{"id":4610,"date":"2021-05-17T10:31:19","date_gmt":"2021-05-17T10:31:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4610"},"modified":"2021-05-17T10:31:21","modified_gmt":"2021-05-17T10:31:21","slug":"israel-nao-me-deixou-ser-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/05\/17\/israel-nao-me-deixou-ser-crianca\/","title":{"rendered":"&#8220;Israel n\u00e3o me deixou ser crian\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foi detido e torturado quando era crian\u00e7a. Na Cisjord\u00e2nia, onde Israel lhe roubou a inf\u00e2ncia, aprendeu na escola das ruas que sem resist\u00eancia a Palestina n\u00e3o tem futuro. Hoje, vive em Lisboa mas as mem\u00f3rias mant\u00eam-se intactas. Quando fecha os olhos, lembra-se do cheiro da terra e dos olivais a perder de vista. Diz que \u00e9 do seu povo que mais falta sente. E n\u00e3o tem d\u00favidas: de que Jerusal\u00e9m \u00e9 a capital da Palestina e de que a ocupa\u00e7\u00e3o e a paz s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p>A 14 de mar\u00e7o de 1978, 25 mil soldados israelitas invadiram o sul do L\u00edbano para atacar as zonas de influ\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP). A agress\u00e3o militar provocou cerca de 2 mil mortos, entre libaneses e palestinianos, e 250 mil deslocados. Exatamente uma semana antes, Ashraf Abuhajleh nascia numa cidade cisjordana com pouco mais do que 5 mil habitantes. \u00c0 conversa com <em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em> conta que Deir Istiya fica perto de Nablus. \u201c\u00c9 uma localidade hist\u00f3rica porque tem um importante templo crist\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 famosa pelas suas oliveiras\u201d. A partir da d\u00e9cada de 50, depois da declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia de Israel que conduziu \u00e0 expuls\u00e3o de quase um milh\u00e3o de palestinianos das suas casas, a terra natal de Ashraf transforma-se num dos basti\u00f5es do Partido Comunista ao ponto de lhe chamarem Moscovo da Palestina. Desde ent\u00e3o, a ocupa\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia marcaram a vida de gera\u00e7\u00f5es de \u00e1rabes que cresceram sob o signo da viol\u00eancia.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIr de casa at\u00e9 \u00e0 escola implicava assistir a confrontos di\u00e1rios e n\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos alheios ao que viviamos. N\u00f3s n\u00e3o pudemos ser crian\u00e7as. A presen\u00e7a de Israel nos nossos territ\u00f3rios \u00e9 criminosa\u201d, descreve Ashraf. \u00c9 uma realidade que n\u00e3o mudou muito. S\u00f3 no ano passado, at\u00e9 agosto, as tropas israelitas mataram sete estudantes e deixaram 284 feridos entre alunos, professores e auxiliares. Segundo um relat\u00f3rio divulgado pelo respons\u00e1vel pela pasta da Educa\u00e7\u00e3o na Palestina, at\u00e9 esse m\u00eas, 634 estudantes e 183 professores foram detidos. O documento revelou ainda que as barreiras militares impediram o leccionamento de 1516 aulas. Ashraf explica que s\u00f3 quem vive determinado grau de viol\u00eancia di\u00e1ria \u00e9 que pode compreender o sentimento de revolta que germina cedo na consci\u00eancia dos jovens palestinianos. Lembra-se de quando atirou a primeira pedra contra um blindado israelita. \u201cCercaram Deir Istiya depois de uma a\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia e impuseram o recolher obrigat\u00f3rio. N\u00e3o pod\u00edamos andar nas ruas\u201d, conta. \u201cDepois, perseguiram-me at\u00e9 casa, falaram com os meus pais e acusaram-me de os ter apedrejado. O capit\u00e3o disse-me que da pr\u00f3xima vez ia preso\u201d, acrescenta. Tinha onze anos.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Arriscar a morte aos onze<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando rebentou a primeira <em>intifada<\/em>, em 1987, Ashraf tinha nove anos e assistiu ao levantamento do povo palestiniano contra a ocupa\u00e7\u00e3o. Sucessivas greves gerais, boicote \u00e0s institui\u00e7\u00f5es israelitas, recusa em pagar impostos a Telavive e a trabalhar nos colonatos e a\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia foram a primeira resposta \u00e0 morte de quatro civis num campo de refugiados em Jabalia. Israel contra-atacou com o envio de 80 mil soldados. O resultado foi brutal. Nesse mesmo