{"id":4669,"date":"2021-06-15T11:36:45","date_gmt":"2021-06-15T11:36:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4669"},"modified":"2021-06-15T11:36:46","modified_gmt":"2021-06-15T11:36:46","slug":"o-discurso-de-bento-goncalves-na-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/06\/15\/o-discurso-de-bento-goncalves-na-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"O discurso de Bento Gon\u00e7alves n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos intervalos das suas tr\u00eas partidas para \u00c1frica, Bento Gon\u00e7alves n\u00e3o disp\u00f4s no total de mais de seis anos como dirigente oper\u00e1rio no activo \u2013 e sempre sob ditadura. Mas, nesse tempo que lhe escasseou, deu um contributo que faz dele, sem d\u00favida, uma \u201cfigura grada\u201d na hist\u00f3ria do sindicalismo e da resist\u00eancia anti-fascista em Portugal. E na hist\u00f3ria do seu partido, o Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Recorde-se que s\u00f3 depois de regressar de Angola, onde viveu dois anos em servi\u00e7o militar, \u00e9 que ele se salientou no movimento sindical, sendo eleito, em 1927, secret\u00e1rio-geral de um dos grandes sindicatos na Lisboa da \u00e9poca, o Sindicato do Pessoal do Arsenal da Marinha, ent\u00e3o com cerca de 1700 trabalhadores associados.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi na sequ\u00eancia da sua ac\u00e7\u00e3o como sindicalista que Bento Gon\u00e7alves aderiu ao PCP e, em 1929, se tornou seu secret\u00e1rio-geral. No espa\u00e7o de cerca de um ano, esteve entre os principais respons\u00e1veis pela reorganiza\u00e7\u00e3o que lan\u00e7ou o PCP para um papel central na resist\u00eancia \u00e0 ditadura. E foi fundador da Comiss\u00e3o Inter-Sindical, uma estrutura semi-legal que rapidamente passou a funcionar como uma nova central sindical. Tudo isto nas horas vagas deixadas pelo seu trabalho, como oper\u00e1rio na oficina de m\u00e1quinas do Arsenal da Marinha.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, logo em 1930, foi preso e deportado, primeiro para os A\u00e7ores e depois para Cabo Verde: a sua segunda partida para \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 p\u00f4de regressar a Portugal em 1933. Retomou ent\u00e3o fun\u00e7\u00f5es na direc\u00e7\u00e3o do PCP e no seu posto de trabalho no Arsenal. Ao fim de seis meses, passou \u00e0 clandestinidade, para se poder consagrar \u00e0 luta contra a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas teve pouco tempo. Em 1935 foi outra vez preso e deportado, novamente primeiro para os A\u00e7ores e depois para Cabo Verde: a sua terceira partida para \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 n\u00e3o regressou com vida. Morreu, com apenas 40 anos de idade, no campo de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal, em Cabo Verde. Assassinado com exposi\u00e7\u00e3o deliberada a doen\u00e7as tropicais, maus tratos e nega\u00e7\u00e3o de tratamento m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Bento Gon\u00e7alves foi um dos principais opositores assassinados pela ditadura de Salazar, juntamente com o general Humberto Delgado e o sindicalista M\u00e1rio Castelhano (antigo secret\u00e1rio-geral da CGT).<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1\u00ba de Maio<\/h2>\n\n\n\n<p>Em representa\u00e7\u00e3o do sindicato do Arsenal da Marinha, Bento Gon\u00e7alves foi um dos oradores nas celebra\u00e7\u00f5es do 1\u00ba de Maio que, em 1928, se realizaram no sal\u00e3o da A Voz do Oper\u00e1rio. Desse seu discurso, s\u00f3 conhecemos a mo\u00e7\u00e3o que apresentou e que foi aprovada. \u00c9 um documento que reflecte bem as limita\u00e7\u00f5es impostas pela ditadura militar, no \u201cper\u00edodo pr\u00e9-fascista\u201d. Com um cariz unit\u00e1rio e defensivo, n\u00e3o apresenta nenhuma nova reivindica\u00e7\u00e3o, mas marca uma afirma\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia, na qual ressalta a refer\u00eancia aos militantes oper\u00e1rios e sindicais que estavam presos e