internacional\u201d, por mais desumano que seja. Por\u00e9m, tenhamos no\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 essa \u201ccomunidade internacional\u201d: trata-se da UE, dos EUA, Jap\u00e3o, Coreia do Sul e dos pa\u00edses brancos do hemisf\u00e9rio sul, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00c9 o capitalismo, est\u00fapido!<\/h2>\n\n\n\n<p>O posicionamento dos pa\u00edses da UE, incluindo o governo de Portugal, de total alinhamento com os EUA, n\u00e3o se explica por qualquer an\u00e1lise humanit\u00e1ria ou preocupa\u00e7\u00e3o com os israelitas que defendem o direito do povo palestiniano \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, e que sofrem retalia\u00e7\u00f5es por isso. O complexo industrial militar dos EUA e da UE precisa de um M\u00e9dio Oriente inst\u00e1vel. Dele dependem muitas das inova\u00e7\u00f5es militares conseguidas ao longo dos anos, como o uso generalizado de ataques por drones militares, e o pr\u00f3prio conceito da C\u00fapula de Ferro, financiado pelos EUA, que cobre o espa\u00e7o a\u00e9reo de Israel. Entre 2009 e 2020, 70% das despesas israelitas com armamento foram para os EUA, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. J\u00e1 a Campanha Contra o Com\u00e9rcio de Armas avalia em 4,9 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares a compra de armamento aos EUA por parte de Israel, entre 2013 e 2017. Conv\u00e9m relembrar que, enquanto apelava \u00e0 conten\u00e7\u00e3o do que designa por \u201cconflito\u201d, o presidente Joe Biden fechava um neg\u00f3cio de vendas de armas no valor de 735 milh\u00f5es de d\u00f3lares, avan\u00e7ou o Washington Post. O democrata tem ainda \u00e0 espera uma aprova\u00e7\u00e3o do Congresso que prev\u00ea, at\u00e9 2028, um financiamento militar a Israel na ordem dos 34,2 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. Por isso, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que tenha sido imposs\u00edvel chegar a uma declara\u00e7\u00e3o conjunta no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, reunido de emerg\u00eancia, uma vez que contou sempre com o veto dos estado-unidenses.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os direitos humanos e a UE<\/h2>\n\n\n\n<p>Que na UE, os direitos humanos pelos quais pugna variam de latitudes, j\u00e1 sabemos, mas \u00e9 preciso ter muita gin\u00e1stica para augurar-se na vanguarda quando, simultaneamente, Alemanha e It\u00e1lia s\u00e3o respons\u00e1veis por uma parte substancial do que sobra dos 30% de com\u00e9rcio de armamento israelita. Os apelos tardios \u00e0 conten\u00e7\u00e3o, for\u00e7ados por uma opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 diferente de opini\u00e3o publicada \u2013 cada vez mais farta de imagens de crian\u00e7as mortas \u00e0s m\u00e3os de genocidas, obrigou ao apelo \u00e0 \u201ccessa\u00e7\u00e3o do conflito por ambas as partes\u201d, declara\u00e7\u00e3o vaga e vazia que j\u00e1 s\u00f3 convence quem quer ser convencido. Desta vez, as redes sociais, tantas vezes demonizadas, n\u00e3o permitiram que o massacre ficasse nos rodap\u00e9s dos espa\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o e saltou para os assuntos mais comentados, em todo o mundo, durante os onze dias em que assistimos \u00e0s imagens de horror.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As costas largas do Hamas<\/h2>\n\n\n\n<p>O direito de autodefesa de qualquer Estado est\u00e1 garantido nas normas internacionais, mas h\u00e1 a quest\u00e3o da proporcionalidade na resposta a uma agress\u00e3o por outro Estado e o respeito pelo Direito Internacional. Israel n\u00e3o cumpre qualquer dos dois, at\u00e9 porque n\u00e3o reconhece \u00e0 Palestina o estatuto de Estado. Depois de ter ajudado a implantar o Hamas como interlocutor na Faixa de Gaza, uma estrat\u00e9gia que serviu para retirar autoridade \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e \u00e0 Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, Israel recorre ao lan\u00e7amento de rockets por parte daquela organiza\u00e7\u00e3o para justificar o bombardeamento de f\u00e1bricas, escolas e, desta vez, nem o \u00fanico centro de testagem \u00e0 Covid-19 em Gaza escapou. Pode parecer estranho, pela forma como a informa\u00e7\u00e3o nos chega, mas a Faixa de Gaza \u00e9 uma \u00e1rea com uma densidade populacional de cerca de 5.000 pessoas por km\u00b2. Para termos uma ideia, Portugal tem 115 pessoas por km\u00b2. Os bombardeamentos pararam, mas o ass\u00e9dio di\u00e1rio aos palestinianos continuou no dia seguinte, com opera\u00e7\u00f5es policiais na mesquita de Al-Aqsa. A morte caiu do c\u00e9u e veio \u00e0 terra.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O s\u00fabito encanto da academia<\/h2>\n\n\n\n<p>Desta vez, a desculpa mais usada para n\u00e3o condenar o Estado apartheid de Israel foi a de que \u201cn\u00e3o sabemos o suficiente\u201d sobre a quest\u00e3o, que tem um contexto hist\u00f3rico complexo. Obviamente, podemos usar este argumento em qualquer discuss\u00e3o que decidamos n\u00e3o ter. Na verdade, este s\u00f3 surgiu agora porque, conforme referido, h\u00e1 uma viragem clara na opini\u00e3o p\u00fablica, que parece come\u00e7ar a n\u00e3o aceitar a narrativa medi\u00e1tica oficial. Neste cap\u00edtulo, fica um apontamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 SIC. J\u00e1 h\u00e1 alguns anos que \u00e9 dif\u00edcil perceber se \u00e9 aquele canal que tem um correspondente em Israel, ou se \u00e9 Israel que tem um correspondente na SIC. Curiosamente, parece n\u00e3o ser necess\u00e1rio ter qualquer conhecimento hist\u00f3rico para debitar certezas sobre a realidade pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, por exemplo, do Leste da Europa ou da \u00c1sia. Para isso, parece que estamos todos alegremente habilitados, como se estes fossem filhos de um deus menor, desmerecedores do nosso profundo conhecimento sobre tudo. Condenar o massacre constante de palestinianos \u00e0s m\u00e3os da ocupa\u00e7\u00e3o israelita n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o acad\u00e9mica. \u00c9 dec\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O reacender medi\u00e1tico da limpeza \u00e9tnica nos Territ\u00f3rios Ocupados e a continua\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio perpetrado por Israel, reacendeu o debate em torno da quest\u00e3o da Palestina. 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