ano, morreram 311 palestinianos, 53 deles com menos de 17 anos. Em 1988, a organiza\u00e7\u00e3o Save the Children estimava que 7% dos palestinianos com menos de 18 anos tinham sido v\u00edtimas de disparos, bastonadas ou g\u00e1s lacrimog\u00e9neo. Quando o Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas condenou o uso de muni\u00e7\u00e3o real por parte de Telavive contra a popula\u00e7\u00e3o civil, o ent\u00e3o ministro da Defesa, Yitzhak Rabin, que viria a receber o Nobel da Paz, ordenou o uso de bast\u00f5es e afirmou que o ex\u00e9rcito devia partir os ossos aos palestinianos. Entre 23 e 30 mil crian\u00e7as tiveram de ser assistidas pelas agress\u00f5es das tropas israelitas.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm plena<em> intifada<\/em>, comecei a fazer coisas sozinho. Atirava pedras aos soldados, pintava faixas e pichava paredes. Depois, pouco antes dos 12 anos, juntei-me com um grupo de amigos\u201d, recorda Ashraf. At\u00e9 que chegou o dia que jamais vai esquecer. \u201cFomos emboscados pelo ex\u00e9rcito quando alguns camaradas lan\u00e7avam <em>cocktail molotovs<\/em> contra tanques israelitas\u201d, descreve. As metralhadoras dispararam mais de 25 tiros contra as crian\u00e7as palestinianas. Uma delas caiu abatida e a outra foi levada em estado grave para um hospital sob deten\u00e7\u00e3o. Para a vida, ficou-lhe a aprendizagem de que um camarada na pris\u00e3o n\u00e3o denuncia os companheiros de luta. \u201cEle estava ferido, foi torturado e, ainda assim, n\u00e3o disse um \u00fanico dos nomes que os israelitas exigiam\u201d, conta.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preso e torturado aos 13<\/h2>\n\n\n\n<p>O grupo de pequenos resistentes continuou a sua actividade contra a ocupa\u00e7\u00e3o num contexto de insurrei\u00e7\u00e3o generalizada at\u00e9 os servi\u00e7os israelitas de intelig\u00eancia identificarem Ashraf depois de uma ac\u00e7\u00e3o. Antes, entrara na Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, organiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da esquerda palestiniana. Tinha 13 anos quando o avisaram que ia ser capturado. \u201cEu n\u00e3o queria ser preso. Como a maioria dos jovens palestinianos eu queria continuar a resistir mesmo que isso significasse a morte. Mas por causa da minha fam\u00edlia decidi permanecer em casa\u201d, explica. Conversou com os pais e explicou o que estava a acontecer. Olhando para tr\u00e1s, aqueles dias \u201cforam duros\u201d e lembra que \u201cningu\u00e9m gosta de ver o filho preso, morto ou ferido\u201d. Dias depois, um enorme aparato militar cercou a casa da fam\u00edlia Ashraf. \u201cPuseram um lan\u00e7a-rockets apontado para a casa. Tinham ordens para a demolir como vingan\u00e7a pelas minhas actividades pol\u00edticas. \u00c0 \u00faltima hora, um advogado conseguiu cancelar essa barb\u00e1rie\u201d, denuncia.<br><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ao centro de deten\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m lhe tocou mas mal o <em>jeep<\/em> parou atiraram-no algemado para cima de umas roseiras. Levava um saco na cabe\u00e7a e foi arrastado pelo ch\u00e3o at\u00e9 ao detector de metais. \u201cDepois, dois soldados alternavam entre si para me espancar. Foi a madrugada inteira e ainda nem sequer era o interrogat\u00f3rio. Fui insultado e agredido. Mas j\u00e1 sabia que isso ia acontecer. \u00c9 o que acontece sempre\u201d, descreve. \u201cO interrogat\u00f3rio foi pior. N\u00e3o fui s\u00f3 insultado. Amea\u00e7aram matar-me e \u00e0 minha fam\u00edlia. N\u00e3o me davam de comer nem de beber. Obrigavam-me a ficar acordado. Lembro-me que metiam grava\u00e7\u00f5es de \u00f3pera no volume m\u00e1ximo. Despiam-me, batiam-me e apertavam-me os test\u00edculos com for\u00e7a\u201d, recorda. \u201cApesar de n\u00e3o nos deixarem ter inf\u00e2ncia claro que eu continuava a ser uma crian\u00e7a. Tinha apenas 13 anos e estava a ser torturado\u201d, denuncia. Ashraf conta, ent\u00e3o, que passaram a usar a t\u00e9cnica do pol\u00edcia bom e do pol\u00edcia mau. Diziam-lhe que tinham filhos da mesma idade. Que os seus camaradas haviam sido presos e que j\u00e1 tinham falado e se tamb\u00e9m falasse podia abandonar a pris\u00e3o. \u201cPensei no meu companheiro que com apenas 12 anos n\u00e3o tinha dado o meu nome aos torturadores. Isso deu-me