deportados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dizia o seguinte:<\/h2>\n\n\n\n<p><em>\u201cPrestar homenagem a todos aqueles que, a despeito de sacrif\u00edcios indiz\u00edveis t\u00eam lutado em prol das reivindica\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria, e procurar manter a todo o transe, al\u00e9m do hor\u00e1rio normal de trabalho, todas as outras conquistas realizadas;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Afirmar o seu protesto contra todos aqueles que t\u00eam concorrido e procuram concorrer para o agravamento da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e moral da mesma classe;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E, finalmente, prestar toda a solidariedade moral e material aos oper\u00e1rios prejudicados pela sua ac\u00e7\u00e3o nas associa\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em>&nbsp;(entre outras fontes:&nbsp;<em>O S\u00e9culo<\/em>, 03\/05\/1928 e&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Lisboa<\/em>, 02\/05\/1928)<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui a palavra \u201cassocia\u00e7\u00f5es\u201d refere-se a sindicatos. Segundo a lei sindical ent\u00e3o ainda em vigor (de 1891), os sindicatos eram designados como \u201cassocia\u00e7\u00e3o de classe\u201d e era essa a express\u00e3o correntemente utilizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta celebra\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de Maio na A Voz do Oper\u00e1rio contou tamb\u00e9m com a interven\u00e7\u00e3o de uma mulher j\u00e1 veterana das lutas laborais, a oper\u00e1ria tabaqueira Virg\u00ednia Silva.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Liga Pr\u00f3-Moral<\/h2>\n\n\n\n<p>Outra interven\u00e7\u00e3o de Bento Gon\u00e7alves ligada \u00e0 A Voz do Oper\u00e1rio acorreu no final do mesmo ano de 1928: foi ele quem presidiu \u00e0 festa anual da \u201cLiga Pr\u00f3-Moral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma associa\u00e7\u00e3o de solidariedade social, focada no bairro da Gra\u00e7a, e que tinha sido fundada, em 1917, por um grupo de funcion\u00e1rios da A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um balan\u00e7o efectuado em 1945, a Liga Pr\u00f3-Moral j\u00e1 tinha distribu\u00eddo roupa e cal\u00e7ado a mais de duas mil crian\u00e7as. Ao longo desses anos teve como dirigentes v\u00e1rias figuras hist\u00f3ricas da A Voz do Oper\u00e1rio como os sindicalistas Jo\u00e3o Rodrigues Cass\u00e3o (dos oper\u00e1rios tabaqueiros), Agostinho de Carvalho (dos arsenalistas da Marinha), ou J\u00falio Silva e Am\u00edlcar Costa (dos caixeiros), entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1928 a Liga Pr\u00f3-Moral estava instalada na sede do sindicato do Arsenal da Marinha, cujo secret\u00e1rio-geral era Bento Gon\u00e7alves. Foi nessa fun\u00e7\u00e3o que lhe coube presidir \u00e0 festa anual, na qual foi oferecida roupa completa e cal\u00e7ado a 36 crian\u00e7as, al\u00e9m de lhes ter sido servido um almo\u00e7o conv\u00edvio.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento de sess\u00e3o solene, Bento teve a seu lado, a secretari\u00e1-lo, o regedor da freguesia, Joaquim Salvador, e um representante da A Voz do Oper\u00e1rio, Jos\u00e9 de Almeida.<\/p>\n\n\n\n<p>Refira-se que, para al\u00e9m de albergar a Liga Pr\u00f3-Moral, o sindicato do Arsenal da Marinha mantinha uma escola prim\u00e1ria com perto de 30 alunos, equipada com uma cantina infantil. E dispunha tamb\u00e9m de uma biblioteca para os s\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um exemplo da importante ac\u00e7\u00e3o cultural e social levada a cabo pelos sindicatos livres, que a ditadura dissolveu \u00e0 for\u00e7a, ao transformar-se num regime de tipo fascista, em 1933.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos intervalos das suas tr\u00eas partidas para \u00c1frica, Bento Gon\u00e7alves n\u00e3o disp\u00f4s no total de mais de seis anos como dirigente oper\u00e1rio no activo \u2013 e sempre sob ditadura. 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