{"id":4588,"date":"2021-05-12T09:24:33","date_gmt":"2021-05-12T09:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4588"},"modified":"2021-05-12T09:24:35","modified_gmt":"2021-05-12T09:24:35","slug":"bento-de-jesus-caraca-na-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/05\/12\/bento-de-jesus-caraca-na-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"Bento de Jesus Cara\u00e7a n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Passou agora, no dia 18 de Abril, o 120\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento de uma grande figura da cultura e da resist\u00eancia antifascista em Portugal: o professor Bento de Jesus Cara\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pod\u00edamos nesta ocasi\u00e3o deixar de render homenagem \u00e0 sua mem\u00f3ria e \u00e0 liga\u00e7\u00e3o que ele teve \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, da qual era associado.Recordamos tamb\u00e9m sua mulher, C\u00e2ndida Ribeiro Gaspar, que foi nossa professora. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ali\u00e1s curioso como v\u00e1rios destacados resistentes antifascistas foram casados com professoras d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Foi tamb\u00e9m esse o caso, por exemplo, do sindicalista M\u00e1rio Castelhano e do professor Cansado Gon\u00e7alves.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Museu do Trabalho<strong>\ufeff<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma iniciativa que A Voz do Oper\u00e1rio concretizou em janeiro de 1945 foi a cria\u00e7\u00e3o do primeiro Museu do Trabalho em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o propriamente dita, a sua atividade incluiu uma s\u00e9rie de confer\u00eancias culturais em torno do tema do trabalho. Ainda se realizaram v\u00e1rias, at\u00e9 que no dia 5 de Novembro, a ditadura proibiu, j\u00e1 no pr\u00f3prio dia, uma confer\u00eancia sobre cultura popular que iria ser proferida pelo professor Ferreira de Macedo (o fundador da Universidade Popular Portuguesa). No mesmo \u2018golpe\u2019 foi tamb\u00e9m proibida a confer\u00eancia seguinte, prevista para dois dias depois, em que Aquilino Ribeiro falaria sobre \u201co escritor e a sua \u00e9poca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Revoltada, e considerando por certo que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para prosseguir, a dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio decidiu suspender o programa de confer\u00eancias do Museu do Trabalho. Para o dia 12 desse m\u00eas estava prevista uma confer\u00eancia de Bento Jesus Cara\u00e7a, com o t\u00edtulo \u201cO problema do ensino nos \u00faltimos anos\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">MUD<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso compreender que a ditadura estava num momento de alguma fragilidade. A Segunda Guerra Mundial tinha terminado h\u00e1 poucos meses, com a derrota dos regimes fascistas da Alemanha e da It\u00e1lia. Salazar sentiu necessidade de vestir a pele de democrata e convocou elei\u00e7\u00f5es. Acabaram sendo apenas um simulacro, umas elei\u00e7\u00f5es falsificadas a todos os n\u00edveis. Mas um abrandamento moment\u00e2neo da censura revelou um grande descontentamento popular e um grande apoio \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. Nasceu ent\u00e3o o MUD (Movimento de Unidade Democr\u00e1tica), em cuja funda\u00e7\u00e3o participou Bento Cara\u00e7a e tamb\u00e9m o ent\u00e3o presidente da dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Raul Esteves dos Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o de duas confer\u00eancias do Museu do Trabalho constituiu uma repres\u00e1lia a esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar das dificuldades, e numa situa\u00e7\u00e3o de semi-legalidade, o MUD continuou por algum tempo. E foi no sal\u00e3o d\u2019A&nbsp;Voz do Oper\u00e1rio que um ano depois, a 30 de Novembro de 1946, promoveu uma sess\u00e3o. Bento de Jesus Cara\u00e7a, vice-presidente da comiss\u00e3o central do MUD, foi um dos oradores, proferindo um discurso sobre \u201cAspectos do panorama cultural portugu\u00eas\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preso pol\u00edtico<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando discursou n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, nesse dia do Outono de 1946, j\u00e1 estaria fraquejando a sa\u00fade a Bento de Jesus Cara\u00e7a. Veio a falecer um ano e meio depois, com apenas 47 anos de idade. Mas h\u00e1 outro aspeto a salientar na cronologia desse discurso: tinha sido preso pela PIDE no m\u00eas anterior e voltou a ser preso no m\u00eas seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi preso no dia 13 de Outubro e passou ent\u00e3o quatro dias incomunic\u00e1vel numa esquadra. E foi de novo preso no dia 13 de Dezembro, passando uma noite na cadeia do Aljube \u2013 no mesmo edif\u00edcio onde hoje funciona o Museu da Resist\u00eancia e Liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sofreu tamb\u00e9m outra forma de repress\u00e3o, que colocou em causa a sua sobreviv\u00eancia econ\u00f3mica: foi demitido do seu lugar de professor do ensino superior. J\u00e1 tinha acontecido o mesmo, onze anos antes, ao professor Aur\u00e9lio Quintanilha, na Universidade de Coimbra. E aconteceu a outras mentes brilhantes que o fascismo expulsou das universidades portuguesas, com grave preju\u00edzo para o desenvolvimento da ci\u00eancia e do conhecimento neste pa\u00eds.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Funeral<\/h2>\n\n\n\n<p>Bento de Jesus Cara\u00e7a faleceu em 25 de Junho de 1948.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob as restri\u00e7\u00f5es da censura pr\u00e9via a que a imprensa era submetida, muita coisa ficou por dizer. Mas A Voz do Oper\u00e1rio n\u00e3o deixou de lhe prestar homenagem nesse momento, com uma not\u00edcia na primeira p\u00e1gina do seu jornal. \u00c9 um documento hist\u00f3rico, do qual recordamos o seguinte excerto:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00abO acontecimento \u2013 embora esperado na roda dos seus mais \u00edntimos amigos \u2013 impressionou as camadas populares, onde Bento Cara\u00e7a era querido pelo seu saber e pelo seu belo car\u00e1cter.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Logo que tivemos conhecimento desta triste not\u00edcia, o sr. Raul Esteves dos Santos foi a casa do ilustre extinto apresentar em nome de A Voz do Oper\u00e1rio sentidas condol\u00eancias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Filho de humildes camponeses alentejanos, a sua carreira \u00e9 um alto exemplo do valor da sua for\u00e7a de vontade, favorecida por uma grande intelig\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No seu funeral, que A Voz do Oper\u00e1rio realizou, o povo que ele estimou e para o qual vivia, esteve presente acompanhando-o numa comovente atmosfera de respeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Acompanhado por milhares de pessoas, o seu corpo coberto com a bandeira de A Voz do Oper\u00e1rio, de que era s\u00f3cio, seguiu at\u00e9 ao cemit\u00e9rio dos Prazeres.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o houve discursos.\u00bb<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Centen\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2001, A Voz do Oper\u00e1rio teve um papel central nas comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do nascimento de Bento de Jesus Cara\u00e7a, organizando uma exposi\u00e7\u00e3o que esteve patente na sua sede e promovendo uma confer\u00eancia com o historiador Alberto Pedroso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passou agora, no dia 18 de Abril, o 120\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento de uma grande figura da cultura e da resist\u00eancia antifascista em Portugal: o professor Bento de Jesus Cara\u00e7a. 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