for\u00e7a\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Foi condenado a dez anos de pris\u00e3o dos quais s\u00f3 cumpriu oito meses gra\u00e7as aos acordos de paz assinados em Oslo que permitiram a liberta\u00e7\u00e3o de centenas de crian\u00e7as. Ashraf descreve o c\u00e1rcere como algo desumano: \u201cEu era uma crian\u00e7a e estava numa cela cheia de ratazanas e baratas. A sanita era um barril meio ca\u00eddo cheio de excrementos e moscas com um cortinado desfeito\u201d. Quando saiu tinha perdido dois anos lectivos. \u201cPerdi praticamente dois anos porque fui preso no segundo per\u00edodo do 9\u00ba ano e fui libertado quando j\u00e1 devia estar no 10\u00ba. Felizmente, Iasser Arafat decidiu que as escolas deviam aprovar todas as crian\u00e7as presas\u201d, acrescenta.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Portugal<\/h2>\n\n\n\n<p>Vinte e quatro anos depois, Ashraf vive em Lisboa. Estudou em Aveiro gra\u00e7as a uma bolsa de estudo e diz que os portugueses s\u00e3o um povo simp\u00e1tico e solid\u00e1rio. Apesar de terem passado duas d\u00e9cadas e meia, considera que pouco mudou. Em Portugal, as crian\u00e7as t\u00eam direitos, diz, mas na Palestina continuam a ser mortas, presas e torturadas. \u201c\u00c9 certo que agora h\u00e1 mais cobertura. Naquela altura n\u00e3o havia redes sociais e era mais dif\u00edcil denunciar a nossa situa\u00e7\u00e3o\u201d, recorda. O caso de Ahed Tamimi \u00e9 importante \u201cmas n\u00e3o \u00e9 \u00fanico\u201d. Continua a haver centenas de crian\u00e7as nas pris\u00f5es israelitas. Ashraf concorda com a resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o \u201cem todas as suas formas\u201d e diz que o que \u201cfoi tomado pela for\u00e7a s\u00f3 voltar\u00e1 pela for\u00e7a\u201d. N\u00e3o porque sejam violentos ou terroristas mas porque t\u00eam \u201co direito reconhecido pela ONU de resistir \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cercado pelas tropas israelitas<\/h2>\n\n\n\n<p>Anan Tanja \u00e9 outro dos cerca de 70 palestinianos que vivem em Portugal. Na Europa, \u00e9 um dos principais dirigentes da Fatah, partido da Palestina fundado por Iasser Arafat e de que \u00e9 respons\u00e1vel no nosso pa\u00eds. Em 1979, nasceu em Bel\u00e9m, considerada pelos crist\u00e3os o ber\u00e7o de Jesus Cristo. Foi precisamente na Igreja da Natividade, templo bizantino constru\u00eddo em 325, que Anan se refugiou, em 2002, durante a segunda <em>intifada<\/em>. Mais de tr\u00eas mil soldados israelitas, 200 tanques e 30 avi\u00f5es de combate participaram no cerco ao edif\u00edcio com o objetivo de capturar as dezenas de resistentes palestinianos que se encontravam no interior.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFui ferido e detido ainda na primeira <em>intifada <\/em>quando era uma crian\u00e7a\u201d, conta \u00e0 <em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>. Anos mais tarde, Anan viria a figurar na lista dos mais procurados por Israel. Em Lisboa, conta que o seu sonho \u00e9 poder regressar \u00e0 Palestina. \u201cA paz s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando os israelitas aceitarem um Estado palestiniano independente com Jerusal\u00e9m como capital\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>*Artigo publicado n&#8217;<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em> em 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi detido e torturado quando era crian\u00e7a. Na Cisjord\u00e2nia, onde Israel lhe roubou a inf\u00e2ncia, aprendeu na escola das ruas que sem resist\u00eancia a Palestina n\u00e3o tem futuro. Hoje, vive em Lisboa mas as mem\u00f3rias mant\u00eam-se intactas. Quando fecha os olhos, lembra-se do cheiro da terra e dos olivais a perder de vista. Diz que &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/05\/17\/israel-nao-me-deixou-ser-crianca\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Israel n\u00e3o me deixou ser crian\u00e7a&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":4611,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4610"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4610"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4613,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4610\/revisions\/4613"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4610"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}