{"id":4571,"date":"2021-05-06T21:57:26","date_gmt":"2021-05-06T21:57:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4571"},"modified":"2021-05-06T21:57:27","modified_gmt":"2021-05-06T21:57:27","slug":"superliga-europeia-como-o-futebol-foi-raptado-pela-financa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/05\/06\/superliga-europeia-como-o-futebol-foi-raptado-pela-financa\/","title":{"rendered":"Superliga Europeia. Como o futebol foi raptado pela finan\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Atl\u00e9tico de Madrid, Real Madrid, Barcelona, AC Milan, Inter, Juventus, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham foram os clubes que anunciaram a nova competi\u00e7\u00e3o e que estiveram na mira da revolta dos adeptos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O tema da Superliga Europeia chegou de repente e dominou o debate na \u00faltima semana de abril. O futebol tem essa capacidade de se impor e o tema, para ser absolutamente franco, parece-me suficientemente importante para que dele se fale e sobre ele se troquem argumentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O aparentemente unanimismo em torno da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 nova competi\u00e7\u00e3o e as suas caracter\u00edsticas particulares \u2013 a sua natureza internacional e sem liga\u00e7\u00e3o \u00e0s competi\u00e7\u00f5es nacionais, o facto de ser um clube reservado de emblemas milion\u00e1rios, a origem do seu financiamento no superbanco norte-americano JP Morgan e a linha de argumenta\u00e7\u00e3o em sua defesa, totalmente centrada na fatura\u00e7\u00e3o e na necessidade, nunca satisfeita, de mais receitas por parte dos emblemas mais poderosos do futebol mundial \u2013 \u00e9 interessante, mas esconde um enorme edif\u00edcio de contradi\u00e7\u00f5es no mundo do desporto, que hoje \u00e9 um verdadeiro h\u00edbrido de caracter\u00edsticas no seio do qual o futebol jogado \u00e9 cada vez mais um detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cSuperliga Europeia\u201d \u00e9 um projecto que se encontra nos ant\u00edpodas do futebol ligado \u00e0s comunidades e, em certo sentido, um inimigo mortal do jogo popular, com uma dimens\u00e3o desportiva e outra recreativa, jogado no campo e disfrutado na bancada, debatido no caf\u00e9, nos postos de trabalho, nas fam\u00edlias e em todos os lugares onde se encontrarem dois adeptos do jogo. Mas esta \u201cSuperliga\u201d n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel de involu\u00e7\u00f5es que desde meados dos anos 90 se verificaram na estrutura\u00e7\u00e3o das competi\u00e7\u00f5es internacionais, nas liga\u00e7\u00f5es dos clubes ao sector financeiro e especulativo e, n\u00e3o menos importante, no processo de transforma\u00e7\u00e3o f\u00edsica e humana das bancadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A compara\u00e7\u00e3o da \u201cSuperliga Europeia\u201d com as competi\u00e7\u00f5es actualmente existentes parece transformar a actual \u201cLiga dos Campe\u00f5es\u201d num g\u00e9nero de competi\u00e7\u00e3o popular que n\u00e3o \u00e9 nem foi. Ali\u00e1s, o argumento do m\u00e9rito que parece dividir as \u00e1guas entre a \u201cChampions League\u201d e a Liga dos 12 \u00e9 uma f\u00e1bula, um embuste, uma mentira. \u00c9 que a transforma\u00e7\u00e3o da \u201cTa\u00e7a dos Campe\u00f5es Europeus\u201d em \u201cLiga dos Campe\u00f5es\u201d \u2013 passando a incluir equipas que n\u00e3o s\u00e3o e em alguns casos nunca foram campe\u00e3s nacionais \u2013 foi na verdade um corte t\u00e3o extremo com o passado como ser\u00e1 este, caso avance.<\/p>\n\n\n\n<p>O futebol de alto rendimento \u2013 desportivo e financeiro \u2013 deixou de ter no \u201cm\u00e9rito\u201d o factor de diferencia\u00e7\u00e3o entre projectos desportivos, deixou de ter na representa\u00e7\u00e3o associativa o seu m\u00f3bil fundamental e deixou de ter na bancada o seu espa\u00e7o privilegiado de socializa\u00e7\u00e3o \u201cdo\u201d e \u201cno\u201d jogo. O resultadismo passou a exercer uma press\u00e3o insuport\u00e1vel sobre os meios e os fins passaram a justificar toda a sorte de aldrabices. Os maiores clubes s\u00e3o antes de mais ve\u00edculos para o investimento de capitais cuja proveni\u00eancia \u00e9 n\u00e3o raras vezes desconhecida. Os s\u00f3cios transformaram-se em clientes aos quais \u00e9 exigido apoio \u2013 dentro de apertadas regras de comportamento \u2013 e retirado poder.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema \u201cSuperliga Europeia\u201d veio trazer luz sobre o contexto do jogo, aquele acerca do qual os adeptos pouco ou nada reflectem, imersos que se encontram na adrenalina do resultado, no desinteressante e inconsequente debate acerca do lance pol\u00e9mico e na ambi\u00e7\u00e3o desmedida de mais um trof\u00e9u na prateleira. Aproveitemos este curto per\u00edodo de aten\u00e7\u00e3o sobre a gan\u00e2ncia que domina o jogo para lembrar que esta precede qualquer Liga dos 12, e que mesmo no contexto das provas institu\u00eddas e aceites h\u00e1 um sem n\u00famero de factores que lhes retiram verdade, interesse e, de forma cada vez mais evidente, adeptos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal h\u00e1 uma lei das SAD para rever, com urg\u00eancia. A lei foi imposta nos anos 90, de cima para baixo. N\u00e3o era uma reivindica\u00e7\u00e3o dos clubes, mas a todos se imp\u00f4s como parte de um processo de privatiza\u00e7\u00e3o crescente da coisa p\u00fablica e\/ou comum que dominou o neoliberalismo portugu\u00eas dos anos 90. Quase um quarto de s\u00e9culo depois, os resultados est\u00e3o \u00e0 vista: clubes centen\u00e1rios que se viram tomados e outros que, controlando formalmente o seu futebol, est\u00e3o totalmente dependentes dos seus credores. Adeptos atacados na sua condi\u00e7\u00e3o de verdadeiros \u201cdonos do jogo\u201d, s\u00f3cios afastados do exerc\u00edcio j\u00e1 n\u00e3o apenas do poder mas tamb\u00e9m da fiscaliza\u00e7\u00e3o e controlo sobre a gest\u00e3o do \u201cseu\u201d futebol e provas tomadas por interesses laterais ao jogo, que nele v\u00eaem um ve\u00edculo privilegiado para multiplicar opera\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Costa, primeiro-ministro de Portugal, encontrou oportunidade e tempo para se vir manifestar contra a Superliga Europeia. Talvez esse tempo fosse mais bem empregue se o utilizasse para questionar o apagado secret\u00e1rio de estado do desporto acerca da urgente, necess\u00e1ria e justa altera\u00e7\u00e3o \u00e0 pantanosa lei das SAD. O PS deve-o ao pa\u00eds desportivo, j\u00e1 que foi com Ant\u00f3nio Guterres no governo e com Miranda Calha como secret\u00e1rio de estado da tutela que se abriu a porta para os mais obscuros interesses tomarem o futebol associativo e o transformarem numa coisa sua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atl\u00e9tico de Madrid, Real Madrid, Barcelona, AC Milan, Inter, Juventus, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham foram os clubes que anunciaram a nova competi\u00e7\u00e3o e que estiveram na mira da revolta dos adeptos. O tema da Superliga Europeia chegou de repente e dominou o debate na \u00faltima semana de abril. O futebol &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/05\/06\/superliga-europeia-como-o-futebol-foi-raptado-pela-financa\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Superliga Europeia. 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